sábado, 13 de agosto de 2016

Penny Dreadful – Terceira Temporada

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Quando os fãs e espectadores começaram a assistir à terceira temporada de Penny Dreadful, não faziam ideia de que estavam vendo também o último ano da série. No cenário televisivo pop dominado por Game of Thrones The Walking Dead, a criação do roteirista e produtor John Logan nunca rendeu uma grande audiência para o canal Showtime e, de quebra, ainda era cara de produzir, mas tinha uma legião de fãs devotos que esperavam ver ainda mais alguns anos de aventuras assustadoras com aqueles personagens, alguns originais, outros transplantados de grandes obras da literatura fantástica. Mas não aconteceu. Quando o nono episódio da temporada se encerrou, as palavras “The End” surgiram na tela e Penny Dreadful seguiu em direção daquele grande pós-vida para onde os seriados vão após o desfecho.

>> Confira Também – Crítica: Penny Dreadful – Primeira Temporada, Penny Dreadful – Segunda Temporada

Mas então, a pergunta que não quer calar é… Saiu de cena bem? A resposta a essa pergunta é ao mesmo tempo “sim” e “não”. Houve muitas coisas boas nessa derradeira temporada, outras não funcionaram tão bem, e não se pode chamar o episódio final de satisfatório, realmente. Mas, para aqueles que assistiam à série principalmente pela heroína Vanessa Ives, vivida por Eva Green, a terceira temporada forneceu certo sentido de finitude.

Vanessa começa a temporada sozinha, pois após combater as forças do mal no ano anterior, todos os personagens se dispersaram. Sir Malcolm Murray (Timothy Dalton) e John Clare (Rory Kinnear) embarcam em viagens para lugares completamente opostos, Victor Frankenstein (Harry Treadaway) se resigna a ficar mais deprimido ainda por ter perdido sua “noiva” Lily (Billie Piper), e Ethan Chandler (Josh Hartnett) foi preso e enviado para os Estados Unidos, de volta para os cuidados de seu pai.

No entanto, nos primeiros episódios, Logan começa a remanejar seus personagens para a reunião. Malcolm é abordado por Kaetenay (vivido pelo veterano ator nativo-americano Wes Studi) e ambos partem numa missão para salvar Ethan. Este, por sua vez, começa a ser ajudado por Hecate (Sarah Greene), uma das bruxas sobreviventes da temporada anterior. Frankenstein se reencontra com seu amigo doutor Jekyll (claro que ele um dia ia aparecer!) e ambos traçam um plano para recuperar Lily. Esta, por sua vez, começa a liderar um exército de mulheres, em busca de uma revolução contra os opressores masculinos. E Vanessa resolve começar a viver e até conhece um possível pretendente na figura do doutor Sweet (Christian Camargo, eternamente lembrado como o irmão do Dexter). Mas nas sombras, uma nova ameaça espreita, o vilão que o público espera ver desde o primeiro ano, o Conde Drácula.

Penny Dreadful

E, obviamente, se temos o Drácula, alguns dos personagens coadjuvantes do clássico livro de Bram Stoker também dão as caras. Vemos um assustador Renfield (Sam Barnett) e a doutora (!) Seward. A doutora é interpretada por Patti LuPone, que na temporada anterior brilhou como a parteira meio bruxa num episódio inesquecível para os fãs. Não faz muito sentido para a série chamar de volta a atriz, que já fez um papel antes, para fazer outro, e essa estranheza é até notada por Vanessa, mas nunca explicada. Porém, quem se importa? Mais cenas com Eva Green e Patti LuPone juntas? Ninguém pode reclamar disso.
Essa atitude solta e relaxada, de ora ironizar, ora abraçar alguns clichês da televisão, é uma das características que fez de Penny Dreadful uma grande diversão. E não nos esqueçamos, é algo que a série tem em comum com a sua inspiração, as clássicas historinhas assustadoras das velhas “penny dreadfuls” inglesas, as revistas com histórias sensuais e de terror que atiçavam a imaginação da Inglaterra puritana no século XIX. Outros elementos sensacionalistas e com um pé no trash dessa temporada, que deixariam os autores das velhas “dreadfuls” orgulhosos, são as belas cenas de faroeste, filmadas com um tom sépia amarelado que contrastam com a fotografia eternamente fria e sombria da série, e o plano de Lily, que se torna uma vilã grandiloquente, permitindo a Piper exibir uma veia histriônica bem interessante.

Aliás, um dos temas da temporada foi realmente a força das personagens femininas. Com Hecate, a moça-demônio, tentando o lobisomem Ethan; Lily e seus planos de “dominação do mundo”; e Vanessa sendo perseguida por Drácula, fica claro que as mulheres de Penny Dreadful é quem são as personagens mais poderosas e importantes daquele universo. Devido à época em que a história se passa, elas acabam não conseguindo vencer a opressão masculina. Mas elas tentam… Chegam a ser incômodas algumas cenas com a aliança masculina entre Frankenstein, Jekyll (Shazad Latif) e Dorian Gray (Reeve Carney) para pôr sob controle a rebelde Lily. Porém, essas cenas também permitem mais um show de atuação de Piper, que teve nessa temporada momentos tão fortes quanto os de Eva Green, talvez até mais.

Penny Dreadful

E sobre a estrela da série: de novo ela teve um episódio para chamar de “quase” seu, no qual basicamente dividiu a tela com Kinnear – que se mostrou mais do que nunca um ator poderoso e comovente no papel do atormentado Clare, a criatura de Frankenstein. Quando se concentrou nos seus incríveis intérpretes, Penny Dreadfulbrilhou. É difícil criar personagens humanos e que despertem empatia do público em meio às tramas exageradas e góticas, mas Logan conseguia.

Por isso mesmo, é difícil crer nas palavras do criador quando ele afirma que a série sempre foi destinada a ter apenas três temporadas. Se fosse o caso, porque iniciar o ano com a viagem de Clare, sendo que logo no primeiro episódio ele já se decide a voltar a Londres? Por que ressuscitar Lily no final do primeiro ano e não fazê-la reencontrar Ethan mais à frente? Por que introduzir uma forte nova personagem – a Catriona vivida por Perdita Weeks – a poucos episódios do fim? Essa personagem, aliás, passa a impressão de ter sido criada como substituta em potencial de Vanessa, caso Eva Green não quisesse mais fazer o seriado ou seu arco chegasse ao fim. Cat é uma matadora de vampiros, bonita, decidida e forte – mais uma mulher poderosa na série – e sua presença aponta para desenvolvimentos futuros que não serão vistos.

Por não resolver a contento a grande maioria dos arcos dos personagens, não se pode dizer que Penny Dreadful chegou a um final verdadeiro e satisfatório. Logan, no entanto, estava certo quando disse que Vanessa era o coração do seriado, e é com ela que o roteirista – que esse ano até delegou a escrita de alguns episódios a outros, um sinal de cansaço? – chega ao fim. Ela é a verdadeira criação de um seriado no qual a maior parte da matéria-prima veio de fora, de outras fontes. É graças a ela, e à sua destemida intérprete, que chegamos ao fim da temporada lamentando pelo fim da série.

Penny Dreadful

Logan é um caso interessante: um escritor homossexual assumido que criou tantas tramas bem masculinas, como as dos filmes Gladiador (2000), Jornada nas Estrelas: Nêmesis (2002), O Aviador(2004) e os últimos filmes de James Bond, mas teve numa personagem feminina a sua maior realização, e encerrou a sua jornada com uma espécie de declaração de amor ao poder das mulheres. A comparação entre Vanessa Ives e Joana D’Arc em um dos episódios é clara, e mesmo com esse final apressado e não inteiramente convincente, a criação de Logan também alcança uma espécie de transcendência. Daqui a alguns anos, suspeito, muitos ainda se lembrarão da grande protagonista dePenny Dreadful. Talvez caiba uma ressurreição, mais para frente?


Nota do CD:
3.5 out of 5 stars

O terror no cinema brasileiro

Quando se fala sobre “Filmes de terror nacionais”, provavelmente o que vem primeiro à cabeça de muitos brasileiros é o nome de Zé do Caixão, personagem do cineasta José Mojica Marins, e toda sua franquia de filmes. Quem acompanha a trajetória do cinema sabe que as produções nacionais vão muitos além de um único nome. Só em 2016, foram lançados nas telonas longas que mergulham ou passeiam na temática. É o caso de O Caseiro, de Julio Santi, Sinfonia da Necrópole, de Juliana Rojas e O Diabo Mora Aqui. Esse último conta a história de quatro jovens que vão passar o final de semana em uma casa de campo e são arrastados para o meio de uma guerra entre forças antigas, que incluem lendas e o folclore brasileiro.

O filme é a primeira adaptação da Urbania, obra transmídia criada pelo produtor M.M. Izidoro, que se baseia nas lendas urbanas brasileiras e busca uni-las para que elas possam continuar vivas e se mesclem em outros formatos como livros, filmes, séries, entre outros. A obra é independente e não contou com financiamento de leis de incentivo, mas foi custeado por meio de R$250 mil arrecadados por meio de campanha de crowdfunding. Questionado sobre como é a recepção do público brasileiro com filmes de terror, Izidoro diz que “esses títulos e realizadores estão mostrando para o público que o cinema de gênero brasileiro pode ser comparado com o cinema de qualquer lugar do mundo e o público está recebendo a gente de braços abertos”.

O Diabo Mora Aqui foi muito bem recebido por festivais internacionais como o Festival Internacional de Cinema Fantástico de Catalunha, no México, e FilmQuest, nos Estados Unidos, onde recebeu o prêmio de melhor filme estrangeiro. “Fora do país o pessoal é sedento pelo cinema brasileiro. Levamos O Diabo Mora Aqui para alguns países e vimos que tanto os curadores, quanto o público, tinham muito interesse nos nossos filmes e os recebiam de braços abertos”, comenta o produtor.

Abaixo, você confere um bate-papo que o Tela Brasil teve como M.M.Izidoro.

Como foi a criação para o roteiro de “O diabo mora aqui”?
“O Diabo Mora Aqui” é a introdução de um projeto maior chamado “Urbania”. Nesse projeto, eu misturei história do Brasil com lendas urbanas e personagens do nosso folclore para criar um mundo novo onde tudo isso está interligado de uma maneira que ninguém viu. Para o filme, juntei toda essa mistura com alguns temas importantes para mim, por exemplo, a escravidão, a cultura afro descendente, o papel da mulher e alguns outros. Daqui para frente, vamos explorar as personagens do filme em diversas mídias.

 Você se inspirou em outras obras audiovisuais para criar esse filme?
Mais do que obras específicas, nos inspiramos em movimentos cinematográficos e nas obras de alguns cineastas e autores. Podemos citar alguns como Joaquim Pedro de Andrade, Sam Raimi, Bernard Rose, Jô Soares e John Landis.

 Como surgiu a ideia e como foi o processo de arrecadar fundos para o longa?
Esse filme demorou 10 anos para ser produzido. Grande causa disso foi o medo que as pessoas tinham de se associar a uma obra de cinema de gênero brasileira, afinal nenhuma marca tem como valores assassinatos ou monstros aterrorizantes. Assim, vi que tinha de encontrar outro caminho. Como já tive algumas startups, resolvi trazer esse conceito para o cinema, na qual algumas pessoas da equipe seriam sócias comerciais do projeto e traríamos investidores para colocar o dinheiro que a gente precisava para pagar o resto. Estive nos mercados de cinema do mundo como CannesBerlinale e o American Film Market, e com as informações que eu aprendi nesses lugares, eu montei um plano de negócios e apresentei para alguns investidores do mercado financeiro que abraçaram o projeto. Além disso, também conseguimos vender uma cota de product placement para umamarca de cerveja.   

 Quais as etapas mais desafiadoras de se fazer cinema no Brasil?
Fazer cinema é desafiador em qualquer lugar. É como escalar uma montanha, mas quando você chega no topo, você descobre que tem outra lá em cima. Assim, todas as etapas tiveram seu nível de dificuldade. Primeiro, foi uma odisseia para conseguir os recursos e a equipe para fazer o filme. Na pré-produção, foi difícil escrever uma história interessante e que caberia nos nossos recursos. Na produção, tínhamos de manter uma equipe de 30 pessoas vivas e alimentadas no interior de São Paulo. Na pós-produção, foi bem difícil achar o ritmo certo do filme e como costurar todas as histórias diferentes. E depois ainda vem a comercialização, que você tem de convencer as pessoas a comprá-lo. O bom para o cinema é que todo mundo que faz é muito apaixonado por ele e essa paixão nos move.

 Na sua visão, como é a recepção do público brasileiro com filmes nacionais de terror?
Acho que estamos em um ponto de transição bem legal para isso. Até a minha geração, os filmes de terror nacionais tinham um estigma de serem trashs e ruins. O que eu não concordo 100%. Hoje, o nosso filme faz parte de uma geração de filmes bem interessantes que traz outros títulos como “O Caseiro”, “Percepção do Medo”, “Condado Macabro”, “Fabulas Negras”, entre outros. Esses títulos e realizadores estão mostrando para o público que o cinema de gênero brasileiro pode ser comparado com o cinema de qualquer lugar do mundo e o público está recebendo a gente de braços abertos.

 Você acha que os filmes de terror nacionais deveriam ter mais espaço nas salas de cinema?
Não só os filmes de terror deveriam, mas todos os filmes de gênero. Cadê os filmes brasileiros de super heróis, de vampiro, de bruxa, de macumba, de luta, de dinossauro? Sempre corremos para assistir os filmes gringos com essas temáticas. Já com os nacionais, além de ser mais difícil de fazer também é difícil ter público. Mas aos poucos isso está mudando e acho que em pouco tempo o mercado vai entender e vamos conquistar ainda mais espaço, não só no cinema como em várias outras mídias como TV, VOD e SVOD.

 Como os filmes de terror brasileiros são recebidos nos festivais internacionais?
Fora do país o pessoal é sedento pelo cinema brasileiro. Levamos “O Diabo Mora Aqui” para alguns países e vimos que o tanto os curadores, quanto o público, tinham muito interesse nos nossos filmes e os recebiam de braços abertos.

 Quais são os próximos passos de “O diabo Mora Aqui”?
O filme será lançado em VOD e na TV paga. Já o vendemos para alguns territórios internacionais e, sabemos que até o fim do ano ele será lançado em home vídeo, VOD na Europa e na América do Norte. Depois disso, vamos tirar umas boas férias e descobrir como continuaremos a contar essa história. Se é em cinema, em livro, em série para tv.

 Você está trabalhando em outros projetos?
Sim. Estou finalizando meu novo longa-metragem “Amaré”. É um filme musical que estou fazendo em parceria com a Apple e o iTunes e deve ser lançado no começo do ano que vem. Estamos trabalhando em uma peça de teatro também que pretendemos estrear no ano que vem. Então mesmo com a correria do “O Diabo Mora Aqui”, estamos a todo vapor tentando explorar novos mercados e maneiras de contar histórias.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Chumbo Quente - "O Preço de Um Covarde"



O Preço de Um Covarde (Bandolero! – 1968)
Dois irmãos fogem da justiça em território infestado de bandoleiros e são perseguidos por xerife que quer resgatar garota que eles levaram como refém.

Sabe quando você lê muitas críticas negativas sobre um filme obscuro, comentários que te sugerem desprezar a obra, material que te faz postergar a sessão por vários anos? Isso aconteceu comigo com relação a “O Preço de Um Covarde”. Na época em que estava caçando todos os filmes com o James Stewart, achei que esse não valia o esforço do garimpo, não havia saído em VHS, não encontrava completo na internet, o diretor Andrew V. McLagen não me inspirava simpatia pelos trabalhos já vistos, acabei me focando em outras produções mais elogiadas da fase final do ator. Só fui conhecer quando a “Classicline” lançou pela primeira vez em DVD por volta de 2005. E fico feliz que ela esteja relançando agora com uma cópia de ótima qualidade, o filme merece. Foi daqueles casos de amor à primeira vista, eu não sabia se tinha sido a riqueza psicológica dos personagens, a fantástica trilha sonora de Jerry Goldsmith que fiquei cantarolando por dias, a beleza hipnótica de Raquel Welch, o carisma matador de James Stewart e Dean Martin, o cantor na melhor atuação de sua carreira cinematográfica, ou o desenrolar fascinante da trama, que, com exceção de uma ideia divertida envolvendo Stewart disfarçando-se de carrasco, copiada de “Estigma da Crueldade”, abraça terrenos pouco explorados, com a competência usual de Hal Needham coordenando as sequências de ação.

O xerife, vivido por George Kennedy, disposto a cruzar sozinho o perigoso caminho dos bandoleiros para resgatar uma enigmática mulher que o despreza, uma viúva que é muito mais valente do que todos os personagens masculinos. Ela, inicialmente uma refém indefesa, aspecto já realçado no material de divulgação, acaba desorientando o seu sequestrador, vivido por Martin, um sujeito desencantado com o amor, em luta constante com seus valores familiares, e que é redimido ao final pela persistência de seu irmão, mais um grande momento de Stewart no gênero. O desfecho é lindo, a força da mulher confortando o irmão que acaba de perder aquilo que era mais precioso em sua vida: o filho pródigo que tomba iluminado finalmente pela réstia de esperança que sempre buscou. E essa redenção faz com que o irmão moribundo, que havia sido seduzido a pisar na trilha do erro, roubando um banco, reúna suas últimas forças para o ato derradeiro, segundos antes de morrer: entregar o dinheiro na mão do xerife. 


Bates Motel – Segunda Temporada

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Quando anunciaram que fariam uma série televisa baseada nos acontecimentos de Psicose (1960), clássico filme de Alfred Hitchcock, confesso que tive bastante receio. Porém, para minha surpresa, e a de muitas pessoas, a primeira temporada de Bates Motel foi um dos melhores lançamentos do ano e agradou, não somente a crítica especializada, como também o grande público. Com uma trama envolvente, fomos jogados na cidade de White Pine Bay e apresentados a Norma e Norman Bates, interpretados com maestria por Vera Farmiga (Amor Sem EscalasInvocação do Mal) e Freddie Highmore (Astro Boy). Os dez episódios possuem ritmo intenso, grande teor de terror psicológico e sempre são encerrados com ganchos para novos acontecimentos marcantes, o que deixa o espectador ansioso para assistir tudo em sequência e culmina na certeza de que fazer uma maratona do primeiro ano de Bates Motel não seja algo muito complicado.

Com o ambiente estabelecido, personagens dignamente apresentados e um excelente final de temporada, o receio inicial quanto a produção se transformou em expectativa para o segundo ano, que infelizmente não cumpriu com o que se esperava. Enquanto, no ano anterior, tivemos uma dedicação total à apresentação dos protagonistas e o desenvolvimento sua relação, na segunda temporada, temos um foco maior nos acontecimentos de White Pine Bay, o que proporciona o crescimento de personagens coadjuvantes, que terminam ganhando tanta notoriedade,  que, por alguns momentos, acabam por deixar o grande protagonista escanteado pelo roteiro.

Diversos foram os arcos criados e encerrados, de maneira tão rápida e acelerada, que impossibilitaram uma maior profundidade aos acontecimentos. O grande exemplo desta afirmação é a subtrama desenvolvida para apresentar o irmão da Norma Bates, Caleb Calhoun, que surgiu com intuito de promover uma grande revelação, que no final, não era nada diferente do que qualquer espectador mais atento esperava. Aliás, garanto a vocês que, no final da temporada, muitos nem irão se lembrar desse “grande” momento. É muito triste pensar que, por conta de mais algumas subtramas, como essa mencionada, tiraram o espaço de uma personagem muito interessante, Emma Decody, que muito mal aproveita, se resumiu a uma relação clichê para perda de virgindade e ao sentimento de rejeição por não ser participada dos problemas da família Bates.

Apesar de todos esses problemas e de já ter afetado diretamente a motivação dos fãs, podemos dizer que a temporada encerra, de maneira interessante, e consegue deixar em aberto alguma esperança para os anos seguintes. A verdade é que, quando o foco retorna a ser Norman Bates e seus surtos psicóticos, as coisas retomam o rumo e permitem a Freddie Highmore brilhar ainda mais em cena. Mais confiante e mais confortável, o jovem ator atinge um nível excelente de atuação e merecia mais reconhecimento pelo seu trabalho. Vera Farmiga também continua maravilhosa, mas confesso ter perdido um pouco de empolgação com relação a sua personagem. A trama de falso romance, envolvimento com chefões do tráfico e perda da mão no relacionamento com o filho, diminuíram a força de Norma, que deixou de ser extremamente interessante e passou a ser meramente “OK”.

Escrevo esse texto somente em 2016, dois anos depois de ter visto pela primeira vez a temporada. Meu descontento na época foi tanto que abandonei a série, mas, como soube que ela retoma rumos interessantes a partir do meio da terceira temporada, e que como já teremos o último ano, focado nos eventos do filme, em 2017, resolvi que iria assistir tudo novamente e dar uma nova oportunidade. Infelizmente, o tempo não me fez gostar mais deste segundo ano, mas vamos em frente com Norma e Norman Bates rumo à Psicose.

Nota do CD:
2 out of 5 stars

ESQUECERAM DE MIM - ANTES E DEPOIS DO ELENCO


















Documentário mostra como a Copa do Mundo de 2014 e a crise financeira interferiram na vida de quatro brasileiros de classes sociais distintas

Futuro Junho é o mais novo documentário da cineasta Maria Augusta Ramos. Lançado em junho em várias salas de cinema do Brasil, o filme tem roteiro que mescla a espontaneidade de um documentário com a estrutura de ficção. A obra faz uma observação antropológica social, econômica e política da contemporaneidade do Brasil, sobre a democracia e as regras legislativas, as explicações didáticas de causas, efeitos e resoluções possíveis da economia. Futuro Junho foi criado depois da crise do mercado financeiro de 2008. Na época, Maria Augusta começou a ler sobre a situação, sobre o crescimento econômico brasileiro e as contradições do Brasil como nação.

Para ilustrar, a cineasta conta como esses fatos interferiram na vida de quatro homens – e demais pessoas dos seus convívios – semanas antes da abertura da Copa do Mundo FIFA 2014 – evento que muitos criticaram negativamente pelo risco de trazer dívidas profundas ao país e fazer com que o custo de vida do cidadão brasileiro aumentasse consideravelmente: André Perfeito, analista financeiro; Alex Fernandes, metroviário; Anderson dos Anjos, metalúrgico; Alex Cientista, motoboy. São mostradas as utopias e desilusões diante dos desafios que eles têm a cada instante.  O metroviário é sindicalista e luta por melhores condições para a sua categoria de trabalho. Em meio às negociações com o governo, ele é demitido enquanto a esposa está grávida do primeiro filho do casal.

Já o Alex motoboy conseguiu comprar a sonhada casa própria. Para conseguir pagar todas as altas mensalidades da casa, divide as despesas com sua mulher que trabalha como telemarketing enquanto tenta solucionar o tratamento médico de seu filho pequeno, que não tem convênio médico e sofre de epilepsia. A terceira história é do metalúrgico Anderson, que ao lado de seus colegas de trabalho, reivindica um melhor salário. Ao mesmo tempo, quase não convive com a família devido à escala de trabalho na fábrica. O finalista financeiro André Prefeito é o que tem o melhor padrão de vida.

Os espaços se tornam personagens ao refletirem as perfis dos trabalhadores em cena. O ambiente frio do mercado financeiro, o barulho ensurdecedor de uma linha de montagem, o risco das andanças de moto pelo trânsito de São Paulo ou a tensão com as forças policiais durante um movimento grevista dão a tônica do filme.

MEMÓRIAS SECRETAS (2015) RECOMENDAÇÃO DO DIA NA NETFLIX






Aos 80 anos, Zev (Christopher Plummer) aceita uma missão incumbida pelo seu colega de asilo, Max Zucker (Martin Landau): deixar o local em que vive em busca de um antigo guarda nazista. Seu objetivo é, mesmo após tantas décadas, puni-lo pelo assassinato de sua família durante a Segunda Guerra Mundial. Só que, ao longo da jornada, Zev precisa lidar com falhas de memória causadas pela idade avançada.





Título no Brasil: Memórias Secretas
Título Original: Remember
Ano Lançamento 2015
Gênero Drama / Suspense
País de Origem Canadá / Alemanha
Tempo de Duração: 95 minutos
Direção Atom Egoyan

Elenco
Christopher Plummer … Zev Gutman
Dean Norris … John Kurlander
Martin Landau … Max Rosenbaum
Henry Czerny … Charles Gutman

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Penny Dreadful – Segunda Temporada

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Na sua segunda temporada, a série Penny Dreadful enfim se torna o que a sua primeira temporada prometia, mas não conseguia exatamente cumprir: um programa ousado que alia suas origens pulp com momentos sublimes de caracterização e uma trama focada. O criador do programa, o roteirista e produtor John Logan, demonstrou nesta temporada não ter medo nem de Deus nem do Diabo, e criou dez episódios recheados de suspense e emoção, apoiados por performances sólidas do seu elenco.

Esta é uma temporada de mulheres. Verdade seja dita, Logan a inicia usando um truque velho e meio deselegante de roteirista: do nada, ele promove uma personagem que só havia aparecido em poucas cenas da temporada anterior em vilã principal desta. Mas que vilã: Evelyn Poole (vivida com gosto pela veterana Helen McCrory), vista antes como a anfitriã da já clássica sessão espírita do primeiro ano, se revela uma bruxa, líder de um covil satânico que deseja a todo o custo atrair Vanessa Ives (Eva Green) para mais perto do seu Mestre, o anjo caído cujo idioma, o “verbis diablo”, é falado em diversos momentos pelos personagens. Evelyn é um monstro, mas ao mesmo tempo é charmosa, sexy e exagerada – em todos os aspectos, uma antagonista para ficar na memória.

Enquanto Evelyn parte para o ataque total em busca da alma de Vanessa – com direito a ajuda de bruxas nuas, carecas e diabólicas capazes de aparecer e desparecer, as “visitantes da noite” – outra figura feminina se destaca ao longo dos episódios. A ex-prostituta Brona (Billie Piper) renasce pelas mãos de Victor Frankenstein (Harry Treadaway), a princípio para servir de companheira para a sua Criatura (Rory Kinnear). Porém, a criação de “Lily” mexe com Victor, que fica louco para fazer um pouco de necrofiliacom ela – sem dúvida, um desenvolvimento novo e interessante dentro da conhecida história da Noiva de Frankenstein. No entanto, Lily aos poucos se liberta das suas amarras e surpreende tanto Victor quanto a Criatura e também o público, a ponto de estabelecer uma aliança com o nefasto Dorian Gray (Reeve Carney). Piper também se torna uma presença forte e praticamente rouba a cena nos episódios finais.

Helen McCrory como Evelyn Poole na segunda temporada de Penny Dreadful

A temorada é tão dominada pelas mulheres queum dos melhores episódios é o terceiro, aparentemente feito para poupar gastos por ser ambientado em poucos cenários – a produção do Showtime, rodada na Irlanda, parece ter tido seu orçamento diminuído, mas sem impactos narrativos aparentes. Mesmo assim, é um prazer ver o show de Eva Green e da atriz convidada Patti LuPone, como a parteira que ensina Vanessa a se proteger e lhe fornece uma arma contra as visitantes da noite e outros demônios. O episódio tem um clima de velho filme de terror da Hammer, com direito a aldeões carregando tochas, muita névoa e clima soturno.

Esse episódio demonstra como a série realmente conseguiu, neste ano, abraçar o espírito das velhaspenny dreadfuls britânicas – os livrinhos com histórias macabras que hoje são considerados como os ancestrais dapulp fiction – com o drama e o desenvolvimento de personagens necessários a praticamente todos os seriados modernos. Penny Dreadful foi, nesta segunda temporada, sublime e trash, frequentemente no mesmo episódio.

Enquanto o espectador vê coisas como bonecas falantes e um baile sangrento – Vanessa sendo encharcada pela chuva de sangue que só ela vê enquanto as pessoas dançam ao seu redor, sujando-se de vermelho, é uma das imagens mais impactantes do seriado até hoje – os momentos sublimes ficaram ao cargo dos atores. A performance mais sensível foi mesmo a de Kinnear como Caleban/Criatura. Após assumir o nome de John Clare, inspirado num poeta inglês, ele passa a ajudar pacientes de cólera e trava uma conversa tocante com Vanessa sobre a existência ou não de Deus – um momento tornado mágico graças aos diálogos de Logan, à direção e às atuações de Kinnear e Eva Green. Eles têm outras cenas juntos ao longo da temporada, e todas elas forneceram a Penny Dreadful algo que faltou um pouco na primeira temporada: alma.

Eva Green em cena da segunda temporada de Penny Dreadful

Se a série consegue ir do sublime ao ridículo com facilidade, ninguém expressa isso melhor do que a sua estrela. Eva Green nem precisa de efeitos visuais para parecer possuída: basta uma virada de pescoço, um arquear das costas, e umas falas em “verbis diablo” para fazer funcionar qualquer maluquice que Logan consiga inventar. Ela é o maior efeito especial do seriado, sem medo de se entregar ao papel totalmente ou mesmo de se expor um pouco nele, como na simpática cena na qual Vanessa ajuda Victor a escolher um vestido para Lily, e vemos a sombria protagonista abrir um descontraído sorriso… De quebra, a atriz eleva até o trabalho dos seus companheiros de cena, como o já mencionado Kinnear, além deTimothy Daltoncomo Sir Malcolm – a relação pai e filha entre eles é algo que foi muito bem trabalhado no final do ano anterior – e Josh Hartnett como Ethan.

Hartnett sempre foi considerado um ator limitado, mas talvez contagiado pelos colegas, vem fazendo um trabalho bom e consistente na série. Neste ano a “vida noturna” de Ethan tem importância primordial na trama e Logan até estabelece o velho truque da “tensão sexual” entre ele e Vanessa para manter o público interessado. E graças aos atores, funciona. Esse foi um dos maiores prazeres de Penny Dreadful nesta segunda temporada: ver velhos clichês dramáticos e elementos à moda antiga – como o design da maquiagem e a revelação do sobrenome de um personagem que remetem ao clássico O Lobisomem (1941) do estúdio Universal – encenados com vigor e talento suficientes para parecerem frescos. Parece que a série encontrou seu rumo, e é difícil reclamar de uma temporada que se encerra com a heroína conversando com uma boneca feita à sua própria imagem ou com uma dupla de personagens valsando em meio ao próprio sangue caído no chão. Se a produção conseguir manter esse ritmo envolvente e sua disposição destemida, podemos esperar prazeres ainda maiores no futuro.


Nota do CD:

4 out of 5 stars

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Um Espião e Meio

UM-ESPIAO-E-MEIO

Ter a imagem de Dwayne Johnson (Sem Dor, Sem Ganho, O Acordo) estampada em qualquer cartaz se tornou sinônimo de grande bilheteria. O ex lutador, também conhecido como The Rock, é um atores mais rentáveis do momento e, com seu carisma, galgou um espaço em Hollywood, que lhe garante participações em filmes de, praticamente, todos os gêneros do entretenimento. O astro, já estrela, inclusive, uma série de televisão,Ballers, caminha para o oitavo filme da franquia Velozes e Furiosos e interpretará o Adão Negro no longa da DCShazam. Um currículo de fazer inveja a qualquer um! Em Um Espião e Meio, ele divide cena comKevin Hart, comediante muito reconhecido nos Estados Unidos. O carisma e sucesso da dupla é tanto, que o longa está fazendo, como previsto, muito dinheiro, e não deve demorar para em breve ser anunciada uma continuação. O que eu acho disso tudo? Justo, pois a comédia cumpre seu papel e a risada é garantida.

Na trama somos apresentados a Robert Weirdick, um gordinho nerd, que sempre sofreu muito bullying nos tempos de colégio, mas que, após quase duas décadas dedicadas a musculação, terminou se transformando em um letal agente da CIA, de codinome Bob Stone. Envolvido em uma complexa investigação e sendo acusado de traição, ele decide procurar por Calvin Joyner, considerado por todos os membros do colégio o aluno mais brilhante, carismático e com futuro mais promissor, porém tendo se tornado um, competente, mas frutado contador de uma grande organização. Como Calvin foi um dos poucos a demonstrar sensibilidade à Robert, ele o considera um grande amigo e termina o colocando em meio a uma intriga que expõe em risco a vida de ambos.

Como praticamente todos os filmes do gênero, é perceptível que existem diversas lacunas no roteiro e faltem explicações para alguns rumos que a produção decide tomar, porém não é nada que afete diretamente o entretenimento proposto ou trate o espectador sem respeito. A obra, inclusive, consegue desenvolver muito bem o relacionamento dos protagonistas, explorando, de maneira inteligente, suas diferenças e extraindo de sua interação os melhores, e mais engraçados, momentos. A química da dupla formada por Dwayne Johnson eKevin Hart chega a assustar. Os dois são praticamente opostos em cena. Enquanto Johnson se destaca pelo trabalho físico, semblante canastrão e sorriso de quem está se divertindo em cena, Hart utiliza-se de seu estilo afetado, falas rápidas e de um tom de auto depreciação. É curioso como, mesmos tão diferentes em técnicas de atuação, os dois encaixaram e trouxeram à película todo o carisma, já citado na introdução desta resenha, elevando Um Espião e Meio a um outro patamar cômico.

O fato da própria película não se levar tão a sério ajuda na interação com o público. Ela possui seus excessos e alguns momentos absurdos demais para qualquer pessoa, mas também se preocupa em nunca deixar de ser interessante. O roteiro consegue desenvolver muito bem a trama de um jovem que sofreu bullying e nunca deixa, apesar de muitas suspeitas, 100% claro qual é a verdadeira intenção do personagem no futuro. Essa situação, inclusive, permite a Dwayne Johnson demonstrar toda sua capacidade de atuação, sendo por diversas vezes bonachão, outras extremamente sério, hora sendo intimidade e hora sendo intimidador.

Se pudesse resumir esse texto em uma frase, escreveria: Tem seus erros, mas é muito divertido. Só posso falar que se trata de uma boa forma de entretenimento, que irá arrancar risos e fará sucesso! Tipo do filme para a família toda e que em breve estará em cartaz na sessão da tarde. Isso é ruim? Negativo, sempre foi a intenção do diretorRawson Marshall Thurber (Família do Bagulho)Cabe ao espectador saber o que irá encontrar pela frente e entrar no clima de diversão.


Nota do CD:

3 out of 5 stars


Sinopse: Antes de se tornar um agente da CIA, Bob (Dwayne Johnson) foi um nerd que sofria bullying na época do colégio. Já na agência, para resolver um caso ultrassecreto, ele recorre a um antigo colega, popular nos tempos da escola, hoje contador (Kevin Hart).


Ficha Técnica:

Gênero: Ação
Direção: Rawson Marshall Thurber
Roteiro: David Stassen, Ike Barinholtz, Rawson Marshall Thurber
Elenco: Aaron Paul, Allie Marshall, Amy Ryan, Anthony Molinari, Ariana DeFusco, Bobby Brown, Brett Azar, Chaunty Spillane, Danielle Nicolet, Dwayne Johnson, J.P. Valenti, Kevin Hart, Kimberly Howe, Kristen Annese, Megan Park, Ryan Hansen, Shawn Contois, Slaine, Sparrowhawk, Stephanie Ann Saunders, Susan Garibotto, Taixa Lenid, Tim Griffin
Produção: Paul Young, Peter Principato, Scott Stuber
Fotografia: Barry Peterson
Montador: Michael L. Sale
Trilha Sonora: Ludwig Goransson, Theodore Shapiro
Ano: 2016
País: Estados Unidos
Cor: Colorido
Estreia: 11/08/2016 (Brasil)
Distribuidora: Universal Pictures
Estúdio: Bluegrass Films / New Line Cinema

TOP - Comédias Dirigidas por Jerry Lewis

Aos 90 anos, Jerry Lewis está retornando às telas com “Max Rose”, demonstrando mais uma vez seu brilhantismo como ator dramático, o que vai surpreender quem não conhece sua participação no excelente “O Rei da Comédia”, de Scorsese, em “Arizona Dream”, de Kusturica, ou na pérola esquecida feita pra televisão: "Luta Pela Vida", de 1987. Sempre lembrado como ator, poucos valorizam seu trabalho como diretor. Sua originalidade na construção do cenário inovador de "O Terror das Mulheres" já bastaria para reverenciarmos sua ousadia. Ele também criou um artifício que muitos operadores de câmera hoje em dia nem fazem ideia que foi ele o inventor. Até aquele momento, o diretor filmava as cenas e tinha que esperar vinte e quatro horas para poder visualizá-las. Lewis, procurando resolver esse problema, patenteou um sistema onde colocava uma câmera de vídeo ao lado da câmera de filmagem, os dois compartilhando a mesma imagem. Assim ele poderia voltar e ver sua cena sempre que quisesse, realizando pequenos ou grandes ajustes. Esse protótipo hoje recebe o nome de “Assistente de Vídeo”, sendo presença obrigatória em todos os sets. Seu livro "The Total Film-Maker", o material de suas aulas na faculdade de cinema, é simplesmente uma das melhores obras sobre todas as etapas do processo de filmagem.

Como grande admirador de seu trabalho, revi todos os filmes dirigidos por ele na tentativa de selecionar os cinco melhores. Não deu certo, tive que ignorar meu lado sistemático e aceitar seis títulos, seis obras-primas que justificam a inclusão de Lewis em qualquer lista de melhores cineastas da história do cinema. Um reconhecimento que ele merece receber em vida.


1 – O Terror das Mulheres (The Ladies Man - 1961)
Adotando em parte o estilo cômico cartunesco de Frank Tashlin, um de seus mentores, Lewis força seus limites na função de diretor e explora ao máximo as possibilidades de situações em um único espaço. Com toques de fantasia surrealista, seu Herbert H. Heebert faz uso de todo o repertório cômico do ator. Seis anos depois, Tati realizaria "Playtime", talvez o único artista cujo trabalho podemos tentar comparar, mas seu Hulot carece de simpatia, os seus esforços, por mais interessantes que sejam, soam forçados, em Lewis tudo é natural. 


2 – O Professor Aloprado (The Nutty Professor - 1963)
Na fábula cômica de Lewis, a figura esquisita de Kelp, uma óbvia caricatura, representa a forma distorcida como o personagem se enxerga no espelho, não há poção mágica, Buddy Love sempre existiu e, como a engraçada cena final salienta, com a bela Stella Stevens guardando um pouco da poção, não deve nunca ser obliterado, já que exerce função importante na personalidade do indivíduo. A autoconfiança precisa complementar a humildade, um elemento não vive bem sem o outro. Essa resolução emocionalmente madura é o que engrandece o filme, que poderia ser apenas uma farsa tola, uma das várias releituras de “O Médico e o Monstro” que a indústria já criou.


3 – As Loucuras de Jerry Lewis (Cracking Up - 1983)
Após sérios problemas de saúde, vício em remédios para dores na coluna, e o fim do relacionamento de trinta e oito anos com a esposa, Lewis, que estava afastado do cinema e focado em seus Telethons, logo depois sofreria uma complicada operação cardíaca. Esse filme é claramente o trabalho de um homem livre, no sentido transcendental da expressão, alguém que renasce das cinzas criativamente com mais coragem do que exibia em sua juventude. Ele corre riscos, acerta e erra, mas o que impressiona na estrutura de esquetes é a aura de jovialidade, renovando o estoque de gags com a esperteza do que se fazia no período, mas com um pé no futuro. É perceptível um tom mais pessoal, sem concessões. Um tesouro que merece maior reconhecimento. 


4 – O Mensageiro Trapalhão (The Bellboy - 1960)
É sua primeira produção com total poder criativo, feita com baixíssimo orçamento, onde interpreta um mensageiro de hotel que não fala uma palavra durante toda a projeção. Seu trabalho nessa obra faz referência a astros do humor como Jacques Tati, Chaplin e Stan Laurel, seu grande ídolo e amigo, sendo na realidade uma linda homenagem ao cinema do gênero. Nessa joia está contida o amálgama de tudo em que Lewis acreditava, com facetas de vários estilos de humor, o grotesco, físico, inteligente, cínico e o infantil, ingênuo e inocente. 


5 – O Otário (The Patsy - 1964)
Além de eternizar sequências hilárias como a do professor de piano, um dos momentos mais engraçados da história do gênero, ele foi responsável por mais uma inovação cenográfica, quando ao final do filme, as câmeras se distanciam deixando exposto que o ambiente era um estúdio de gravação. Ele se mostra, não como o personagem, mas sim como o diretor Jerry Lewis, desconstruindo o sonho da maneira mais engraçada possível. Fellini fez parecido em “E La Nave Va”, quase vinte anos depois, e foi considerado original. Jerry já havia ousado muito antes. 


6 - O Mocinho Encrenqueiro (The Errand Boy - 1961)
O alvo de Jerry nesse filme são os bastidores da indústria de cinema, impagável o momento em que ele utiliza genialmente a pantomima para debochar da arrogância dos chefes de estúdio. O elegante jazz emoldurando uma ilusória reunião de negócios onde o patrão gargalha após despedir seus funcionários, como se Lewis evidenciasse que, por trás do véu de nobreza de astros e estrelas, a imagem vendida pelo setor de publicidade, o público ignora o cruel jogo de interesses que movimenta a roda da fortuna. A narração no início já ressalta a coragem do diretor: "Hollywood irá te levar a qualquer lugar que você desejar, menos atrás de sua própria fachada". 

ESQUADRÃO SUICIDA (2016) - RECOMENDAÇÃO DO DIA




Após a aparição do Superman, a agente Amanda Waller (Viola Davis) está convencida que o governo americano precisa ter sua própria equipe de meta humanos, para combater possíveis ameaças. Para tanto ela cria o projeto do Esquadrão Suicida, onde perigosos vilões encarcerados são obrigados a executar missões a mando do governo. Caso sejam bem-sucedidos, eles têm suas penas abreviadas em 10 anos. Caso contrário, simplesmente morrem. O grupo é autorizado pelo governo após o súbito ataque de Magia (Cara Delevingne), uma das "convocadas" por Amanda, que se volta contra ela. Desta forma, Pistoleiro (Will Smith), Arlequina (Margot Robbie), Capitão Bumerangue (Jai Courtney), Crocodilo (Adewale Akinnuoye-Agbaje), El Diablo (Jay Hernandez) e Amarra (Adam Beach) são convocados para a missão. Paralelamente, o Coringa (Jared Leto) aproveita a oportunidade para tentar resgatar o amor de sua vida: Arlequina.


Título original: Suicide Squad
Diretor: David Ayer
Roteiro: David Ayer
Elenco: Will Smith, Jared Leto, Margot Robbie
Duração: 2 h e 3 min 


Eu gostaria muito de dizer uma frase que desejo ha tempos: "-A DC finalmente acertou." Não foi desta vez. 
Vou apenas dizer algumas palavras sem spoilers:

1) O filme tenta copiar Guardiões das Galáxias, chegando ao cúmulo de usar uma das músicas do filme da Marvel. Errou feio
2) A forçada introdução dos personagens é péssima.
3)O filme tem uma sequência de ação de 1 hora e meia. Saí com dor de cabeça.
4)David Ayer é um diretor famoso por reunir grande elenco e não atingir objetivo nenhum, vide Sabotagem ou Reis da Rua.
5)Will Smith é o centro das atenções, realçando sua característica de não saber dividir cena.
6)Para quem sabe que o filme foi refilmado para se "adequar" a BvS, é notável a forçada aparição de Batman e Flash.
7)O final gancho não funciona
8)Três membros do Esquadrão são semi inúteis, sendo que um deles tem uma participação importante no final somente.
9)Não há uma única cena boa com Margot Robbie que não esteja nos trailers, personagem que é a mais interessante do longa. 
10)A DC insiste que os caras trabalhando meia hora juntos viram amigos. Criminosos psicopatas se chamando de amigos nas cenas finais é de doer. 
11) Os diálogos são sofríveis, quase imperdoáveis. Boa sorte de quem for assistir esperando um grande filme.
12) O pistoleiro pode ser mortal, mas foi capturado de forma medíocre.
13) Qual a função do Coringa no filme? Nenhuma...Zero...Nothing....A não ser talvez mostrar que Heath Ledger é mesmo um mito.

Aguardemos a próxima tentativa...

Obs: Margot merece um filme solo, com continuações, série de tv....