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sábado, 23 de abril de 2016

Introduzindo o Cinema na Vida dos seus Filhos (1 de 4)



O maior presente que os pais podem dar aos filhos é incentivar desde muito cedo o amor pela cultura, um tesouro que, especialmente hoje em dia, não depende de condição financeira, apenas de uma mínima dose de interesse. O filho pequeno pode aprender sozinho, mas ter o apoio dos pais facilita o processo, possibilitando o tipo de companheirismo atencioso que, na sociedade atual, está sendo substituído por tablets e smartphones nas mãos das crianças, recurso que tenta mascarar a parentalidade irresponsável com o imediatismo tolo de babás eletrônicas, formando adultos emocionalmente imaturos que desprezam o passado, analfabetos funcionais com diplomas na parede, porém, existencialmente frustrados. O usual do adulto brasileiro é incentivar no filho pequeno o amor pelo time de futebol. Nada contra o esporte, mas caso você queira que seu filho seja um homem interessante no futuro, com um repertório mais eclético de assuntos, ao invés de comprar uma cara camiseta oficial do artilheiro para o menino, utilize o mesmo valor adquirindo pra ele uns vinte livros. E, melhor ainda, tire pelo menos quarenta minutos de seu dia, provavelmente metade do tempo que desperdiça no serviço debochando dos colegas da firma que torcem pelo time adversário, ou jogando conversa fora no WhatsApp, sentando-se com seu filho e lendo pra ele, explicando o contexto da história, tornando ainda mais fascinante essa importante experiência literária.

O cinema em casa pode ser um elemento complementar nesse delicioso aprendizado, nessa aventura que pode ajudar a definir o caráter da criança. Com o amor pela literatura, a cinefilia ganha ainda mais relevância. Um assunto normalmente puxa o outro e, mais importante, é enriquecido pelo outro. Eu costumo receber mensagens de mães carinhosas desejando iniciar os filhos nessa arte, então, ao invés de sugerir brevemente alguns títulos, elaborei um passo a passo que pode ser utilizado por todos. O primordial é que seja estimulado na criança o carinho pelo antigo, o fascínio pelo “como isso começou” e pelo “como isso se transformou através do tempo”. Sinto nojo quando vejo um adulto vomitar com repugnância frases como: “Preto e branco não, isso é tão velho…”, ou o clássico: “Mas esse eu já vi…”. Ensine à criança que o ato de rever, reler, revisitar arte, mais que algo natural, é uma forma de tornar ainda melhor aquela experiência. Ensine a criança a não ter preconceito com qualquer gênero. Tem coisa mais digna de vergonha alheia que um adulto afirmar que tem medo de ver filme de terror? E esse adulto acaba passando para os filhos pequenos essa trava emocional. Faça a criança entender que é natural sentir medo em um filme de terror, que faz parte da diversão, salientando que o sangue é de mentira, estimulando a admiração pela competência dos realizadores em operar bem aquele trem fantasma. Dito isso, inicio a proposta de passo a passo cinematográfico.

É uma espécie de tradição familiar apresentar o cinema para a criança, por volta dos seis/sete anos, com as animações de Walt Disney. As meninas normalmente começam com “Branca de Neve e os Sete Anões”, os meninos começam com “Pinóquio”, ou “Peter Pan”. Eu proponho algo diferente, atraente para ambos os sexos: “Guerra nas Estrelas”, o clássico de 1977. A fantasia na medida certa, um universo colorido de múltiplas possibilidades, uma trilha sonora marcante, valores importantes celebrados, com heróis e vilões bem definidos. Não conheci ainda uma criança que não tenha ficado apaixonada por esse despertar sensorial. Ao final da sessão, converse com a criança sobre os temas, estimule a reflexão sobre aquele mundo novo, ensinando que tudo é uma metáfora para os conflitos que todos nós compartilhamos diariamente.

Outra sessão com muito potencial é “Ben-Hur”, o clássico dirigido por William Wyler. Como é um filme longo, facilita a conversa sobre os temas no intervalo. Tem aventura, perigo, humor e romance, tudo que um bom conto de fadas oferece. Foi o filme que me despertou o amor pelo cinema, quando vi pela primeira vez, aos quatro anos. Nunca subestime a criança, entregue sempre algo que incentive ela a buscar compreender, ao invés do entretenimento mastigado. Ela pode entender apenas 1% do todo em uma primeira sessão. Mas se ela for cativada pela emoção do momento (filme + preliminares e pós-sessão), ela vai querer repetir no dia seguinte. Outra sugestão válida: “Mary Poppins”, a melhor introdução das crianças ao mundo dos musicais, com uma trama emocionante que aborda temas como a importância da atenção parental na vida dos filhos pequenos. Como introdução ao gênero do terror, eu sugiro “Gremlins”, uma trama que, em essência, fala diretamente à responsabilidade da criança com os bichinhos de estimação, com a indisciplina do personagem causando todo o problema. 

No gênero da comédia, nada melhor que “Os Caça-Fantasmas”, movimentado o suficiente para manter a atenção da criança, com personagens carismáticos e um nível de ousadia que vai sendo captado melhor em revisões. Esses cinco filmes representam o estágio inicial de apresentação do cinema, a “primeira fase”. Com durações que variam de 90 minutos até épicas três horas, são sessões que incitam a criança a testar sua resistência/paciência, fazendo com que ela se acostume a focar na tela por mais tempo do que um desenho animado comum. Quanto menos imediatista for o seu filho, melhores serão as chances dele se tornar um bom leitor e um bom cinéfilo. Ensine pra ele o valor do silêncio, já que todas as questões que ele tiver, com certeza, serão respondidas no próprio filme. E, caso ele não pare de falar o tempo todo, ele provavelmente não vai escutar as respostas das questões. As perguntas frequentes são uma forma de a criança pedir sua atenção. Mostre que você está vivendo plenamente com ela essa experiência (não atenda celular, por exemplo), que ela então irá se acalmar e ficará mais atenta à tela.

Quando seu filho pedir uma revista em quadrinhos na banca de jornal, não pense muito, compre e entregue sorridente pra ele. O interesse pela leitura nunca deve ser tolhido. Ele está no caminho certo. Dê o exemplo, leia com frequência em casa. A criança pequena imita os gestos dos pais. O hábito deve nascer antes de a paixão ser efetivamente despertada. Da mesma forma que os problemas de socialização de um cachorro encontram solução rápida na reeducação dos donos, os problemas de socialização dos filhos pequenos refletem erros dos pais. Seja violento, que a criança entenderá a violência como forma cabível de expressão. Seja um leitor, que a criança ficará interessada em conhecer o mundo fascinante daquelas páginas, antes mesmo de aprender a ler. Dê atenção ao seu filho, já que você optou conscientemente por inserir ele no mundo.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Introduzindo o Cinema na Vida dos seus Filhos (2 de 4)


Quando estava na época do ensino primário, torcia pra chegar logo a hora do recreio, para ler as revistas em quadrinhos que carregava orgulhosamente na minha mochila. E, ao final de mais um dia de estímulo à memorização passiva de assuntos que, em grande parte, não me interessavam, objetivando acertar a quantidade mínima de pontos necessários nas provas para passar de ano, corria para casa, louco pra continuar meu real estudo, os livros, gibis e filmes. Aquele material que verdadeiramente definiu meu caráter e me ensinou de forma divertida tudo aquilo que os professores ditavam monocordicamente em sala de aula, com um acréscimo que, infelizmente, poucos profissionais na área pedagógica incitam: a importância da mente aberta, sem cabrestos. Continuando as sugestões para essa “primeira fase”, de quatro a oito anos, nada melhor que apresentar a seus filhos os trabalhos deCharles Chaplin, especialmente os curtas que ele fez pros estúdios Keystone, Essanay e Mutual, deixe os longas-metragens pra mostrar quando a criança já tiver demonstrado carinho pelo personagem. Nunca me esqueço do impacto que esses filmes tiveram em minha infância, quando os conheci através de um programa na TV Cultura, apresentado por Carlos Heitor Cony. Tudo era fascinante, o preto e branco, a filmagem acelerada, a própria figura de Carlitos. Sente com seus filhos e explique o contexto daquelas cenas, a importância histórica do artista.

Com os olhos da criança acostumados ao estilo da comédia muda, apresente então os trabalhos deStan Laurel e Oliver Hardy, curtas-metragens como “Um Dia Perfeito”, “O Grande Negócio”, “Liberdade e seus Perigos” e “Um Fantasma Muito Vivo”. Conte a eles como os dois eram grandes amigos na vida real, pra que a criança, desde cedo, seja estimulada a discernir a diferença entre fantasia e realidade. Após a criança demonstrar carinho pela dupla, apresente então longas-metragens como “Filhos do Deserto”, “Perdão para Dois” e “Sossega Leão”. Uma boa opção é fazer uma sessão dupla com Harold Lloyd, evidenciando as semelhanças entre “Liberdade e seus Perigos” e o longa-metragem “O Homem-Mosca”, o mais famoso de Lloyd. Eu me recordo vividamente da reação que tive quando o personagem escala aquele prédio. Não era parecido com nada que eu tivesse visto até então. E, claro, por último, para que o fascínio da criança não atrapalhe um olhar mais atento, apresente a genialidade de Buster Keaton, o mestre em realizar o impossível. Sugiro inicialmente os filmes: “Nossa Hospitalidade”, “Bancando o Águia”, “Marinheiro de Encomenda” e, por último, “A General”. Se a criança perguntar: “Mas ele nunca sorri?”, ela está no caminho certo. Com essa base sólida na comédia muda, os seus filhos pequenos estarão preparados para a imersão plena em projetos mais ambiciosos no gênero.

No tempo em que a televisão aberta respeitava o público infantil, eu não perdia uma sessão do “Festival Jerry Lewis”. Ele é a opção perfeita pra inserir seus filhos no mundo da comédia moderna, com toques de sentimentalismo que estimulam a empatia, algo que os horrorosos desenhos animados infantis de hoje desprezam solenemente. Eu cresci numa época em que o poder da amizade, o “fazer o bem”, a força da união, eram celebrados em filmes, desenhos-animados e canções infantis. Não entregue aos seus filhos o lixo imediatista produzido hoje, não subestime as crianças. Ela irá te agradecer no futuro. Dos filmes protagonizados por Jerry, sugiro, na ordem: “O Professor Aloprado”, “O Terror das Mulheres”, “Errado pra Cachorro”, “Bagunceiro Arrumadinho” e “O Meninão”. Cinco produções, cinco tardes numa semana dedicada ao mestre do humor. Viva com seus filhos esse prazer, converse com eles após cada sessão sobre os temas dos filmes, pra que aquela magia não se perca até o final do dia.

Recomendo que você apresente a seu filho, nessa fase introdutória, o belo “Labirinto”, protagonizado por David Bowie e dirigido por Jim Henson, criador dos “Muppets”, que, aliás, sugiro que tenha um de seus filmes, o original de 1979, incluído numa sessão dupla. A criança, já iniciada no gênero por “Mary Poppins”, não vai estranhar as sequências musicais na trama. É linda a forma como a mensagem é passada no roteiro, utilizando o mundo mágico dos bonecos, com toques sutis daquele senso de perigo contido nos melhores contos de fada, como moldura para uma defesa apaixonada: que o adulto nunca perca contato com sua criança interna. A linda cena final, no quarto da bela Jennifer Connely, sempre me emociona. Um detalhe muito importante: NUNCA deboche do seu filho menino por se emocionar em filmes. Pelo contrário, incentive nele esse extravasamento emocional. É uma estupidez tremenda, típica do adulto brasileiro machista, gozar com a cara da criança, afirmar que “homem não chora”. Se você pensa assim, por gentileza, não tenha filhos, adote uma tora de madeira e seja feliz. A sociedade atual precisa desesperadamente de pessoas sensíveis.