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domingo, 11 de setembro de 2016

“Hitchcock” e “The Girl”, O Mito vs O Homem Feb 7

Hitchcock

Se a cinefilia é a celebração viva da memória do Cinema, então o cinéfilo tem razões para festejar.

Num curto prazo de tempo, o nome de Alfred Hitchcock voltou a estar vivo.

Em 2012, “Vertigo” foi eleito o “Melhor Filme de Sempre”, numa votação da Sight & Sound (a revista do British Film Institute), com um “trono” que vai durar 10 anos. Inserido na “coroação”, “Vertigo” foi reposto em cópia nova, restaurada digitalmente, com um recorte de imagem e cor que faz justiça ao filme e ao trabalho de Hitchcock.

Às salas chega hoje “Hitchcock”. A aproveitar tal estreia, repõe-se (saúde-se tal sentido de cinefilia por parte do distribuidor) “Psycho” (“Hitchcock” aborda o processo fílmico de tal filme), já a partir do dia 14 de Fevereiro (uma boa sugestão como um date movie). No final de 2012, chegou à televisão americana (porque não à nossa, também?) um filme chamado “The Girl”.

Estamos perante dois filmes totalmente diferentes, na sua concepção, meios, objectivos e tons. Mas a comparação não é inevitável, pois os dois títulos complementam-se, mostrando o quanto complexa era a figura de Hitchcock.

“Hitchcock” foca a rodagem de “Psycho” e mostra como tal processo foi difícil, com a árdua luta de Hitch em impor a sua visão perante um sistema assustado com tudo o que envolve ensaios na arte (cinematográfica). Foca também todo o perfeccionismo do Mestre, desde a forma de filmar, passando pela forma como extraía o máximo dos seus actores, sem esquecer de mostrar como ele percebia da arte fílmica e como provocar o gosto do público.

“Sir” Anthony Hopkins compõe aquele castiço Hitchcock que sempre povoou a memória e imaginação do cinéfilo, com vários momentos daquele truculento humor negro que só o Mestre sabia.

O filme destaca-se também pela (excelente) qualidade do restante elenco, onde encontramos uma impecável Helen Mirren (a mostrar como Alma Reville, a Mrs. Hitchcock, era mesmo a força motriz criativa e emocional do Mestre), um James D`Arcy num mimetismo perfeito (a Anthony Perkins) e umas esbeltas Scarlett Johansson e Jessica Biel (Janet Leigh e Vera Miles, respectivamente).

A belíssima fotografia recorda (e homenageia) os gloriosos tempos do Technicolor.

O filme também levanta a “saia” a questões muito sérias, complexas e até polémicas – os ciúmes de Hitch sobre a (suposta) infidelidade de Alma, o desejo desta em mostrar as suas qualidades fora da sombra do marido e as reacções ressabiadas de Hitch face às meninas que o “abandonaram” (vejam-se os diálogos com a personagem Vera Miles).

“Hitchcock” é um filme que celebra o mito e explica o porque da genialidade de Hitch, ilustrando a luta (eterna) entre artista e sistema.

Com “The Girl”, tudo muda.

O filme acompanha o processo de rodagem de “The Birds” e “Marnie” (para muitos – eu sou um deles -, as duas obras-primas finais do Mestre; outros consideram “Marnie” como um desaire e como o início da sua fase declinante, fruto dos eventos que o telefilme aborda).

O filme mostra o fascínio e crescente obsessão do Mestre por Tippi Hedren (e quem o pode condenar? o mérito de ambos os filmes não passa, também, pela forma como Hitch suscita no espectador fascínio e desejo por Tippi?). Se por um lado, não deixa de ilustrar o seu perfeccionismo (nomeadamente como ele “criou” A Tippi Hedren – actriz e estrela), a verdade é que o filme é toda uma viagem ao lado mais sombrio de Hitchcock. Aqui já não estamos perante a imagem mítica (e simpática) do cineasta, mas perante um homem com sérios problemas (de auto-estima, solidão, afectos) e algo decadente na forma como os pretendia resolver.

Toby Jones está magnífico. Por criar uma personagem mais complexa (ainda que esta seja Hitchcock em ambos os filmes), Jones consegue ser mais intenso e perturbante que Hopkins. Se por um lado, Hopkins captura muito bem toda a imagem física e pública do Mestre, Jones dá-lhe uma maior profundidade psicológica (e uma, praticamente perfeita, imitação do tom de voz).

Sienna Miller está radiante, e graças a um fantástico trabalho de caracterização e guarda-roupa, suscita o mesmo fascínio que Tippi.

A lenda de Pigmaleão conta a história de um artista que se apaixonou pela estátua criada e esta ganhou vida (humana). Hitchcock acabou por ser vítima (ou confrontado com essa possibilidade) de um perverso castigo do seu efeito inverso (Hitchcock pegou em mulheres e transformou-as nas estátuas da sua adoração).

O cinema de Hitchcock continua a ser A referência sobre como filmar mulheres. Toda a actriz que com ele trabalhou nunca esteve tão linda (Grace Kelly) ou esplêndida (Ingrid Bergman). E se não tinha curriculum como actriz, Hitchcock sabia “construí-la” (yup, Tippi Hedren).

Estes são dois títulos altamente recomendáveis ao cinéfilo, principalmente aos estudiosos de Hitchcock.

Algumas das razões porque Hitchcock será sempre uma referência cinematográfica passa pelo perfeccionismo visual dos seus filmes, a complexidade narrativa e emocional dos argumentos e dos personagens, os permanentes ensaios técnicos que nunca se negava e (claro) pelas beldades dos seus filmes (ou melhor, pela forma como ele filmava as mulheres e pela excelência interpretativa que todas davam nos seus filmes).

Nunca se negou que muito do que Hitchcock abordava nos seus filmes era fruto da sua imaginação e vivência.

Estes dois títulos só nos mostram o quando Hitchcock era, também, tão complexo e fascinante como o seu Cinema.

Se um Hitchcock (o Mito) desperta a cinefilia, o outro (o Homem) só desperta o fascínio pelas fontes do seu Cinema. E com ele regressamos à cinefilia.

Como artista, Alfred Hitchcock só merece a maior admiração do cinéfilo. Como homem (e como tal, sujeito a erros), Hitch merece a crítica, o repúdio, o castigo, mas também a redenção.

Cinema é, também, isto – a transformação de homens e mulheres em mitos, em sublimes estátuas de constante admiração e veneração.

Ao contrário de Hitchcock, o cinéfilo não fica obcecado e possessivo pela estátua.
Mas…

Ao contrário de Hitchcock, o cinéfilo não sabe criar “estátuas”.
Pois não?

segunda-feira, 9 de março de 2015

Alfred Hitchcock - "Interlúdio"



Interlúdio (Notorious – 1946)

Alicia Huberman (Bergman) é uma alemã naturalizada americana, convocada pelo agente secreto americano Devlin (Grant) para uma missão no Rio de Janeiro. Como espiã, Huberman terá que se infiltrar numa organização nazista que vem atuando no Brasil e, para isso, deverá casar-se com Alex Sebastian (Claude Rains), líder da organização.


Um dos pontos que considero mais interessantes nessa obra-prima de Hitchcock é a forma como ela se encaixa, de maneira perfeita, na expectativa de quem o assiste. Caso você esteja procurando os truques do mestre do suspense, você terá uma verdadeira aula. Caso sua namorada esteja interessada em investir emocionalmente em um bom romance, ela receberá simplesmente o melhor. A trama, escrita por Ben Hecht, com uma inteligente execução, satisfaz ainda como thriller político, filme de espionagem, podendo ser também considerada uma das melhores no gênero Noir. O que impressiona é a facilidade do diretor em trafegar por esses caminhos, diferentes gêneros, entrecruzando-os com total segurança e com seu ácido senso de humor.

A narrativa é simples, um caso clássico de triângulo amoroso, ambientado nos escombros psicológicos da Segunda Guerra Mundial. O habitual uso do McGuffin, desta feita, a chave que abre a adega e a amostra de urânio escondida nas garrafas de vinho, um ano antes da tragédia em Hiroshima, transforma situações comuns em momentos de grande tensão para o espectador. A câmera nos ilude apresentando uma festa em larga escala, somente para nos conduzir a observar atentamente a pequena chave que a personagem vivida por Ingrid Bergman esconde na mão, um objeto que, em sua pequenez, representa a resolução de todo o conflito proposto pelo roteiro. Outra cena que simboliza esse incrível poder alquímico de criar sequências densas a partir de eventos comuns: o longo beijo do casal. O Código Hays censurava beijos na boca que durassem mais de três segundos, obstáculo que Hitchcock audaciosamente ultrapassou ao inserir, entre uma carícia e outra, linhas de diálogo. Sua câmera nos faz voyeurs, apoiados no ombro de Cary Grant, enquanto a belíssima Bergman demonstra claramente que apenas realizou a sua perigosa missão, diferente de Mata Hari, por estar perdidamente apaixonada por ele. O ato de redenção, como forma de compensar os crimes cometidos pelo pai nazista, é pura consequência da paixonite dela, que se mostra, ao longo da trama, emocionalmente imatura e carente, ainda que revestida por um verniz de segurança que, salientado logo de início, é reforçado pelo vício no álcool.

Ao optar por filmar em primeira pessoa a sequência de introdução dela no ambiente do personagem de Claude Rains, o diretor evidencia que a mão que está sendo beijada é a da espectadora, ele busca a total identificação do público feminino nessa trama, uma espécie de tortura cinematográfica. Ele sabia que o filme seria um sucesso, quando o público se sentisse ameaçado, sofresse junto com os protagonistas. Ele priorizava mais os dez minutos de angústia que poderia conquistar, contando ao público que algo terrível iria acontecer, fazendo dele cúmplice, do que assustar os espectadores desprevenidos por alguns segundos. O plot twist sutilmente exposto no título original mostra o personagem de Grant, um espião profissional, altamente competente, percebendo que o nascimento de um inesperado sentimento de amor pela jovem, algo notório desde a primeira troca de olhares, superou toda a desconfiança essencial em sua função. Como não se apaixonar por Ingrid Bergman?


Links para os textos anteriores sobre filmes do diretor:

* O filme está sendo lançado, em versão restaurada e com um documentário sobre a produção, pela distribuidora "Versátil", na caixa "O Cinema de Hitchcock", contendo também: "Quando Fala o Coração", "Rebecca - A Mulher Inesquecível", "Os 39 Degraus", "Correspondente Estrangeiro" e a primeira versão de "O Homem Que Sabia Demais".