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quarta-feira, 7 de setembro de 2016

"A Comunidade", de Thomas Vinterberg


A Comunidade (Kollektivet - 2016)
O cineasta mais competente saído do movimento Dogma 95, Thomas Vinterberg, após o irregular “Longe Deste Insensato Mundo”, repete a excelência demonstrada em “A Caça” com o profundamente emocionante “A Comunidade”, buscando inspiração em suas experiências pessoais de adolescente na conturbada década de setenta, época em que seus pais viveram em uma comuna. Ele parte de uma ideia simples, um casal de meia-idade, um arquiteto e uma apresentadora de telejornal, com uma filha adolescente, herdam uma mansão e decidem poupar despesas transformando o local em uma comunidade. Para Anna, interpretação brilhante de Tryne Dyrholm, aquela seria uma possibilidade interessante de injetar ânimo na relação conjugal que já estava desgastada. Mas o elemento do caos é inserido na equação quando o seu marido, vivido por Ulrich Thomsen, revela estar apaixonado por uma aluna mais jovem, Helene Reingaard Neumann emulando visualmente a Camille, de “O Desprezo”. Ao contrário da personagem de Brigitte Bardot no clássico de Godard, que via seu relacionamento conjugal desmoronar, essa femme fatale tem papel ativo na desconstrução familiar, e, por conseguinte, na constatação de que a utopia do coletivismo socialista é frágil. O marido, ao primeiro sinal de discordância do grupo com relação à entrada da namorada, perde totalmente o controle emocional e reivindica de forma arrogante a sua condição prévia de dono da casa.

O espírito libertário do período, pouco antes da Guerra do Vietnã destruir a inocência do mundo, fala diretamente aos valores que o cineasta procurou resgatar, uma camaradagem que sobrevive às desilusões e perdas naturais na vida de qualquer um, a capacidade de sorrir quando se decide aliviar o fardo dividindo-o com alguém. O desabafo tátil, o poder psicológico do toque, expressado simbolicamente na história contada à mesa sobre o experimento terrível de um rei, algo cada vez mais desvalorizado em um mundo dominado por pessoas escravas das telas de seus smartphones, é um leitmotiv que potencializa a emoção em diversos momentos, como quando as mãos da filha acalmam o desespero da mãe, ou até mesmo agindo como apelo silencioso na mesa de jantar, a mulher ferida também busca alento após a exteriorização da raiva no contato com as mãos daquela que foi responsável por seu sofrimento. Ao acordar com o som da relação sexual no quarto ao lado, acende um cigarro, visualmente compondo a noção de que ela, ainda dependente do outro, busca complementar automaticamente a satisfação de um prazer que não usufruiu. Até mesmo na consumação sexual da filha ela se torna coadjuvante indireta, com a câmera deslizando da cama ao aparelho de televisão, mostrando seu rosto na tela.

Outro tema importante trabalhado é o conceito elástico de família. A absurda desumanidade de um atendente de hospital que se recusa a dar informações ao telefone sobre um paciente para quem não é de sua família nuclear. E vale ressaltar a beleza da metáfora representada por um menino que vive a fase do amor pleno, sendo inserido no microcosmo que representa a cruel realidade do mundo adulto. Como a criança de “O Mágico de Oz”, descobrindo em tom poético que o caminho de tijolos amarelos precisa desaparecer para que a maturidade se imponha, conduzindo a um momento belíssimo ao som de “Goodbye Yellow Brick Road”, de Elton John. É impossível revelar mais sobre essa sequência sem prejudicar a experiência do espectador, mas garanto que é inesquecível. 

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

A Comunidade

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A comunidade chega aos cinemas com o tarimbo de ser a nova produção de Thomas Vintenberg, diretor conhecido por, juntamente com Lars von Trier (Melancolia), ter fundado o movimento cinematográfico Dogma 95, que busca a produção de películas mais realistas e menos comerciais. Ele ganhou, ainda mais, respeito e notoriedade, por concorrer, em 2013, ao Oscar de melhor filme estrangeiro pelo, excelente, A Caça. O problema, é que esse currículo promove uma expetativa, que A Comunidade, até consegue, atender em muitos momentos, mas deixa a desejar em outros, por conta de seu nítido problema de falta de ritmo e falha na priorização de tramas menos interessantes do que outras pouco exploradas.

A trama se inicia com Erik, um professor de arquitetura, herdando a casa de sua família após a morte de seu pai. Por considerar o imóvel muito grande para morar e ser uma boa oportunidade de fazer dinheiro, ele termina autorizando um corretor a buscar um comprador e fechar uma venda lucrativa, porém, sua esposa, Anna, uma famosa apresentadora de televisão, o convence de que eles deveriam viver uma experiência diferente e transformar a casa em uma espécie de comunidade, onde morariam com sua filha Freja e convidariam alguns amigos e conhecidos. Juntos, eles dividiriam as contas, a mesa nas refeições e formariam uma espécie de família. O que ninguém imaginava é que Erik acabaria se apaixonando por uma de suas estudantes, pedindo a separação e ainda propondo que ela se mudasse para a comunidade. Os moradores acabam aceitando a situação, por medo dele expulsar todo mundo da casa e terminam fazendo com que sua, agora, ex-esposa, Anna, tivesse que conviver com a nova namorada dele.

Vintenberg consegue, como poucos, desenvolver os sentimentos e as relações humanas. Lentamente, ele vai afetando os personagens e os colocando em situações complexas e irritantes, até que seja, praticamente, impossível controlar as emoções e as reações sejam as mais exaltadas possíveis. Por mais que Erik tenha encontrado um novo amor, estar convivendo com as duas sob o mesmo teto acaba lhe fazendo perder muito tempo lidando com os problemas desta situação e Anna, a idealizadora da comunidade, não suporta o fato de conviver com a nova namorada de ex marido e, mais do que isso, ouvir os barulhos que eles fazem todas as noites.

O triangulo amoroso é de fato algo maravilhoso de A Comunidade e termina atendendo bastante as expectativas quanto a produção, porém, o longa acaba perdendo força e ritmo ao se envolver com subtramas pouco interessantes do outros membros da comunidade. Há um garotinho, que sofre com problemas cardíacos e repete para todos que só viverá até os nove anos de idade. Há um adulto que não possui condições financeiras para pagar o aluguel prometido e todo final de mês chora por ter que se submeter a ouvir reclamações dos outros amigos. Nem mesmo a trama da filha do casal, quanto ao descobrimento da vida sexual, consegue algum tipo de conexão com o espectador. Talvez a retirada de momentos desnecessários e um maior investimento em Freja, poderia garantir ao filme uma melhor continuidade dos eventos e mais solidez.

Os atores Ulrich Thomsen e Trine Dyrholm, que já haviam trabalhado com o diretor em Festa em Família, são os responsáveis pelo sucesso da história principal. A dupla consegue, muito bem, apresentar o processo de tentativa de aceitação da situação pelos seus personagens e com, mais competência ainda, explodem quando estes não conseguem mais lidar com a pressão e os problemas inerentes da mesma. É sempre muito claro que aquilo tudo vai dar errado e eles, com louvor, fazer o espectador até imaginar que estão se esforçando para que as expectativas não sejam atingidas e ambos alcancem um patamar diferenciado de convivência. Trine Dyrholm foi condecorada com o Urso de Ouro de melhor atriz do Festival de Berlim deste ano.

Eu particularmente, moro há 6 anos dividindo apartamento com amigos e colegas de trabalho e sei o quanto é complicado este tipo de moradia. É bom ter regras bem definidas e perfis similares para a garantia de uma boa convivência. A Comunidade se propõe a uma reflexão interessante sobre essa situação, que muitos devem viver, logicamente que em uma escala menor do que a vista na película, porém, ainda assim, investe muito tempo em momentos desinteressantes ou mal desenvolvidos, que terminam afetam o trabalho como um todo. Interessante, acima da média, mas não ao ponto que se espera de Thomas Vintenberg. Seu poder de direção está vivo e presente, mas, encerro dizendo que A Comunidade é um filme de altos e baixos.

Nota do CD:
3 out of 5 stars


Sinopse: Erik (Ulrich Thomsen) e Anna (Trine Dyrholm) são um casal de acadêmicos dos anos 70 que, junto com a filha, Freja, montam uma comuna em um elegante bairro de Copenhague. A ideia é dividir a casa e viver em conjunto com outras pessoas. Querendo estar no centro da história e realizar o sonho de viver em grupo, eles realizam jantares, reuniões e festas. Levados pelo mesmo sonho, um caso de amor abala a pequena comunidade, fazendo com que esse grupo de sonhadores e idealistas acordem para a realidade.

Ficha Técnica:
Título Original: Kollektivet
Título Brasil: A Comunidade
Gênero: Drama
Direção: Thomas Vinterberg
Roteiro: Thomas Vinterberg, Tobias Lindholm
Elenco: Adam Fischer, Fares Fares, Helene Reingaard Neumann, Ida Emilie Krarup, Julie Agnete Vang, Lars Ranthe, Lise Koefoed, Mads Reuther, Magnus Millang, Ole Dupont, Rasmus Lind Rubin, Trine Dyrholm, Ulrich Thomsen
Produção: Morten Kaufmann, Sisse Graum Jørgensen
Fotografia: Jesper Tøffner
Montador: Anne Østerud, Janus Billeskov Jansen
Trilha Sonora: Fons Merkies
Duração: 111 min.
Ano: 2016
País: Dinamarca
Cor: Colorido
Estreia: 01/09/2016 (Brasil)
Distribuidora: Califórnia Filmes
Estúdio: Zentropa Entertainments