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quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

"Aquarius", de Kleber Mendonça Filho



Aquarius (2016)

É uma pena que a recepção desse filme nacionalmente tenha sido prejudicada por questões políticas baixas, um barulho distorcido encabeçado pelo próprio realizador e que soou mais alto que a bela melodia da trama. Em minha lista de melhores do ano, recentemente postada, você irá encontrar “Mãe Só Há Uma”, de Anna Muylaert, que considero uma obra mais bem resolvida, um roteiro preciso, sem gordura extra. O trabalho de Kleber Mendonça Filho em “Aquarius” peca pelo excesso, peca por querer dizer muito, falta foco narrativo, o que é uma pena, já que há um filme perfeito perdido no pretensiosismo do roteiro. 

Algumas cenas parecem enxertadas para satisfazer interesses ideológicos externos à trama, similar ao que senti em “Que Horas Ela Volta?”, uma espécie de agenda politiqueira que soa intensamente artificial no papel e, por conseguinte, esbanja proselitismo raso na entrega do elenco. Não há problema em ser panfletário, mas tentar infiltrar sutilmente essa intenção causa o efeito inverso no espectador mais atento, desfila como um rinoceronte em uma loja de cristais. Outro problema, as sequências de sexo, a polêmica da censura na classificação indicativa. A questão é que essas cenas realmente são conduzidas de forma desnecessariamente explícita, contrastando com a sensibilidade dominante, parecem existir apenas para causar choque, como se a intenção fosse incitar a polêmica pelos mesmos motivos politiqueiros. A nudez é utilizada com inteligência quando Clara (Sonia Braga) revela ao público a cicatriz física e psicológica de sua batalha contra o câncer, mas os demais momentos envolvendo nudez são tolos, gratuitos, poderiam ser resolvidos com elegância coerente à alegoria central que o roteiro propõe, ou poderiam ser encurtados na edição. A cômoda, leitmotiv visual frequente, representa o elemento do desejo sexual que atravessa gerações, mas a forma como esse móvel é utilizado poderia ser menos didática, a câmera faz questão de registrar sua presença em várias cenas, a repetição subestima a inteligência do público e minimiza a beleza da simbologia.

Há tanto material interessante que é abordado sem atenção, como a crítica que é feita aos estelionatários neopentecostais, rascunhos que nunca são minimamente aprofundados, enquanto o filme perde tempo precioso em seu primeiro ato mostrando personagens ainda desconhecidos do público batendo cabeça dentro de um carro, escutando “Another One Bites the Dust”. Falta senso de direcionamento, a música exerce função primordial, simboliza a valorização da memória (não apenas cultural, nas relações humanas, em todas as vertentes), a protagonista resiste bravamente à mídia digital, ainda que a compreenda como inevitável, sabendo que informações na nuvem nunca irão substituir a poesia por trás de dedicatórias para estranhos em livros encontrados nos sebos, mas o espectador precisa se importar primeiro com a personagem para que o investimento emocional funcione. A utilização da música somente se torna parte orgânica do todo no segundo ato, resultando em momentos verdadeiramente bonitos, como quando Clara celebra sua liberdade dançando ao som de “O Quintal do Vizinho”, de Roberto Carlos. 

Vale ressaltar também o reducionismo maniqueísta reservado ao discurso social que, por vezes, parece ser mais importante que o desenvolvimento dos arcos narrativos: empresários malvados, elite covarde, patroa que visita a casa humilde da empregada no dia de seu aniversário, pobres e ricos divididos sem tons de cinza, não há sutileza alguma na abordagem. Em alguns momentos, esse discurso social funciona, como na cena em que jovens negros da periferia se unem aos moradores dos condomínios de luxo no exercício teatral de gargalhadas ao ar livre. A intenção óbvia é desafiar o preconceito do espectador, a condução da cena (montagem e alguns enquadramentos) leva a crer que eles trazem algum perigo. Ao fazer com que esses rapazes entrem na brincadeira e, mais importante, sejam acolhidos carinhosamente pelos praticantes, o roteiro desfaz o preconceito e incita genuína reflexão. Em outros momentos, o discurso social soa forçado e constrangedor, como na cena em que o jovem sócio da construtora utiliza a cor da pele de Clara como argumento em uma discussão, ou quando justifica o roubo cometido por uma babá, colocando na boca de uma personagem a cretina frase: “É assim, a gente as explora e, de vez em quando, elas nos roubam”. É filosofia socialista de butique, o mesmo tipo de ideologia torta que defende as atuais invasões de adolescentes em escolas públicas, simplismo grosseiro que não combina, por exemplo, com a elegante referência ao escritor pernambucano José Luiz Passos, na cena em que vemos de relance a capa de seu livro: “O Sonâmbulo Amador”, que trata exatamente sobre o tema da resistência. 

Dito isso, qualquer elogio feito à atuação de Sonia Braga é pouco, a melhor de sua carreira, capaz de suprimir as lacunas de seu desenvolvimento no roteiro com pausas estratégicas em frases, deixando transparecer o subtexto, as emoções disfarçadas, o perfeito timing no senso de humor, o conflito constante entre o compreensível medo residual e a coragem de quem já encarou a morte. Sonia é o coração pulsante e a alma do projeto. A jornalista aposentada que se recusa a abrir mão de seu apartamento, mesmo tendo condições financeiras de morar em qualquer lugar. Clara tem outros apartamentos, aquela batalha não é movida por mesquinhez, a ameaça invade sua história de vida, desconsidera todas as experiências belas e difíceis que forjaram seu caráter, os inescrupulosos no terceiro ato chegam a cometer um atentado à sua vida, alegoria que representa mais um câncer em seu combalido espírito, corroendo de dentro para fora após atingir de todas as formas o seu psicológico. A valente reação dela, na casa do inimigo, o testamento em vida de uma guerreira inabalável. “Hoje”, linda composição de Taiguara que emoldura a obra, “eu não queria andar morrendo pela vida”, síntese perfeita para a vitória pessoal da protagonista.

“Aquarius” é, com todos os seus problemas, o segundo melhor filme nacional do ano. Kleber Mendonça Filho é muito feliz ao propor a necessária valorização da memória, simbolizada no apego emocional de Clara com o apartamento e com seus discos, fragmentos de amor preservados nas estantes. Quando o indivíduo passa a se relacionar somente com genéricas informações desprovidas de encanto, tudo se torna dispensável, até mesmo o outro. Ao estabelecer esse resgate, o roteiro propõe uma resposta lúcida para o desolador panorama comportamental de nossa sociedade, cada vez mais conectada virtualmente, olhos fixos nas telas de seus celulares, sem empatia, sem respeito, sem sentido. A resistência é o único caminho aceitável. 

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Aquarius

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“Hoje, Trago em meu corpo as marcas do meu tempo”…  O trecho da música “Hoje”, interpretada por Taiguara, é a primeira coisa que Kleber Mendonça Filho (Também diretor do aclamado O Som Ao Redor), deseja que seu espectador escute. A sabedoria da utilização da trilha sonora, por sinal, é um dos pontos mais fortes de Aquarius,pois o diretor joga em cena músicas marcantes da história brasileira e utiliza-se de suas estrofes para transmitir os sentimentos e pensamentos dos personagens. Por exemplo, é impossível não ler a estrofe citada acima e não remeter a protagonista Clara, uma sexagenária, jornalista e crítica de música, aposentada, que trava uma luta constante contra a construtora Bonfim, que tenta a todo custo comprar o seu apartamento no Edifício Aquarius, localizado na praia de Boa Viagem, no Recife. A empresa já obteve êxito na compra de todos os apartamentos, porém não consegue iniciar a construção de um novo e moderno prédio, por conta do entrave com Clara, que não abre mão de sua morada.

Aquarius não demonstra pressa na apresentação e desenvolvimento de sua protagonista. O roteiro faz questão de voltar no tempo para mostrar o aniversário de uma tia, cujo a personalidade lhe influencia no futuro ou até mesmo para retratar o momento da luta contra o câncer de mama, cuja a retirada de um dos seios é uma das marcas que carrega consigo. No presente, somos apresentados a seus gostos peculiares, por ainda ouvir vinil, admirar as músicas de seu tempo e manter uma rotina pacata de dar um mergulho na praia, conversar com o salva-vidas, considerar sua empregada doméstica uma amiga, ao ponto de estar presente em sua festa de aniversário e sua teimosia para manter o estilo de vida que escolheu para si, na casa em que cresceu e que criou seus filhos, independente de qualquer proposta financeira. Dinheiro para ela não é problema e nem mesmo ambição.
É na rotina de Clara que enxergamos diversas críticas sociais. Em Aquarius, todas são inseridas com extrema simplicidade e por se tratarem de situações tão rotineiras na vida do espectador, algumas terminam passando despercebidas ou não causando tanto impacto na hora, porém um pouquinho de reflexão basta para o entendimento do quanto elas são fortes e interessantes. Alguns exemplos: Mídia despreparada, que coleta, de entrevistas, apenas frases desconexas para atrair polêmica e público, o nepotismo, oferecendo aos parentes e familiares posições de destaque dentro das organizações, mesmo sem capacidade ou merecimento e, até mesmo, a relação entre pais e filhos, que apesar de todo amor e reconhecimento, também gira em torno de interesses próprios e financeiros.

Muitas outras são apresentadas, como os efeitos da separação na rotina da vida de um bebê, a dificuldade de um filho gay em inserir o seu namorado no ambiente familiar, as novas relações iniciadas através de redes sociais, mas nenhuma delas é mais interessante do que a guerra particular travada com a construtora, que visa a demolição do EdificoAquarius. Os diálogos entre Diego, o jovem que é responsável pela construção do novo prédio, e de Clara são muito interessantes. Como ela diz: “Você faz o tipo Passivo agressivo”. O jovem quer a todo custo obter sucesso, estudou no exterior, se considera preparado para assumir um grande negócio e não aceita estar prejudicado por conta uma idosa, que não quer sair, do que ele considera ser, um edifício fantasma. Apesar de soar amigo e soar educado, Diego faz questão de complicar a vida de Clara e promove situações para lhe irritar, para lhe vencer pelo cansaço, porém a teimosia dela cria um ambiente de tensão, que se arrasta ao longo da produção e ganha contornos espetaculares em seu desfecho.

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Aliás, ponto para a dupla de atores. Humberto Carrão entrega uma atuação majestosa, sendo cínico,  mau caráter e ao mesmo tempo educado. Sendo agressivo, sem parecer em alguns momentos e se fazendo de sonso sempre que preciso. Os olhos do ator no embate final é digno de aplausos. Um leve olhar para o outro lado da mesa de negociões e percebe-se a fúria de quem deseja abraçar o mundo. Sônia Braga está impecável! Cada detalhe da face enriquece sua, dificílima, personagem. A atriz consegue ser sensual, segura, vibrante e marcante em todas as cenas. A entrega dela é algo que nos faz amar o cinema. Vemos uma atriz focada, obstinada, mesmo depois de uma carreira já consolidada. Os traumas, os pensamentos são todos muito bem transmitidos, o espectador se conecta com ela, e mesmo com toda a teimosia, entende seus motivos e reflete sobre como se portaria se estivesse na mesma situação. Uma pena não ter sido premiada em Cannes.

A verdade é que, antes mesmo de chegar no Brasil, Aquarius já deu o que falar. Primeiro por ter sido selecionado entre 21 longas que disputariam a Palma de Ouro no Festival de Cannes, algo que não ocorria com um filme 100% brasileiro desde 2008, quandoLinha de Passe também conseguiu esse feito.  E segundo por todo o envolvimento político dos realizadores, que aproveitaram o tapete vermelho do evento para uma manifestação contra o processo de Impeachment que ocorria, e ainda está em andamento, no Brasil. Outra polêmica é o fato do filme ter obtido, desnecessariamente, a classificação indicativa de 18 anos, algo que está sendo visto, pelos realizadores, como uma retaliação ao protesto feito na França. Kleber Mendonça Filho chegou a se pronunciar sobre o assunto e disse que tudo isso só está servindo para aumentar o marketing em torno da película.

Outra verdade é que, não é muito difícil, associar Aquarius como uma grande metáfora do Brasil. Corrupto, impulsivo e tratando a tudo e a todos como descartáveis. Incrível a crítica do cineasta Kleber Mendonça Filho, que dirige sua obra com cuidado minucioso, investindo nos detalhes e na situações rotineiras. Temos um grande nome para observar e que a cada ano que passa se consolida ainda mais como representante brasileiro mundo afora. Impossível não sair da sessão feliz por saber que nosso país é capaz de uma película tão incrível. Temo que, as mais de duas horas de duração, afaste o público e lhes digo que o tempo passa voando.

Nota do CD:
5 out of 5 stars


Sinopse:
Clara (Sonia Braga) vive sozinha num apartamento à beira-mar do prédio Aquarius. Ela já tem uma vida estabilizada como crítica de música e como mãe de três filhos. Clara se recuperou de um câncer e o que ninguém sabe é que ela tem o poder de viajar no tempo.


Ficha Técnica:
Título Original: Aquarius
Título Brasil: Aquarius
Gênero: Drama
Direção: Kleber Mendonça Filho
Roteiro: Kleber Mendonça Filho
Elenco: Buda Lira, Carla Ribas, Daniel Porpino, Fernando Teixeira, Humberto Carrão, Irandhir Santos, Julia Bernat, Maeve Jinkings, Paula De Renor, Pedro Queiroz, Rubens Santos, Sonia Braga, Thaia Perez
Produção: Emilie Lesclaux, Michel Merkt, Saïd Ben Saïd
Fotografia: Fabrício Tadeu, Pedro Sotero
Duração: 142 min.
Ano: 2016
País: Brasil / França
Cor: Colorido
Estreia: 01/09/2016 (Brasil)
Distribuidora: Vitrine Filmes
Estúdio: Cinemascópio Produções / SBS Productions

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Aquarius, de Kleber Mendonça Filho, em primeira cena e cartaz oficial

Integrante da mostra competitiva da edição atual do Festival de Cannes, o longa-metragem Aquarius, de Kleber Mendonça Filho (Recife Frio, O Som ao Redor) também representa o cinema brasileiro na tradicional mostra francesa. Na última semana, foi divulgado o primeiro cartaz oficial da produção, voltada para divulgação no mercado francês. Também foi disponibilizada uma cena do filme, no qual a protagonista Clara (Sônia Braga, de Lope), contracena com o salva-vidas Roberval, papel de Irandhir Santos (A História da Eternidade). 
A sequência é ambientada na praia de Boa Viagem. no Recife.

Aquarius versa sobre uma jornalista e escritora que mora no edifício Aquarius, de frente para a praia. É a última construção de estilo antigo da praia de Boa Viagem. Viúva e mãe de três filhos adultos, ela resiste ao assédio de uma construtora que tem a intenção de demolir o local e construir um novo empreendimento.

Fazia oito anos que o Brasil não conseguia uma vaga na seleção oficial de Cannes para disputar a Palma de Ouro. O longa será exibido na terça (17), e já foi apontado pela conceituada revista francesa Cahiers du Cinéma como um dos mais aguardados de 2016. Após sua exibição em Cannes, Aquarius segue para o Festival de Sydney. Enquanto isso, esperamos a escolha de uma data para o seu lançamento no Brasil.

Aquarius