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segunda-feira, 16 de novembro de 2015

A Trilogia "De Volta Para o Futuro"




De Volta Para o Futuro (Back To The Future – 1985)

De Volta Para o Futuro 2 (Back To The Future  Part 2 – 1989)

De Volta Para o Futuro 3 (Back To The Future  Part 3 – 1990)

O filme traduzia em imagens o sonho máximo de qualquer jovem fã de ficção científica: poder se deslocar para qualquer época da história e modificar o rumo de sua vida. A ideia foi concebida pelo roteirista Bob Gale após uma visita a seus pais. Ao encontrar no porão da casa um velho livro escolar, descobriu que seu pai havia sido o presidente de sua classe de formandos. Comparando-o com o presidente na sua época de adolescente, percebeu que o via como alguém totalmente diferente dele, alguém que nunca faria parte de seu círculo de amizades. Caso ele tivesse convivido com seu pai na época de escola, teriam se dado bem? Após encontrar-se com o amigo Robert Zemeckis, acabou descobrindo que compartilhavam o mesmo interesse. Ele achava interessante a ideia de uma mãe que orgulhosamente dizia a seus filhos que nunca havia beijado ninguém na escola, porém havia sido de fato, uma jovem bastante promíscua. Nascia ali o conceito fantástico por trás da trilogia.

Marty McFly (Michael J. Fox) representa o adolescente típico de sua época. Insatisfeito com seu pai, por considerá-lo um homem fraco e submisso, sempre alvo das perseguições de um valentão. Vê sua mãe como uma pessoa deprimida e descuidada com seu corpo. O jovem tem como amigo um infame inventor visto como louco pela sociedade, Dr. Emmet Brown (Christopher Lloyd). Um grande acerto no roteiro é não nos explicar como essas figuras tão díspares acabaram se tornando amigos tão próximos. Teria sido uma consequência de uma viagem no tempo? Casualidade? Outra ideia fantástica é transformar a usual máquina do tempo, sempre retratada pelo cinema do gênero, especialmente nos anos cinquenta, como engenhocas visualmente complexas, em um antiquado DeLorean, com suas portas que se abrem verticalmente.

O segundo e o terceiro, filmados simultaneamente, mantém o carisma do primeiro, brincando com as regras estabelecidas. Gosto demais da estrutura narrativa caótica do segundo, fugindo do convencional, sem atos definidos e abusando do elemento da viagem no tempo, que, ao contrário do original, tem papel fundamental do início ao fim. Só pelo fato do roteiro se dedicar exclusivamente a esse recurso, extremamente arriscado, já demonstra a coragem da produção, qualidade raríssima em sequências de filmes de sucesso. Toda a parte explicativa, necessária, e que normalmente toma várias cenas em projetos similares, é resolvida nesse em uma cena curta, onde Doc Brown, melhor professor do mundo, explica para o público a teoria em rabiscadas de giz na lousa. Simples e eficiente. A opção de Dean Cundey por uma fotografia que prima pelo exagero nas cores, em sua representação do futuro, merece crédito por se afastar daquela visão futurista clássica no cinema do gênero, quase sempre sombria e pessimista. Esse aspecto dark é reservado para a visão alternativa do “presente” do personagem, a sua cidade dominada pelo ambicioso Biff, uma sequência cujo tom difere totalmente do que a história havia estabelecido até então. E, claro, vale salientar a presença da bela Elizabeth Shue, como a namorada de Marty, vivida sem brilho no original por Claudia Wells.


O embrião criado no primeiro filme e aprimorado em suas duas continuações é um prato cheio para os que se deliciam assistindo várias vezes. Suas camadas de interpretação são tão amplas, que vale a pena assistir as obras por diferentes pontos de vista, descobrindo assim um filme novo a cada vez. Ao voltar para a década de cinquenta, Marty acaba criando o Rock and Roll ao tocar em sua guitarra “Johnny B. Goode”, na festa de formatura de seus pais. Consegue fazer seu pai se impor perante o amigo que passaria a vida toda infernizando ele, acabando por salvar a honra de sua mãe e modificando totalmente o seu futuro. É a magia do cinema ensinando que podemos modificar nossas vidas inteiras mediante pequenas ações no presente. Vale salientar também a qualidade técnica e artística das continuações, tão boas ou melhores que o original. Considero o segundo, por exemplo, bastante superior ao primeiro. O jovem em sua segunda aventura precisa lidar com as consequências de seus atos no filme original, pois todo o espaço-tempo foi modificado. O filme brinca com cenas como a da formatura, fazendo Marty revisitar seu próprio solo de guitarra. Em nenhum momento fica a impressão que os produtores intencionavam apenas lucrar em cima do sucesso do primeiro, existe uma razão bem justificada para cada linha de roteiro. No terceiro, os produtores ousaram ir além, levando a trama e seus personagens para o Velho Oeste americano. Em 1955, o jovem recebe uma carta do Dr. Brown datada de 1855 e descobre que ele será assassinado, precisando voltar ao passado para tentar salvar seu amigo.

O terceiro, algo difícil na indústria, consegue manter o nível dos anteriores, oferecendo algo que os fãs não esperavam, e, possivelmente, não desejavam, uma homenagem ao gênero Western. Saudade da época em que os produtores não mimavam o público nas continuações. O que temos hoje? Um período dominado por franquias medíocres e preguiçosas. A conclusão criada para a saga demonstrava imenso poder autoral de seus criadores, pois não deixam ao final nenhuma esperança de retorno. Aquela era a história que Bob Gale e Robert Zemeckis queriam contar e chegava ao seu apoteótico desfecho. Teorias para possíveis continuações não faltam, mas estão aonde devem sempre ficar: nas mentes dos fãs e admiradores desta aventura inesquecível. Graças a “De Volta para o Futuro”, poderei sempre voltar no tempo, ao som da ótima trilha sonora de Alan Silvestri, e vivenciar novamente o brilhantismo que permeou minha imaginação de sonhos escapistas e DeLorean’s voadores.


* É importante salientar e aplaudir novamente o trabalho primoroso da editora “Darkside Books”, da seleção criteriosa do material, passando pela apresentação do produto e divulgação/interação com os leitores. São livros meticulosamente pensados por pessoas que verdadeiramente amam o que fazem. E, continuando essa jornada de sucesso, eles lançam “De Volta Para o Futuro – We Don’t Need Roads: Os Bastidores da Trilogia”, escrito por Caseen Gaines, o fruto de vinte meses de pesquisa do autor, que conduziu mais de quinhentas horas de entrevistas com a equipe técnica, elenco, críticos e com os fãs. O livro é muito interessante, rico em informações, com uma belíssima arte de capa da editora, um verdadeiro tesouro para todos os que já foram tocados pela mágica atemporal desses filmes que se recusam a envelhecer. Sua estante irá agradecer essa adição.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Resenha de Filme: De Volta para o Futuro



B

Marty McFly (Michael J. Fox) é apenas mais um entre tantos outros garotos da sua idade, com desejo de aventura, ansiedade pela descoberta e uma namorada que é a grande paixão da sua vida. Nada em seu cotidiano poderia ser mais comum, a não ser por um detalhe especial que revoluciona toda a sua rotina: a possibilidade de viajar no tempo e conhecer de perto o passado de seus pais, que tantas vezes ouviu ser contado pelos próprios. Baseado nessa premissa que soa sempre instigante, Robert Zemeckis entregou ao público De Volta para o Futuro (Back to the Future, 1985), o primeiro exemplar de uma trilogia pautada pelas conexões entre o ontem e o hoje temperada com um ritmo frenético e um enorme coração. Nos áureos tempos globais, o filme era figurinha carimbada na programação, e hoje desfruta de um merecido status de cult, justificado pela soma de vários elementos em dosagens bem pensadas.

De início, já se nota como o tempo é um ingrediente fundamental da história: em uma espécie de laboratório improvisado, vários relógios funcionam com horários e para finalidades diferentes, enquanto os créditos de abertura vão surgindo. Dali a pouco, McFly aparece e constata um pequeno acidente em uma das experiências, que comunica de imediato ao Dr. Emmett Brown (Christopher Lloyd), sujeito de visual excêntrico que é um mentor para o rapaz. Ele está trabalhando em um empreendimento que é o sonho de boa parte da humanidade, e cuja concretização se relaciona com a velocidade do som. A viagem no tempo é feita em um carro, com o auxílio de um combustível não muito fácil de ser obtido, o que o obriga Emmett a negociar com terroristas e a contrair uma dívida perigosa. É justamente durante a perseguição dos terroristas a ele que McFly entra no carro, acelera e retrocede alguns anos. Ele mal pode acreditar, mas está na sua própria cidade à época da juventude dos seus pais, que ainda nem se conheciam.

O nó da narrativa se estabelece quando ninguém menos que sua mãe se apaixona por ele, depois que ele se intromete no lugar errado e na hora errada. Ele sempre ouviu que seus pais se apaixonaram depois que o pai dela o atropelou acidentalmente, e McFly desfaz esse início da história de amor dos dois ao ser ele o acidentado. A paixão de Lorraine (Lea Thompson) é à primeira vista, e coloca o garoto em uma situação complicada e divertida para quem vê. Agora, tudo o que ele precisa fazer é uni-la novamente a George (Crispin Glover) e, assim, garantir que ele e seus irmãos vão nascer no futuro – ou seria no presente? Enquanto McFly vai tentando salvar sua pele, o espectador vai sendo apresentado aos costumes e pensamentos da década de 50, e nota que Lorraine e George não eram bem o que diziam ser para os filhos. Os tempos eram outros, mas ela já se mostrava bem avançadinha para a época, surpreendendo o filho com uma postura libertária, quando o comum eram mulheres castas e extremamente submissas ao pai ou ao marido.

Nesse sentido, o roteiro escrito por Zemeckis em parceria com Bob Gale – também responsável pelos demais filmes da trilogia – capricha no cinismo mesclado a uma certa inocência, que ainda se mostra distante dos tempos politicamente corretos que surgiram como um dos efeitos colaterais dos anos 2000. Esqueça as mocinhas românticas e os bons rapazes, cheios de virtudes e idealizações. O que McFly encontra é uma juventude muito semelhante à de seu tempo, boa dose de rebeldia e inconsequência, a não ser por George, que se encaixa no perfil típico no nerd que mal tem coragem de se aproximar da garota por quem está interessado. Daí a necessidade da intervenção de seu filho, que deixa Lorraine cada vez mais encantada em vez de atrai-la para George. Ao mesmo tempo, ele encontra o Emmett do passado e o convence a ajudá-lo a voltar aos anos 80, e o plano deles é refazer a viagem no carro usando um raio como combustível. Ainda sobre o roteiro, a ideia partiu de Gale, que se perguntou se ficaria amigo do pai se o tivesse conhecido na época do colégio, uma curiosidade que se desdobrou em uma adorável aventura.

Para além de uma trama bem escrita, De volta para o futuro encontrou em Michael J. Fox o rosto ideal para interpretar McFly. O ator baixinho e super carismático serviu muito bem ao papel de adolescente comum, sem qualquer pinta de galã, ao menos em um primeiro momento. É praticamente impossível não torcer para que ele consiga recolocar tudo em suas posições certas e sobreviver no final, tamanha a empatia que o personagem desperta. E pensar que o filme quase não saiu do papel e muito menos teria o seu nome no elenco, tudo porque vários estúdios disseram “não” para o roteiro. A situação só mudou depois do sucesso de bilheteria de Tudo por uma Esmeralda (Romancing the Stone, 1984), filmado por Zemeckis apenas um ano antes (nada como a promessa de um bom faturamento para mudar a opinião dos grandes estúdios) e à desistência inicial de Eric Stoltz em viver o personagem, o qual foi parar nas mãos de J. Fox, que deu un jeito de conciliar as gravações da série Family ties com as filmagens do longa. Hoje em dia, os fãs e os novos espectadores agradecem.

A dobradinha de McFly e Emmett é outra qualidade do filme, que administra muito bem seus clichês e faz valer cada minuto. Embora tenham bem pouco em comum, os dois se entendem perfeitamente, sobretudo porque o jovem embarca em todas as ideias mirabolantes do cientista, como um bom discípulo que faz reverência ao mestre. O mérito, sem dúvida, também é de Lloyd, que fez desse o seu papel mais emblemático, pelo qual segue lembrado após algumas décadas e simboliza a ciência em seu componente mais artesanal, por assim dizer. Como não acreditar em uma amizade como a deles, tão divertida e que soa sempre sincera? Um detalhe curioso sobre o veículo que serviu à viagem no tempo é que, no projeto original, seria uma geladeira, e não o lendário DeLorean. A ideia acabou descartada porque os produtores temeram que as crianças pudessem tentar escalar o eletrodoméstico em casa ou entrassem nele com a mesma intenção de Emmett. E, cá entre nós, a mudança tornou a viagem muito mais charmosa e coroou um filme que traz um delicioso gosto de nostalgia até mesmo em quem não o teve como parte da sua infância e adolescência.

Nota do CD:
4 out of 5 stars


Nota dos Leitores:

Trailer:
Ficha Técnica:
Gênero: Ficção Científica
Direção: Robert Zemeckis
Roteiro: Robert Zemeckis e Bob Gale
Elenco: Michael J. Fox, Christopher Lloyd, Lea Thompson, Crispin Glover, Thomas F. Wilson, Claudia Wells, Marc McClure, Wendie Jo Sperber, George DiCenzo, Frances Lee McCain, James Tolkan, J.J. Cohen, Casey Siemaszko, Billy Zane, Harry Waters Jr., Donald Fullilove, Lisa Freeman, Cristen Kauffman, Elsa Raven, Will Hare, Ivy Bethune, Jason Marin, Katherine Britton, Jason Hervey, Maia Brewton
Produção: Neil Canton e Bob Gale
Montagem: Harry Keramidas e Arthur Schmidt
Fotografia: Dean Cundey
Distribuição: Universal
Lançamento no Brasil: 1985