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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Resenha de Filme: Dois Dias, Uma Noite


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Coloque-se na situação de Sandra (Marion Cotillard): seu chefe a informou de que há uma condição importante para que ela mantenha seu emprego na fábrica, que é convencer seus colegas a desistir de um bônus prometido por ele a todos. Agora, imagine-se na pele desses colegas, confrontados com o pedido dessa mulher para abrir mão de uma soma que vem ao encontro de boa parte de suas necessidades financeiras. É nesse impasse que Jean-Pierre e Luc Dardenne colocam o espectador de Dois Dias, Uma Noite (Deux Jours, Une Nuit, 2014), mais um sopro de vitalidade na filmografia dos irmãos belgas. O roteiro, também a cargo da dupla, questiona o individualismo reinante nos dias atuais e o contrasta com as fagulhas de solidariedade que se acendem no caminho da protagonista, ilustrando a característica mescla entre dureza e ternura dos diretores.

O título se refere ao tempo que Sandra tem para visitar cada um dos funcionários que votou pelo bônus e convencê-los a mudar de ideia a esse respeito. Inicialmente relutante, por ainda sentir alguns efeitos de um quadro depressivo do qual vinha se tratando até pouco antes do episódio, ela retira forças de onde acreditava não ter e conta com o auxílio do esposo Manu (Fabrizio Rongione,habitué da dupla que só perde em frequência de colaborações para Jérémie Renier), que também segura as pontas no cuidado com os filhos do casal. Está posta a estrutura minimalista do filme que, por vezes, soa repetitiva, mas pela própria natureza da tarefa. A cada vez que chega à casa de um colega, expõe a mesma questão e se expressa de modo parecido. Ela conseguiu, com o apoio de uma amiga, a permissão do chefe para refazer a votação e garantir sua vaga caso a maioria desista do tal bônus.

As opiniões e reações dos colegas se dividem entre compreensivas e arredias. Aqueles que negam voltar atrás em sua decisão pela bonificação têm justificativas na ponta da língua para tal e elas soam sempre legítimas. Ao mesmo tempo, parte o coração ver Sandra tão vulnerável, tão dependente de um ato de bondade alheia, apegando-se ao seu emprego, sabidamente, um signo importante da dignidade alheia na sociedade do trabalho. Em muitas línguas, aliás, os falantes indicam a sua profissão usando o verbo ser, como é o caso do português e do inglês, gerando frases do tipo “Eu sou arquiteto”, ao passo que no italiano, por exemplo, a mesma ideia é transmitida pelo verbo fazer, o que sugere que uma profissão é feita e pode ser algo temporário. Nas línguas em que se usa o verbo ser, é como parte da natureza de uma pessoa fosse sua profissão. Nesse sentido, Dois Dias, Uma Noite também se abre a mais possibilidades de refletir sobre o nosso mundo, repensando até mesmo nossas escolhas vocabulares, não obstante nossas limitações linguísticas.

Avessos ao sentimentalismo barato, os Dardenne preferem conduzir a trama com certa dose de assepsia, mas não o bastante para torná-la gélida, embora possa haver detratores que enxerguem frieza em suas obras. Aqui, não é diferente, e os realizadores ainda são muito felizes em sua primeira parceria com Cotillard, atriz extraordinária que capta belamente os matizes dramáticos de sua personagem, entregando o que pode ser considerada, sem medo de exagero, uma de suas melhores performances desde a visceral transformação física e psicológica para encarnar o papel-título de Piaf – Um Hino ao Amor (Piaf, 2007). A maior armadilha de Sandra era cair na vitimização, mas Cotillard é tarimbada o suficiente para escapar dela, e diz muito mais com os olhos do que com a boca, já que sua agonia por aquela peregrinação de porta em porta é represada e, por isso, acaba mais visível através de suas íris azuis. Nem mesmo a Academia poderia resistir a ela, e lhe tascou uma indicação ao Oscar de melhor atriz, a segunda em um intervalo de 8 anos.

Os Dardenne também não costumam pontuar as trajetórias de seus personagens com trilhas sonoras, e essa escolha pelo silêncio quase ininterrupto ao fundo das ações, costumeiramente, ajuda a produzir o efeito lacerativo de suas obras. O mesmo pode ser verificado em Dois Dias, Uma Noite: há uma rara passagem musicada em que se vê uma expressão de alegria em Sandra, depois de mais uma visita a um colega. O detalhe irônico da cena é que a canção tem uma letra bastante pesada e pessimista, levando Manu a fazer menção de trocar a estação do rádio, mas Sandra diz que ouvir aquilo não lhe fará mal. E, mais uma vez, está tudo em seus olhos, que, a propósito, estão entre os mais expressivos do Cinema, fato atestável em outros trabalhos da atriz, como a Ewa Cybulski de Era Uma Vez em Nova York (The Immigrant, 2013), só para citar um entre tantos exemplos acumulados ao longo dos últimos anos. A essa altura, a plateia já deverá estar ciente de que isso não é Hollywood, e os que estão familiarizados com os diretores podem esperar um epílogo refratário às ideias mais óbvias de triunfo pessoal e felicidade.

Nota do CD:
4 out of 5 stars
Nota dos Leitores:

Trailer:
Ficha Técnica:
Gênero: Drama
Direção: Jean-Pierre e Luc Dardenne
Roteiro: Jean-Pierre e Luc Dardenne
Elenco: Marion Cotillard, Fabrizio Rongione, Catherine Salée, Batiste Sornin, Pili Groyne, Simon Caudry, Lara Persain, Alain Eloy, Myriem Akeddiou, Fabienne Sciascia, Anette Niro, Rania Mellouli, Christelle Delbrouck
Produção: Delphine Tomson, Jean-Pierre e Luc Dardenne
Montagem: Marie-Hélène Dozo
Fotografia: Alain Marcoen
Distribuição: Imovision
Lançamento (Brasil): 05/02/2015

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

RESENHA: Uma Noite de Crime: Anarquia (2014)

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Por Júlio César Carvalho
Em 2013, Uma Noite de Crime (The Purge) chamou a atenção do público por sua premissa ousada que era a seguinte: Nos EUA, em um futuro próximo, o governo decide liberar uma vez por ano 12 horas contínuas de crimes sem a interferência da polícia, bombeiros etc afim de aliviar a tensão do povo americano. Tudo isso em acordo com a população que em troca ficaria boazinha durante 364 dias do ano esperando esse dia de expurgo anual pra liberar a raiva geral sem sofrer as consequências perante a lei. Apesar dessa premissa instigante, o filme decepcionou. Mesmo assim, a Platinun Dunes(Michael Bay) decidiu por uma sequência e aqui está com o subtítulo deAnarquia. Vamos lá e que “Deus abençoe os Pais Fundadores e a América: uma nação renascida“.
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Uma Noite de Crime: Anarquia é novamente escrito e dirigido por James DeMonaco, só que agora decide sabiamente abordar a tal noite de expurgo, e seu reflexo na sociedade, de uma forma mais abrangente estendendo o cenário às ruas. O ano é 2023 e falta pouco mais de duas horas para o toque de recolher. Quando a sirene toca indicando que o expurgo está valendo, o filme começa a mostrar pra que veio. Ou pelo menos ameaça. 
Ao contrário do primeiro onde somos obrigados a ficar trancados junto com uma família chata em sua casa, aqui a gente tem noção do que acontece pelas ruas durante tal período. Pandemônio total! Dessa vez acompanhamos um grupo de desconhecidos, e desarmados, que em meio ao caos encontram sua salvação em um misterioso homem fortemente armado, porém bem intencionado, que ronda as ruas em seu Dodge Charger blindado bancando o justiceiro. Infelizmente os personagens (e atores) não tem carisma algum e nem valem a pena o aprofundamento a respeito.
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Claro que só quem perde com essa lei são os pobres, já que não podem pagar pelos inúmeros serviços oferecidos para proteção. Já a indústria de armamentos pira! Tem gente se oferendo “no precinho” como guarda-costas a cada esquina da cidade. A violência é retratada de forma crua e em certos momentos impressiona traduzindo bem o quão absurdo essa tal medida governamental é. Tem mascarado por todo lado, gente comum bancando franco atirador da janela do seu apartamento, fuzilamentos e linchamentos nos becos e até novas abordagens como o escroto comércio de vítimas pobres para o divertimento de famílias doentias. Tem momentos que lembram muito o controverso jogo GTA(Grand Theft Auto) e é justamente este clima de desordem que diverte nesta sequência. Mas há situações que insultam a inteligência do espectador como quando o grupo se esconde de uma gangue que está tocando o terror a poucos metros dali e de repente, assim do nada, um rato enorme que está passeando de boa na calçada resolve subir pelas pernas da moça que grita chamando a atenção dos mascarados. PORRA! Sério mesmo?
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Infelizmente no terceiro ato, Uma Noite de Crime: Anarquia muda completamente de estilo se assumindo apenas como um “filme de tiro” como outro qualquer. Todo o discurso crítico é deixado de lado e passamos a acompanhar o aspirante a Frank Castle e sua trupe se metendo em altas confusões tentando sobreviver na base da bala. É nítido que essa sequência consegue se mostrar mais interessante que o longa anterior em todos os sentidos, mas acaba literalmente atirando pra todos os lados perdendo assim o foco discursivo proposto pela ideia central.
 
No fim das contas, tudo caminha para um final forçadamente esperançoso que não se encaixa com o contexto antes apresentado, se equiparando assim de forma negativa ao seu antecessor. Mais uma vez a ótima premissa é mal aproveitada. Aí fica aquela dúvida: Será que James DeMonaco é só mais um cagão mesmo ou simplesmente é vítima da bundice da indústria cinematográfica americana? De qualquer forma, o terceiro filme vem em 2015 e nos resta apenas aguardar pra ver o que vai acontecer.
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VEREDITO: Apesar dos pesares, é melhor que o primeiro.