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sexta-feira, 11 de novembro de 2016

[Resenha/Crítica]: O Nascimento de Uma Nação (The Birth of a Nation,2016)

onascimento3Um filme que reflete tempos atuais.
Nate Parker (Sem Escalas) é ator, diretor, produtor, escritor e músico. Há 17 anos foi acusado de estupro, juntamente com o roteirista Jean McGianni. Parker foi absolvido do crime, McGianni, não. Os dois alegaram ser vítimas de racismo. A mulher que dizia ser vítima de estupro se suicidou em 2012. Pulamos para 2016. O filme O Nascimento de Uma Nação, de Nate Parker e McGianni, foi incensado no Festival de Sundance e “era” um dos grandes favoritos para a premiação mais famosa do planeta, o Oscar, mas que sofre de “má publicidade” por causa do crime de tempos atrás. A vida pessoal do artista pode influenciar na obra realizada? O filme se torna menor? A arte pode ser desprezada? Os diretores Roman Polanski (O Deus da Carnificina (Carnage)) e Woody Allen (Café Society,Homem Irracional) também passaram por dificuldades na arte de fazer cinema, por causa de suas vidas íntimas. Polanski, em 1977, foi acusado de abuso sexual, assumiu o erro, ficou preso por pouco mais de um mês e até hoje não pode entrar em território norte-americano. Allen, em 1997, se casou com Soon Yi, filha adotiva de sua ex-mulher, Mia Farrow. Após a separação, Mia o acusou de molestar outra filha adotiva. Psicólogos que cuidavam do caso afirmaram que a garota não sofreu qualquer tipo de abuso. Polanski e Allen estão com a carreira cinematográfica cada vez melhor.
onascimento1Nat Turner (1800-1831) foi um escravo que viveu na Virginia, Estados Unidos, e liderou uma rebelião de escravos, causando mortes de negros e brancos. Depois disso os negros sofreram ainda mais, perdendo o direito de votar, estudar e terem armas. As reuniões religiosas ou não só eram permitidas se houvesse pessoas brancas. Nat lutou não só por sua causa, mas por uma desigualdade que nunca deveria ter existido.
O Nascimento de Uma Nação é baseado nos acontecimentos da vida de Nat Turner, em 1831. E, já pelo apelo do grito de liberdade dos excluídos, o filme se torna urgente, imprescindível e obrigatório para todos os que se compadecem ou lutam pela igualdade social, pelo fim do racismo e pela independência para todos. Este é o primeiro filme de Nate Parker que faz as vezes de diretor, produtor, roteirista e protagonista. Nate é a alma total do filme. Nate faz um FILMÃO, com letras maiúsculas. O filme começa com o pequeno Nat, desde pequeno aprendeu a ler, tinha ótima oratória, se tornando um pregador da palavra de Deus. Ele se torna adulto e sua vida se dá trabalhando nos campos de algodão, por mais que tenha a amizade de seus senhores, ele é um escravo. O seu “amigo” e senhor Sam percebe que pode ganhar uns trocados com suas pregações para acalmar os ânimos de escravos que se rebelam com seus patrões. Nada melhor que um negro falar para outro negro que precisam ser fiéis aos seus senhores. Assim, Nat o faz. E cada vez mais percebe o tanto que o seu povo sofre, sendo massacrado e humilhado, não existindo alívio ou resquício de bondade vinda dos brancos. Ali o negro está em estado de sofrimento constante. Nat está com a maior arma que poderia ter – a Bíblia. A fé sempre foi muito respeitada e os negros tinham fé. Se o pregador, com convicção, exaltar o que deve ser feito, assim acontecerá. A religião com o poder da oratória faz de Nat um homem que clama por mudanças e, para isso acontecer, haverá sofrimento e não perdão. A fé move pessoas. O ressentimento ainda mais.
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O Nascimento de Uma Nação não manda recado, ele faz. É um filme que engrena aos poucos. E a ideia é essa. Vem devagarinho até chegar à sua maior catarse. Ele é literal e expositivo. E talvez esses sejam os seus maiores erros e maiores acertos. Para mim tem mais acertos. A violência é sentida e não desvirtuada. O poder da palavra é ouvido e realizado. A crueldade está aos nossos olhos. A violência e a crueldade visual são palpáveis, causando agonia e constrangimento. Agonia por ser tão realista e constrangimento por saber que aquilo é “real” e vivido por muitos, com resquícios que estão inseridos nos tempos atuais. A trilha sonora, com “Negro Spiritual” (canção de inspiração de escravos negros) faz toda a diferença para os sentimentos que já estão à flor da pele. A música, de grande poder, nos transporta para aquela vivência que presenciamos, fazendo-nos cúmplices de um momento que não se apaga. Com certos esquematismos e exageros em sua exposição com final apressado, nada consegue tirar a força que é O Nascimento de Uma Nação. Uma nação obediente que cansou, gritou por liberdade e se faz presente. Nate Parker não pede licença para mostrar o escárnio, e ele vem despido de qualquer glamour.
Sinopse:O filme começa com o pequeno Nat, desde pequeno aprendeu a ler, tinha ótima oratória, se tornando um pregador da palavra de Deus. Ele se torna adulto e sua vida se dá trabalhando nos campos de algodão, por mais que tenha a amizade de seus senhores, ele é um escravo. O seu “amigo” e senhor Sam percebe que pode ganhar uns trocados com suas pregações para acalmar os ânimos de escravos que se rebelam com seus patrões. A religião com o poder da oratória faz de Nat um homem que clama por mudanças e, para isso acontecer, haverá sofrimento e não perdão.

domingo, 25 de outubro de 2015

"O Nascimento de Uma Nação", de D.W. Griffith


O Nascimento de Uma Nação (The Birth of a Nation – 1915)

O cenário é ambientado na Guerra Civil americana. Um tribunal formado por negros, mostrados como um bando de deselegantes e bagunceiros, onde acaba de ser oficializada a lei que permite o casamento entre raças. No mesmo momento, todos os negros, dentro e fora do tribunal, começam a perseguir as mulheres brancas, com a câmera evidenciando o olhar de tarado, os maneirismos de um louco, enquanto os pais tentam proteger as filhas. Mais adiante, um intertítulo debocha do que seria uma “nova aristocracia”, mostrando negros, ou, melhor dizendo, brancos com maquiagem, em trajes nobres, bebendo vinho em volta de uma elegante mesa. E essas são apenas duas cenas extremamente revoltantes, dentre as várias que a trama apresenta. Os membros da Klu Klux Klan são os salvadores da pátria, os heróis que resgatam os desamparados brancos das garras dos desordeiros e loucos negros. O mais importante, porém, é não deixar que esse contexto odioso afaste você desse importante marco histórico cinematográfico. O desconforto é um ótimo sinal, ainda mais quando percebemos que, nos dias de hoje, cem anos depois de sua estreia, o racismo continua existindo e um beijo homossexual na novela causa comoção pública. O cinema ainda irá registrar muita estupidez da raça humana, até que ela verdadeiramente evolua e exercite seu potencial pleno.

Quando o diretor D.W. Griffith escolheu adaptar o livro “The Clansman”, algo que toma praticamente toda a segunda metade do filme, uma narrativa que descaradamente defendia que os membros do clã salvaram o sul do domínio dos negros, negando a eles o direito ao voto, ele abraçou uma absurda causa perdida já em sua época. Ele foi corajoso, isso deve ser salientado, ao conduzir uma adaptação tão fiel àquela asquerosa ideologia. E, muito provavelmente, caso a estrutura fosse convencional, sem os avanços técnicos e de linguagem, nós nunca teríamos ouvido falar de “O Nascimento de Uma Nação”. O curioso é que seria uma tremenda injustiça, já que o projeto é um primor em sua execução, com um ritmo ágil que torna suas três horas de duração, em silêncio, mais instigantes que muitos blockbusters barulhentos modernos. Do choro escondido da personagem de Lillian Gish, ao ver seus irmãos indo para a guerra, passando pela bela composição das grandiosas batalhas em campo aberto, até a sutileza sombria de um pai que se prepara para matar a filha, ao perceber que ela será violentada pela turba que tenta invadir a sua casa, Griffith preenche cada situação com um impressionante senso de detalhe, sendo pioneiro até no uso de simbolismo visual, como na cena de luta entre dois gatos, preto e cinza, que antecede um conflito familiar. Com maestria, ele interligava múltiplos planos de ação, o tempo dramático substituindo o tempo real, a montagem paralela que o próprio havia executado pela primeira vez no curta “The Lonely Villa”, de 1909. O que acontece é que a maioria daqueles que analisam a obra negativamente, ou com pura indiferença, assim eu creio, efetivamente não dedicaram tempo em uma revisão integral.

Em “Django Livre”, Tarantino realizou uma paródia estilo “Looney Tunes” de alguns dos momentos mais degradantes do épico mudo, porém, o cineasta moderno não possui em toda sua pretensão infantilizada, por mais divertidos que seus filmes sejam, o brilhantismo estético que Griffith esbanjava em seus trabalhos.