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sábado, 8 de agosto de 2015

Razzle Dazzle - "Mary Poppins"




Mary Poppins (1964)

Aproveitei que meus afilhados estão passando férias em minha casa para intermediar o primeiro contato deles com alguns filmes essenciais, como “De Volta Para o Futuro” e “E.T. – O Extraterrestre”, com emocionantes resultados. Senti então que havia chegado a hora de apresentar a eles o primeiro musical live action que eu assisti, aos sete anos, praticamente na mesma idade deles: “Mary Poppins”, dirigido por Robert Stevenson.

Eu lembro que, naquela época, sempre chorava muito no trecho onde a Julie Andrews canta a canção favorita de Walt Disney: “Feed the Birds”, alimente os pássaros. Esse trecho específico me provoca lágrimas até hoje: “ainda que não possa vê-lo (os santos, o elemento divino), saiba que ele sorri sempre que alguém demonstra se importar”. Quando penso na trama, analisando os valores que ela me transmitiu, visualizo a nobre senhora sentada na escadaria da igreja, dando de comer aos pássaros. A cena despertou uma linda discussão após a sessão, exatamente como outrora: Crianças, quando estiverem caminhando e virem essas pessoas alimentando os animais de rua, percebam que estão diante do potencial humano que muitos de nós não utilizamos; façam amizade com elas, ajudem-nas se possível; esses abnegados e valorosos seres são o mais próximo de um conceito universal de “Deus” que eu já conheci. E como é lindo perceber a mesma sensibilidade nos meus afilhados, inseridos em uma sociedade tão diferente, que celebra uma completa inversão de valores. A trilha sonora composta pelos irmãos Richard e Robert Sherman é a alma do projeto. “Sister Suffragette”, cantada por Glynis Johns, diverte com seu teor feminista, ironicamente defendido por uma esposa que é totalmente submissa ao marido. “A Spoonful of Sugar”, “Jolly Holiday” e “Supercalifragilisticexpialidocious”, doces e empolgantes temas que sublinham a importância dos valores ensinados por Mary.

Outro momento que suscitou discussão, a maneira como o roteiro trabalhou visualmente a cena do Sr. Banks, vivido por David Tomlinson, sendo despedido de seu emprego no banco. O evento fundamental que antecede a modificação de conduta do personagem. Esse trecho me causava tremendo incômodo naquela época, uma sensação que me fazia, por vezes, avançar o VHS, uma tristeza profunda. E, na realidade, não há melodrama manipulador, como em várias animações da empresa, a violência é mostrada de forma inteligentemente sutil, porém, impactante. Qual a forma que os patrões encontram para humilharem o empregado? Eles danificam os símbolos de seu conforto social, o chapéu, o guarda-chuva, a flor na lapela, em suma, o status profissional que ele considerava mais importante que qualquer coisa em sua vida. E, indo além no simbolismo, perceba como, segundos antes do filho do dono do banco danificar o guarda-chuva, um dos seus colegas deixa claro que, optando por aquilo, ele estava indo longe demais no castigo. O mesmo objeto que Mary Poppins, uma espécie de Palas Atena, utiliza para visitar os seres humanos e, após a missão cumprida, retornar para sua realidade. O guarda-chuva que é conduzido ao sabor imprevisível do vento, o leitmotiv que representa o tempo de atuação da protagonista, com a afirmação de que ela só irá embora quando o vento mudar de direção, além de se mostrar presente também, de forma óbvia, no desfecho, “Let’s Go Fly a Kite”, com as pipas simbolizando a redenção do pai e dos banqueiros.

Um dos aspectos que me encantam nesse filme é o subtexto que se revela em revisões, como a relação entre Mary, impecável Julie Andrews, e Bert, vivido por Dick Van Dike. Quando criança, eu enxergava apenas um casal de namorados, uma amizade muito forte. O que percebi mais tarde, analisando pequenas dicas que o roteiro e as letras de algumas músicas davam, foi que havia algo muito mais profundo em jogo. Vale destacar que é algo presente apenas na adaptação cinematográfica. E, com essa relação em mente, a experiência se tornou muito mais interessante. Bert foi uma das crianças que Mary, que não envelhece, ajudou outrora. É um amor que nasce da intensa gratidão do rapaz. Ele segue sobrevivendo, reconhecendo o valor de sua arte, mas, na mesma medida, consciente de que a adaptação faz parte do jogo ingrato da vida. E, o mais importante, ele mantém o sorriso no rosto, não importa a gravidade do problema que enxerga no horizonte. O status social que o Mr. Banks buscava é a perfeita antítese do que Bert adota em sua rotina, aceitando um emprego como limpador de chaminés. Analisando a força desse confronto ideológico, intensifica a beleza de sequências como a dos limpadores dançando nos telhados. “Step in Time” não é uma tolice divertida, mas, sim, reforça na mente das crianças a importância de nunca se buscar prioritariamente a zona de conforto, correndo atrás de empregos socialmente tidos como mais respeitáveis, apenas buscando maiores remunerações. A satisfação deve nascer de se realizar com empenho aquilo que se ama, aquilo que faz os olhos brilharem.

O resultado da sessão: meus afilhados pedem pra rever o filme todos os dias, já estão até cantarolando as músicas. Missão cumprida.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

"Walt nos Bastidores de Mary Poppins", de John Lee Hancock




Walt nos Bastidores de Mary Poppins (Saving Mr. Banks - 2013)

O grande acerto do filme é o foco dado à batalha de egos entre dois artistas passionais. Ainda que motivada por necessidade financeira, a autora P.L. Travers (Emma Thompson) não está disposta a entregar aqueles personagens tão relacionados ao seu passado, figuras que a redimiram ludicamente em sua vida adulta, dos traumas de sua infância. Walt Disney (Tom Hanks), como um especialista em seu ofício, sabe que poderá realizar uma obra maravilhosa com aquele material, pois vê nele uma metáfora que servirá para pessoas do mundo todo. Enquanto ela exercita a posse de sua criação e reclama até do bigode no rosto do ator que interpretará o pai, o mestre da animação tenta fazê-la entender que Mary Poppins pode salvar crianças do mundo todo, não somente a criança que ela foi um dia. Um tema lindo e que poderia resultar em um produto grandioso. 

É uma pena que os flashbacks, essenciais por estruturarem o leitmotiv da relação entre pai e filha, funcionem tão mal. A analogia que busca revelar as razões psicológicas para o temperamento profundamente amargo da protagonista, outrora uma menina tranquila e feliz, é exposta narrativamente da forma mais preguiçosa e ideologicamente repetitiva. É nesses momentos que a direção do fraco John Lee Hancock se mostra mais deficiente, emoldurando com a perícia de um amador um roteiro (de Kelly Marcel e Sue Smith) maniqueísta, com excesso de diálogos expositivos e inconsistência nas atitudes do pai alcoólatra, vivido por Colin Farrell. O problema é minimizado quando acompanhamos a relação entre a autora, Disney, o roteirista Don DaGradi (Bradley Whitford) e os compositores. Fica claro que se trata de um projeto descaradamente parcial, manipulando os fatos, distorcendo-os, radicalmente em alguns casos, como no desfecho, de forma que favoreça os interessados, sem preocupação em tornar o visionário “patrão” uma doce caricatura, contanto que represente a imagem da empresa. 

O pior pesadelo de qualquer roteirista que trabalha adaptando para o cinema uma obra literária é um autor excessivamente apegado à sua criação. São linguagens totalmente diferentes. E, como ocorre na ótima cena em que Travers senta com o roteirista e os compositores em sua primeira reunião, estranhando até as expressões do cabeçalho, normalmente o autor desconhece completamente a função de uma adaptação e a formatação dessa nova linguagem. Para a total descrença dos homens na mesa, a autora implica com detalhes irrelevantes ainda na primeira linha do roteiro, antes de explodir em desgosto ao escutar a primeira canção tocada ao piano. Na visão de sua autora, “Mary Poppins” não seria de forma alguma um musical ou uma animação. Exatamente os dois elementos responsáveis pelo duradouro charme do filme, que se mantém relevante para públicos de todas as idades, mais de quarenta anos depois de sua estreia. O trabalho literário de Travers, falecida em 1996, só é reconhecido internacionalmente hoje por causa do árduo empenho persuasivo de Walt Disney.