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quarta-feira, 1 de março de 2017

"Capitão Fantástico", de Matt RossCapitão Fantástico



Capitão Fantástico (Captain Fantastic - 2016)

Eu vi o filme no Festival do Rio e considerei um dos três destaques do evento, o único que sobreviveu em minha mente após semanas, o que é sempre um ótimo sinal. Viggo Mortensen é um dos melhores atores de sua geração, “Capitão Fantástico” é mais uma pérola em sua filmografia, prejudicada apenas pela mão pesada do roteirista/diretor Matt Ross, um problema que poderia ser amenizado com uma edição mais severa, o que reforçaria o impacto de algumas reflexões propostas. Viggo interpreta Ben, um pai que decidiu se isolar com seus seis filhos, uma vida idílica na floresta, ensinando a prática da caça e incentivando o hábito da leitura ativa, sempre questionadora, uma existência longe do consumismo e de dogmas religiosos e, por conseguinte, longe da cultura do medo e da culpa, campo fértil para que ele tente transmitir os valores que considera mais importantes, na tentativa de formar seres humanos melhores e mais conscientes de suas responsabilidades.

O processo já se iniciou na escolha dos nomes das crianças, Bodevan, Rellian, Kielyr, Vespyr, Zaja e Nai, verdadeiramente únicos no mundo. Após um evento traumático, a família é forçada a deixar essa zona de conforto e enfrentar a realidade urbana, gatilho que desperta questões existenciais relevantes, especialmente na figura paterna, ainda que falte sutileza na abordagem dessas transformações pessoais. O protecionismo que conduziu um dos filhos à dedicação extrema nos estudos também o tornou socialmente inseguro, o espectador é levado até mesmo a se revoltar com algumas atitudes do pai, mas a interpretação primorosa de Mortensen enriquece as várias camadas de sua construção, salientando que a força motriz de suas ações é genuína e amorosa. Uma cena plena em simbolismo, a família pratica alpinismo, um dos filhos machuca a mão e se desespera, o pai então diz sem levantar o tom de voz: “Mantenha a calma, ninguém vai aparecer para salvar você magicamente ao final”. A rejeição da milagrosa intervenção sobrenatural, o que o pai considera uma indústria do engano.

Os filhos não são poupados de verdades duras, algo que choca o casal de parentes na mesa de jantar. Os filhos do casal, garotos mais velhos, imersos na engrenagem convencional da sociedade, não podem falar palavrão, comparecem à sala de aula e tiram as notas necessárias, porém, ao serem desafiados, acabam se mostrando menos preparados intelectualmente que a menina mais nova de Ben. O aprendizado autodidata os tornou fluentes em seis línguas, inclusive esperanto, os treinos de sobrevivência tornaram seus corpos resistentes. Ao optar por deixar o sistema, a família se tornou uma ameaça, um reflexo distorcido no espelho dos robotizados escravos. Um momento particularmente bonito ocorre quando uma das filhas, já inserida na sociedade, descobre que as ovelhas da cidade desconhecem o perigo, elas não se movem quando prepara seu arco e flecha. Ela desiste da caça por compaixão. Assim como as ovelhas, o povo da cidade, gordo e preguiçoso intelectualmente, está despreparado para situações que exigem reações impulsivas, eles se tornam seres dignos de pena.

O elemento que move a ação é a ausência da mãe, que cometeu suicídio após enfrentar surtos de depressão. Como budista, ela deixou escrito que desejava ser cremada, as cinzas jogadas num vaso sanitário. A família dela desrespeita grosseiramente seu pedido e opta por uma cerimônia católica. Ben e os filhos partem então numa missão para honrar a sua memória. O roteiro aproveita o contexto para inserir uma reflexão profunda disfarçada de alívio cômico. Qual a razão de manter um ritual vazio, reduzindo a despedida de seu ente querido à uma mecânica repetição de textos religiosos sem qualquer relação com a experiência de vida da falecida, que é invariavelmente tratada, ainda que com delicadeza, como mais um número na estatística por um padre que sequer a conheceu? Não seria melhor caminharmos seguros na estrada da lucidez, aceitando sem bengalas a brevidade da vida e aproveitando melhor cada precioso segundo? O desfecho musical, que obviamente não irei revelar, promove uma catarse emocional necessária e altamente compensadora. 

Via: Octavio Caruso, do blog: www.devotudoaocinema.com.br

sábado, 15 de outubro de 2016

Capitão Fantástico

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Capitão Fantástico entrou em minha seleção de filmes para o Festival do Rio 2016, devido ao prêmio ganho por Matt Ross (Silicon Valley), como melhor realizador da seleção paralela de Cannes, Un Certain Regard, que apresentou 18 filmes de 20 países distintos. Não tive decisão mais acertada, sendo este, até o momento, o filme que mais me atraiu e que foi capaz de me deixar de olhos esbulhados e com aquele semblante bobo de felicidade por quase 3 minutos, numa interpretação magnífica da música Sweet Child O’ Mine dos Guns N’ Roses em uma determinada altura, da projeção, que já estava completamente envolvido com os personagens.

>> Essa crítica foi escrita para a cobertura do Festival do Rio 2016 e clicando aqui, você confere mais textos!

A trama apresenta uma família, que vive em uma floresta, nas montanhas de Washington, e seguem uma ideologia opositória à cultura comum adotada pela sociedade. Ben, o pai e oCapitão Fantástico da história, cuja a esposa doente está hospitalizada a cerca de três meses, cria seus filhos com um estilo de vida diferente, sem tecnologias, ensinando os caçar para sobreviver, com treinamentos diários e exercícios, que lhes tornem mais fortes, e, principalmente, com ideais que atacam diretamente o capitalismo social. Toda essa opção de vida é muito bem estruturada com rotinas de estudos, leituras, debates em família e datas festivas próprias, não há espaço para o Natal, por exemplo. O problema que tudo é posto a prova, quando Ben toma ciência do suicídio cometido por sua esposa e decidiu, em família, rumar para seu enterro, saindo com os filhos do ambiente em que sempre viveram e e se deparando com situações aos quais não estavam acostumados a lidar.

Capitão Fantástico é um filme original, peculiar e é muito fácil acompanhá-lo. O tempo de projeção voa e termina com um gostinho de quero mais. Todos os personagens possuem importância e todos são extremamente carismáticos. É muito divertido perceber o seus jeitos diferentes de enxergar o mundo e, principalmente, de se conectar a eles. Impossível não dar risada, mas é importante entender o que está sendo mostrado, pois no fundo de cada situação apresentada há um teor crítico, relacionando diretamente a forma de pensar, de cada um, e como isto termina por moldar as crenças e atitudes da pessoas. Todos os atores estão excelente, inclusive os mais novos, com destaque para Viggo Mortensen (A EstradaUm Método Perigoso), que entrega uma performance maravilhosa e cheia de carisma, ao ponto de fazer com que achemos natural tudo o que ele se propõe a fazer. Atuação digna de prêmios.

Capitão Fantástico possui uma fotografia, com lindíssimas paisagens naturais, que se destaca junto a uma direção de arte que tem o cuidado de valorizar cada cena, criando ambientes impressionantes dentro da floresta, com uma casa muito bem estrutura, engenhocas divertidas e cuidando, com carinho, da transposição do mundo verde para o mundo metropolitano.O figurino, também, é impressionante e marcante, além de remeter muito as obras de Wes Anderson (O Grande Hotel de BudapesteMoonrise Kingdom),  valoriza as cores, que são muito divesificado e, quando aplicadas, nos trajes coloridos ao extremo, reforçam a rebeldia social proposta pela família. A trilha sonora é muito bonita e a cena que citei nesta introdução é de fazer chorar.

Ao término fica uma mensagem muito importante sobre extremismo e as consequências que isso pode trazer na vida das pessoas. Até que ponto o radicalismo deve ir? Considerei sensacional, principalmente para o momento que estamos passando, pelo qual vivemos na briga da esquerda contra a direita, do nordestino contra o sulista, do homossexual contra o heterossexual e da feminista contra o masculinismo… O mundo seria muito mais tranquilo se houvessem mais “meio termos”… Aliás, deve haver um meio termo para tudo na vida e é isso que Capitão Fantástico ensina, com louvor. Sempre será melhor um acordo, do que uma discussão. Já dizia o velho ditado.


Nota do CD:
4.5 out of 5 stars


Sinopse: Ben é pai de seis crianças e decide deixar a cidade e educá-las nas florestas selvagens do Pacífico Norte, longe da civilização. Elas aprendem a praticar esportes e combater inimigos até que Ben e sua família são obrigados a voltar à vida urbana. Agora é ele quem precisa aprender a se acostumar novamente à vida moderna.

Ficha Técnica:
Gênero: Comédia
Direção: Matt Ross
Roteiro: Matt Ross
Elenco: Ann Dowd, Annalise Basso, Charlie Shotwell, Elijah Stevenson, Erin Moriarty, Frank Langella, Galen Osier, George MacKay, Hannah Horton, Kathryn Hahn, Missi Pyle, Nicholas Hamilton, Rex Young, Samantha Isler, Shree Crooks, Steve Zahn, Teddy Van Ee, Trin Miller, Viggo Mortensen
Produção: Jamie Patricof, Lynette Howell Taylor, Monica Levinson, Shivani Rawat
Fotografia: Stéphane Fontaine
Montador: Joseph Krings
Trilha Sonora: Alex Somers
Duração: 118 min.
Ano: 2016
País: Estados Unidos
Cor: Colorido
Estreia: 08/12/2016 (Brasil)
Distribuidora: Universal
Estúdio: Electric City Entertainment / ShivHans Pictures