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quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Sábio Silêncio


Diário
13 de Janeiro – 1920 – 21:30

A festa parecia não ter fim, assim como o estoque de bebida. O alarido aumentava, a fumaça dos cigarros chegava a dificultar a visão. Tentei atravessar o salão para reencontrar Stan Laurel, mas tropecei nos pés de um rapaz que aparentemente tirava um cochilo no sofá. Inicialmente eu me desculpei pelo descuido, ele se levantou com extrema mesura, tentando me tranquilizar de todas as formas, dizendo que esse meu ato havia sido a primeira “cena de ação” da noite. Eu demorei alguns segundos para reconhecer seu rosto, relaxado e sorridente, mas estava diante de Buster Keaton. Minha mente de jornalista compreendia que, naquele momento no tempo, ele frequentemente sorria nas produções que fazia com o amigo Roscoe “Fatty” Arbuckle, mas meus olhos de cinéfilo custavam a crer que o “homem que não sorria” estava quase chorando de rir com a própria constatação espirituosa. Aquele Keaton ainda era um jovem pouco conhecido na indústria, que ainda não havia protagonizado um filme, o que viria a acontecer com o curta “The Saphead”, que estrearia no final daquele ano. Aproveitei pra convidar o novo amigo a tomar um uísque na sala ao lado, que parecia mais silenciosa. No caminho, liguei o gravador oculto.

- Você não imagina o tédio que sinto nessas festas, todos esses rostos rechonchudos se gabando de suas riquezas, de como seus cavalos correm mais rápido, de como seus negócios são rentáveis, insuportável. – Keaton parecia estar sendo sincero.

- Mas o que está fazendo aqui? É sádico? – Ele gargalhou com minha pergunta, tomou quase todo o uísque do copo e, apoiando a mão em meu ombro, disse:

- Simples, o dono da mansão, o estimado Sr. Douglas Fairbanks está me ajudando a realizar o sonho da minha vida. Mas eu quase o odeio pelo que está me fazendo passar aqui (risos).

- Fale mais desse sonho.

- Claro, ele acredita que eu tenho potencial para carregar sozinho um filme, um longa-metragem! Vai se chamar “The Saphead”, refilmagem cômica de “The Lamb”, que o Dougie fez uns cinco anos atrás. Ele está movimentando os pauzinhos nos bastidores para que nada fique em meu caminho. O mínimo que eu devia fazer era aguentar essa noite, concorda?

Keaton deixava transparecer uma espécie de distúrbio social, mais que timidez, ele realmente não gostava de festas, a multidão o apavorava. O seu projeto mais recente, que havia estreado dias antes, “The Garage”, era mais uma parceria com Arbuckle. A crítica adorou, mas dava pra sentir no rapaz a insatisfação com aquela zona de conforto, ele era um peixe grande em um aquário pequeno. Imaginando que ele não iria ficar feliz com perguntas sobre esse filme, tentei algo em longo prazo.

- Fora “The Saphead”, o que você está planejando realizar para os próximos meses?

- Estou nas nuvens, vou escrever e dirigir “One Week”, total controle criativo, graças à amizade de Dougie com o produtor Joseph Schenck. Também vou filmar “Convict 13” e estou escrevendo algo sobre um casal que vive em casas separadas, a família da namorada não apoia a relação, clássico viés “Romeu e Julieta”, só que medíocre (risos). E você, o que faz nessa casa de loucos?

A pergunta inesperada me fez tomar um gole longo do uísque, tentando pensar em algo convincente e rápido.

- Na realidade, entrei para reclamar do barulho alto e acabei ficando pela bebida.

Keaton gargalhou mais uma vez, terminou sua bebida e apertou minha mão. Ele parecia respeitar todos aqueles que não se levavam muito a sério, o meu senso de humor o agradou em cheio.

- Rapaz, eu digo que você foi a melhor coisa dessa noite terrível. Acho que já marquei presença por tempo suficiente, espero que meus anfitriões não se chateiem, mas vou pra casa. Espero que você sobreviva a essa loucura. – Keaton deu dois passos longos e já estava saindo da sala, quando eu o interrompi.

- Espere um pouco, você nem sabe meu nome, não me apresentei.

Eu realmente tentei espremer aquela situação em busca de mais alguma resposta, essa constatação tola foi o que pude pensar na rapidez do momento. E Keaton respondeu à altura, com graça, mas sem qualquer insinuação de sorriso no rosto:

- Eu prefiro não saber, perde todo o encanto.

E eu perdi a chance única de entrevistar Buster Keaton. Mas pelo pouco contato que tive, percebi que seu temperamento nunca permitiria um papo longo e revelador sobre sua intimidade, sobre seu trabalho. Desliguei o gravador, terminei meu uísque e segui para o salão principal...


quinta-feira, 19 de março de 2015

Sábio Silêncio




Diário
13 de Janeiro – 1920 – 19:30

A minha visão ficou turva por alguns segundos, as imagens se embaralhavam, um forte zumbido atravessava de forma lancinante meus ouvidos, achei que iria desmaiar. Forcei minha mão no estofado do sofá, como que lutando para focar minha atenção no presente que estava vivenciando, evitando que a loucura da situação tomasse conta daquela realidade. Eu estava transpirando muito, Edison gentilmente me perguntou se eu estava me sentindo bem. Tentei sorrir o mais naturalmente possível, antes de pedir licença e ir até a janela. O ar noturno deveria acalmar meus nervos. Ao meu lado, admirando seriamente a paisagem, o homem mais gentil que conheci nessa aventura. Ele se virou para mim, sorriu, e eu gelei.

- Olá, rapaz. – Assustado com minha expressão, ele continuou. – Você está se sentindo bem?

Eu estava a ponto de cometer um terrível equívoco, mas a providência novamente se mostrou vigilante. Naquele momento no tempo, Stan Laurel ainda não havia sequer assistido seu primeiro trabalho com o parceiro Oliver Hardy: “The Lucky Dog”, filmado meses antes de nosso encontro, mas que seria lançado somente no ano seguinte. Ele era apenas um esforçado ator, começando sua carreira, com alguns trabalhos de pouca expressão, dirigidos quase sempre por Hal Roach. E, ainda assim, o projeto não simbolizava o verdadeiro início da química irresistível da dupla, algo que só aconteceria cerca de sete anos depois. Ele estava naquela festa, de certa forma, com a atitude de alguém que busca atrair a atenção de possíveis empregadores, querendo se destacar numa multidão de jovens sonhadores, o que o colocava numa posição similar a minha, facilitando nossa interação. Eu respirei fundo, contendo o desejo de extravasar minha admiração pelo trabalho dele, olhei de volta para os convidados que caminhavam pelo salão, antes de responder.

- Essa é uma visão incrível, concorda?

Stan olhou para o salão, aproximou seu rosto do meu e disse em tom de segredo:

- Você acaba se acostumando. – Voltou então para sua posição, apoiado na janela. – Alguns são mais humanos que outros, como Charlie, que conheci anos atrás na trupe de Fred Karno. A maioria aqui não possui nada por baixo desses brilhantes. – Ele então olhou dentro dos meus olhos. – Eu percebi que você estava quase reverenciando todos aqui, não se engane, você é tão, ou mais valoroso, que qualquer um nesse salão.

Eu fiquei chocado com a ternura dele, a sinceridade em seus olhos, Stan era o tipo de cara que dedicava tempo a aconselhar estranhos, com uma humildade que eu não havia visto igual nem no meu próprio tempo. Não é de causar surpresa sua trajetória de sucesso e o carinho que todos da área sentiam pelo jovem inglês. Stan era grande, antes mesmo de se tornar um astro. Eu percebi que não teria como planejar o rumo do papo, então, pela primeira vez naquela noite, eu realmente aproveitei a festa, como se tivesse encontrado um velho colega de escola. Ele, para minha surpresa, não comentava sobre filmes ou sobre aquele universo. A conversa se estendeu por uma viagem nostálgica à adolescência dele na cidade de North Shields, sobre como ele sentiu a ruptura de ter se mudado, aos quinze anos, para a Escócia. Stan falava com tanta paixão daquela cidade, seus olhos azuis brilhavam com uma empolgação que desarmou qualquer intenção minha de desviar o assunto. Acredito que ele via em mim um reflexo dele, um estrangeiro naquele mundo exótico.

Não pude contabilizar o tempo, mas fomos interrompidos por Charlie. Era notório que Stan nutria profundo carinho por Chaplin, algo que transcendia a admiração profissional, já que ambos se conheceram antes do sucesso. Ele segurava uma taça já quase vazia, quando deu um amigável tapinha no rosto do meu novo amigo.

- A noite está mais longa que o normal, preciso sair um pouco. Querem me acompanhar? – Chaplin estava levemente alterado pelo álcool, mas era um convite irrecusável.

Mary Pickford acenou para mim, enquanto nós atravessávamos o salão em direção à porta de entrada. Stan tomou a frente, já no lado de fora, preocupado com o amigo.

- O que houve? – Stan acendeu um cigarro. – Mildred?

Chaplin suspirou, tentando disfarçar. Senti que minha presença o impedia de realmente tocar no assunto. Stan também sentiu, então mudou o tema.

***

Chaplin estava prestes a se separar de Mildred Harris, após o trágico falecimento do filho do casal, por má formação intestinal, com apenas três dias de vida. Ela era uma jovem de caráter discutível, que havia inicialmente mentido sobre sua gravidez, como forma de segurar a relação e forçar o casamento. Em Abril, ela daria início aos procedimentos de divórcio.