
A Bela e a Fera (Beauty and The Beast - 2017)
Fábulas são fontes de inspiração que vão sendo retrabalhadas ao longo do tempo, “A Bela e a Fera”, escrita por Gabrielle Suzanne Barbot de Villeneuve e publicada em 1740, passou pelas mãos criativas de vários escritores, a história foi sendo moldada, expandida, modificada, mas a essência se manteve. E são eternas exatamente por abordarem temas fundamentais na formação dos alicerces psicológicos do indivíduo. No cinema, duas versões se tornaram inesquecíveis, o maravilhoso clássico em preto e branco dirigido pelo francês Jean Cocteau em 1946 e, adaptada como musical, na animação dos estúdios Disney dirigida por Kirk Wise e Gary Trousdale em 1991.
Os adultos de hoje que viveram aquele momento mágico na infância, cantando a versão brasileira das canções compostas por Alan Menken, Howard Ashman e Tim Rice na escola, a primeira animação a ser indicada para o prêmio de Melhor Filme no Oscar, estão tendo a oportunidade preciosa de compartilhar a experiência emocionante hoje na sala escura com seus filhos pequenos. “A Bela e a Fera”, dirigido por Bill Condon e protagonizado por Emma Watson e Dan Stevens, trata a história com reverência nostálgica, reproduzindo fielmente até os enquadramentos de certas sequências, e, vale ressaltar, com muita ternura. Duas sugestões: Se for levar crianças, prestigie a altíssima competência da equipe de dubladores nacionais e evite o 3D, o recurso prejudica tremendamente a iluminação tão ricamente pensada pelo diretor de fotografia.
Bela (Watson) é uma doce menina que valoriza a literatura, o ato rebelde de buscar cultura em uma época em que a sociedade reduzia a mulher aos afazeres domésticos. Naqueles tomos empoeirados ela viaja para outros mundos, conhece novas possibilidades, compreende que a beleza está na rosa que pede que seu pai (Kevin Kline) traga em todas as suas viagens. Esse gesto aparentemente simples evidencia o traço mais marcante de sua personalidade. As outras damas do local pensam apenas no enfeite que irão utilizar para conquistar a atenção dos bons partidos, maquiagem, vestidos deslumbrantes, elementos artificiais para serem notadas por machistas artificiais, estúpidos como Gaston (Luke Evans), narcisista insensível que toma por capricho a missão de se casar com Bela, a estranha misteriosa que ousa ignorar diariamente seus galanteios.
A simbologia da rosa é importante na trama, as pétalas encantadas que caem dentro do vidro que protege sua pureza do cruel mundo externo, terra de violência, feras, doença e morte. A necessidade de o amor verdadeiro quebrar o encanto antes da queda da última pétala, a resistência poética daqueles que corajosamente enfrentam o embrutecimento da sociedade, cada vez mais interessada no enfeite, desprezando a simplicidade da rosa. Uma atitude preconceituosa do príncipe outrora havia sido a responsável pelo seu castigo. Quem pode amar uma fera? Quem pode olhar nos olhos da dor e sorrir, agradecendo o aprendizado? Tarefa que demanda maturidade, sincera empatia e desapego pelo conceito da vaidade.
Somente Bela, alguém capaz de se apaixonar por letras harmoniosamente unidas no papel, valorizando a inspiração dos escritores, conseguiria enxergar além da imagem, tocando delicadamente o humano gentil por trás da besta, a mãe carinhosa por trás da chaleira (Emma Thompson), o generoso bonachão por trás do relógio (Ian McKellen), o romântico inveterado por trás do candelabro (Ewan McGregor). O retorno à humanidade desses personagens depende da resistência da menina, contra todas as probabilidades, sendo forçada a revisitar memórias tristes, fazendo as pazes com o passado e, num ato de linda generosidade, liberando o angustiado pai da culpa que o atormentava desde o falecimento de sua amada esposa.
A Fera (Stevens) reconhece pela primeira vez o seu antigo reflexo no espelho da vida ao encarar a jovem impetuosa. Ele inicialmente a rejeita, ele já estava se acostumando com sua condição, apreciando a solidão e resignado a eventualmente desaparecer esquecido nas trevas de seu castelo. O relacionamento que se estabelece entre os dois ganha toques ainda mais bonitos nessa nova versão, uma nova canção (“Evermore”) defendida pelo personagem em seu momento mais amargurado agrega camadas de interpretação, a sua tragédia é comum a muitos de nós, a identificação é parte essencial, reconhecer que há beleza até mesmo no amor que não é correspondido, a ausência dela seguirá alimentando sua inspiração. Ele a liberta, com plena consciência das tristes consequências, a esperança vã de seu retorno o manterá são até o último segundo.
Uma história que seguirá se renovando nas próximas gerações, apesar de todo discurso de ódio, fome, medo e catástrofes naturais, um romance que continuará a emocionar pais e filhos no mundo todo, enquanto houver a doce resistência de uma flor que rompe o asfalto.




O diretor volta à boa forma.
A partir do filme A Dama na Água, crítica e público ficaram com dois pés atrás com o diretor. Sua popularidade estava indo embora. E as histórias já não eram um primor de inventividade. Continuou com os filmes Fim dos Tempos, O Último Mestre do Ar e Depois da Terra, que nem pareciam ser filmes seus e não foram sucesso nem de público e nem de crítica. Mas, em 2015, ele voltou a sorrir com um ensaio de um novo sucesso, A Visita, um filme simples, duas crianças e dois idosos, com muito suspense e um novo elemento permeando toda a história, o cinismo. Aqui, o sarcasmo foi o dono do enredo, e funcionou muito bem. Nesta semana, chega aos cinemas do Brasil, Fragmentado, seu mais recente filme e que tem recebido grandes elogios mundo afora. E por que Fragmentado é bom? A resposta é muito simples, porque Shyamalan voltou a pensar como em seus primeiros filmes, uma história simples convergindo para algo maior.
Em Fragmentado temos a história de um homem, Kevin, que está sendo atendido por uma psiquiatra. Ele já revelou 23 personalidades e, ainda, uma outra que pode aparecer a qualquer momento, podendo dominar as outras. Kevin sequestra três garotas e passará a conviver com os seus “eus” interiores, com as garotas e com a psiquiatra. Aí está o enredo, que se mostra simples, mas é cheio de conflitos para todos os lados. Tudo gira em torno de três vertentes, a de Kevin, que já não se reconhece mais e de Casey, uma das garotas sequestradas, que precisa conhecer e entender o que passa pela cabeça de Kevin e da Dr. Fletcher, que estuda suas personalidades. Assim, Fragmentado está em pedaços, como um quebra-cabeça, suas peças precisam ser juntadas para o desenho ficar completo.
Fragmentado, mesmo com pequenos tropeços, bem pequenos, chega para trazer Shyamalan para os holofotes novamente. É um filme que flerta com o sobrenatural e com o suspense, digo flerta porque não é o tempo todo, mas seus momentos finais são bem angustiantes e toca em um tema sempre urgente, o abuso infantil. Shyamalan sempre foi bom diretor e grande inventor de ótimas situações, não poderia se perder em meio a filmes rasos ou bobinhos. Ele é mais. E traz de volta tudo aquilo que conhecemos de suas boas histórias, o cuidado com a iluminação e o som, sempre em função do que é visto, nada desnecessário, e uma precisão perfeita na montagem da história, trazendo o passado linkado ao presente. E o último frame do filme, fazendo ligação com algo inusitado, é uma das maiores surpresas do longa. Eu, que tenho Corpo Fechado como seu melhor filme, gostei bastante de Fragmentado, Shyamalan me deixou em pedaços. Volte sempre!

