terça-feira, 7 de março de 2017

"Máquina Mortífera" e "Máquina Mortífera 2", de Richard Donner


O quarto filme foi decepcionante, exagerando nos elementos cômicos que já haviam prejudicado o terceiro, mas os dois primeiros seguem eficientes em revisão. A explosiva união de Shane Black, Richard Donner, Mel Gibson, Danny Glover e Joe Pesci, o ápice do cinema de ação norte-americano dos anos oitenta. 


Máquina Mortífera (Lethal Weapon - 1987)

O segredo do sucesso do roteiro está na criação de um protagonista à beira de um colapso mental, um homem que perdeu a esposa em um acidente de carro, alguém que lida diariamente com a pulsão suicida, o policial Martin Riggs (Mel Gibson). Ele foi se tornando mais socialmente aceitável nas sequências, mas no original ele está pedindo para ser liquidado por seus oponentes. A ideia do criador dos personagens, o roteirista Shane Black, conduzia Riggs para a morte no desfecho do segundo, porém, por compreensíveis razões financeiras, os produtores se recusaram e o autor se afastou do projeto. É inesquecível a clássica cena em que o policial tenta persuadir um suicida a desistir do ato pulando junto com ele do alto do prédio, o que conduz à sequência mais forte da franquia, uma aula de atuação de Gibson, provando para o colega que ele é realmente capaz de tirar a própria vida, que as suas atitudes radicais não eram uma forma de conseguir pensão da instituição, uma maneira genial do roteiro quebrar as expectativas do público.

A trilha traz Michael Kamen, Eric Clapton e David Sanborn, uma identidade sonora de personalidade, você escuta um riff e a sua memória afetiva já te leva para aquele momento no tempo. Eu vi pela primeira vez aos seis anos, em VHS, na casa de um tio, mas só fui apreciar de verdade na época do lançamento do segundo nas locadoras de vídeo. A estreia do segundo teve ampla cobertura nas revistas SET, Cinemin e Vídeo News, acompanhei com mais consciência cinéfila. O terceiro foi marcante, gravei na exibição do primeiro “Tela Quente” do ano, devo ter visto umas cinco vezes só naquela semana. É curioso constatar que o aspecto humano que move a franquia prevalece sobre a violência, as crianças da década de oitenta se apaixonavam por esses filmes, puras e sensíveis, captando esse coração nas tramas. É, acima de tudo, uma história de amizade, cumplicidade e amor pelo conceito de família. A questão racial nunca é levantada, outro ponto importante, já que o projeto similar: "48 Horas", lançado anos antes, era alicerçado nos estereótipos, Eddie Murphy vivia o criminoso falastrão, o malandro de rua. 

Os heróis do gênero à época simbolizavam o positivismo bélico da era Reagan, corpos esculpidos, máquinas perfeitas de destruição. “Máquina Mortífera” introduzia nesse contexto um louco e um parceiro cinquentão cansado, aposentado, um certinho homem de família, Roger Murtaugh (Danny Glover). O encontro desses dois opostos garantia o charme que até hoje a indústria tenta, sem sucesso, igualar. A essência emocional também era diferente de tudo que estava sendo produzido, a importância da família, representada na subtrama de vingança de Michael Hunsacker (Tom Atkins), após o assassinato da filha, ou no instinto protetor de Murtaugh com sua filha mais velha, mas, especialmente, na relação que se estabelece entre Riggs e Murtaugh, a forma como o veterano o acolhe em seu lar. Outro fator importante que não foi superado nas continuações é a figura do vilão Joshua, a imponência visual de Gary Busey, a briga noturna na chuva iluminada pelo holofote de um helicóptero, cena responsável por apresentar o Jiu-Jitsu brasileiro ao mundo.


Máquina Mortífera 2 (Lethal Weapon 2 - 1989)

Evitando repetir o tema do primeiro, o combate às drogas, o roteiro aposta em diplomatas sul-africanos que utilizavam sua imunidade para cometer crimes, com Riggs e Murtaugh sendo enviados para uma missão aparentemente simples, manter a segurança de Leo Getz (Joe Pesci), um contabilista especializado em lavar dinheiro para a máfia. O personagem se tornaria um alívio cômico irritante no terceiro e no quarto, mas ele está na medida no segundo, hilário! Novamente, o filme não disfarça isso, a trama serve apenas como desculpa elegante para que a relação da dupla se desenvolva em sequências maravilhosas como a estreia da filha de Murtaugh em uma propaganda televisiva de preservativo, ou a impagável bomba no vaso sanitário. O tom do humor é potencializado, o texto, mérito de Jeffrey Boam, nunca esteve tão esperto, ágil, tão bom que parece que foi improvisado no ato da gravação. Patsy Kensit é tão linda, que é perdoável sua pouca habilidade na função e a existência desnecessária de uma subtrama romântica para Riggs, algo que apenas quebra o ritmo da ação, repetindo preguiçosamente a motivação da vingança, forçando a barra ao estabelecer conexão entre os vilões e a morte de sua esposa, e, por conseguinte, conduzindo para a cena mais absurda, a destruição de uma casa de palafitas por um automóvel. A trilha sonora entrega “Cheer Down”, composição de George Harrison, altíssima qualidade que se manteria no filme seguinte, com “It’s Probably Me”, de Sting, Eric Clapton e Michael Kamen. “Máquina Mortífera 2” é diversão genuína, uma das melhores sequências da história do cinema. 

Via: Octavio Caruso, do blog: www.devotudoaocinema.com.br

domingo, 5 de março de 2017

Personal Shopper

Nada é o que parece.
Desde que começou sua carreira cinematográfica, Kristen Stewart (Café Society) vem conquistando, aos poucos, amores e ódios quanto à sua dramaticidade ou ao seu desempenho nas telas. Ela “aparece” de verdade como filha de Jodie Foster, em O Quarto do Pânico, depois fez mais alguns filmes até chegar naquele que lhe faria ser conhecida mundo afora, a saga Crepúsculo. Mas Crepúsculo não era aquela Coca-Cola toda, muito pelo contrário, tanto história quanto desempenho de seus atores eram dos mais fracos que se tem notícia. Pelo menos serviu para catapultar sua carreira, que depois disso vem trabalhando cada vez mais, sendo requisitada por grandes diretores como Woody Allen, Kelly Reichardt, Walter Salles, Richard Glatzer e já estando no segundo filme de Olivier Assayas.
Personal Shopper é o filme mais emblemático da já extensa carreira de Stewart. No filme ela é 100% dona da história. Aqui ela é Maureen, tem o dom mediúnico. É uma garota que cuida das vestimentas das celebridades, escolhendo as roupas que irão usar, vivendo na França. Seu irmão gêmeo, que também era médium, morrera a pouco tempo. Maureen está tentando algum tipo de contato com ele. Os irmãos prometeram manter contato, caso um deles morresse. Maureen ainda mantém certa aproximação com seu namorado e com sua cunhada viúva. O filme tem várias vertentes que sempre desembocam para a pessoa de Maureen, e a vida após a morte é a das mais instigantes. Não que queiram provar sua existência, mas é o tema principal da história. E você pode acreditar no que quiser. Tudo pode ser uma ideia da cabeça de Maureen ou tudo pode ser a própria realidade. Personal Shopper brinca com os estilos cinematográficos, ele não se roga em querer assustar, para logo depois fazer um drama, para mais tarde virar um filme policial, mas com tudo isso, em sua essência, ele é um terror psicológico bem elaborado, mesmo vacilando em alguns pontos, como as mensagens instantâneas via celular, Personal Shopper te instiga em todas suas cenas, do início ao fim, e isso só um bom diretor, com um bom roteiro e uma boa atriz, conseguem fazer. Ele quer te fazer perguntas, sem deixar muitas respostas. Por isso ele vai crescendo até quando acaba sua história, pois continuamos a pensar naquilo que acabamos de presenciar.
Personal Shopper tem na direção Olivier Assayas (Depois de Maio), dando uma segunda chance para Kristen Stewart, que está em ascensão em Hollywood, ela  cresce em seus papéis e em personalidade cinematográfica, fazendo de blockbuster aos seus opostos, passando por todos os estilos visuais, isso está fazendo um bem demais para ela. Seu voo será alto e dos melhores, na indústria do entretenimento. E Personal Shopper é filme de terror como você nunca viu, com Kristen Stewart, silenciosa ou não, com grande presença em cena e será daqueles filmes parecido com Animais Noturnos, uns vão amar, outros vão odiar fortemente, mas o mais importante é que ele não ficará incólume a nenhum coração que queira um pouco de calor. E sobre a morte, sempre terá grandes questões. O meu coração esquentou.
Nota do CD:
★★★½☆
Sinopse:Maureen é personal shopper, ela cuida das roupas que as celebridades irão vestir. Ela tem o dom da mediunidade e seu irmão gêmeo morrera a pouco tempo. Maureen está tentando algum tipo de contato com ele.
Trailer do Filme:
 Ficha Técnica:
Título original: Personal Shopper
Direção: Olivier Assayas
Roteiro: Olivier Assayas
Produção: Charles Gillibert
Fotografia: Yorick Le Saux
Edição: Marion Monnier
Música: Nicolas Cantin, Nicolas Moreau, Olivier Goinard
Figurino: Jürgen Doering
Gênero: Suspense
País: França
Ano: 2016
COR
Duração: 105 minutos
Classificação: a verificar
Elenco: Kristen Stewart, Lars Eidinger, Sigrid Bouaziz, Anders Danielsen Lie, Nora von Waldstätten, Benjamin Biolay

sábado, 4 de março de 2017

"John Wick - Um Novo Dia Para Morrer", de Chad Stahelski


John Wick - Um Novo Dia Para Morrer (John Wick: Chapter 2 - 2017)

É um toque de gênio iniciar com uma exibição acrobática de Buster Keaton sendo projetada no prédio. O cinema independente “cabeça”, as obras umbilicais dramáticas, o equivocado conceito de “filme de arte” defendido por cinéfilos pseudointelectuais e críticos tolos, essas produções só existem graças ao lucro obtido com as fitas de gênero. O cinema se formou com as estripulias perigosas pioneiras de Keaton, o balé cômico de Chaplin, Harold Lloyd se pendurando no ponteiro do relógio, Stan Laurel e Oliver Hardy se equilibrando no alto de um edifício em construção e Douglas Fairbanks saltando como uma raposa em “A Marca do Zorro”. O cinema não existiria hoje sem a contribuição dos filmes de ação. A homenagem proposta é, acima de tudo, um ousado resgate para um público-alvo formado em sua maioria por adolescentes, o que, por si só, já mereceria aplausos. “John Wick – Um Novo Dia Para Matar”, dirigido pelo mesmo Chad Stahelski do original “De Volta ao Jogo”, promove outra bela homenagem no terceiro ato, um tiroteio em uma sala de espelhos, o que remete diretamente ao clássico de Bruce Lee: “Operação Dragão”.

A sequência pré-créditos repete algumas ideias coreográficas do primeiro, intensificando o tom e oferecendo variações embasbacantes, mantendo os enquadramentos na simplicidade, sem trepidações de câmera, fazendo do combate corpo a corpo uma espécie de dança, maneira impecável de estabelecer para o público novo o personagem título, vivido por Keanu Reeves, como a figura imponente que intimida até os marginais mais insanos. O resultado é inferior ao “De Volta ao Jogo”, apesar de contar com um orçamento maior e superar tecnicamente o anterior em todos os aspectos. O problema principal está no roteiro. A longa duração acerta ao explorar com mais detalhes os meandros da organização de assassinos, mas sabota terrivelmente o ritmo ao inserir uma subtrama dispensável defendida por Laurence Fishburne, decisão que parece ter sido pensada apenas como forma de reunir a dupla de “Matrix”. O segundo ato se arrasta, minimizando o impacto dos rompantes de ação. A motivação criada para fazer o personagem atrasar sua aposentadoria é desgastada, o vilão, vivido sem brilho pelo italiano Riccardo Scamarcio, obriga Wick a cumprir uma missão genérica, sem qualquer relação emocional com ele, como forma de honrar sua promessa de sangue. É difícil enxergar relevância na tarefa, o que prejudica a imersão do espectador. Ruby Rose vive uma assassina muda, recurso utilizado pelo roteiro sem muita criatividade, parece ter sido inserido apenas para dar um toque exótico.

Outro problema é que o roteiro falha em trabalhar as consequências físicas e psicológicas dos danos sofridos nos conflitos, o filme se torna um videogame de tiro em primeira pessoa, Wick é quase invulnerável. No primeiro, apesar dele passar pelas situações mais absurdas, o roteiro se preocupava em evidenciar o desgaste que ele sentia a cada oponente vencido. O submundo da organização é expandido consideravelmente, com o roteiro de Derek Kolstad aceitando o risco de forçar a barra na suspensão da descrença, especialmente na sequência que finaliza a trama, uma opção que abre as portas para a possibilidade de uma franquia, porém, consequência natural, banaliza o impacto do primeiro filme e reduz o protagonista a um genérico tipo etiquetado para o consumo rápido nas bilheterias. Não me surpreenderei se, em alguns anos, estiver vendo John Wick sendo enviado para uma missão espacial, perseguido por caçadores de recompensa marcianos. Torço sinceramente para que o plano do diretor envolva apenas uma trilogia fechada, algo que respeite os fãs e seja coerente ao tom do original.

Via: Octavio Caruso, do blog: www.devotudoaocinema.com.br

sexta-feira, 3 de março de 2017

MIS | Destaques da programação


quinta-feira, 2 de março de 2017

"Moonlight - Sob a Luz do Luar", de Barry Jenkins


Moonlight - Sob a Luz do Luar (Moonlight - 2016)

Acordar sabendo que a sociedade o rejeita de diversas formas, excluído por ser pobre e negro, agredido na escola por ser introvertido, internamente incapaz de compreender sua homossexualidade, obrigado a medir cada gesto, silenciar impulsos, sem poder contar com a estabilidade emocional de uma mãe (Naomie Harris) entregue ao vício em crack, esse é o cotidiano do pequeno Chiron. A sua única figura paterna, um traficante de drogas que o encontra arredio, fugindo do ataque de seus colegas, alguém que enxerga nos olhos da criança a pureza que outrora guiava suas ações, antes do mundo o bestializar. O homem, vivido impecavelmente por Mahershala Ali, tem consciência de que faz parte da engrenagem que está destruindo o garoto, a culpa o humaniza, evitando inteligentemente o estereótipo.

Ambientado na década de oitenta, o primeiro ato do filme, roteirizado e dirigido por Barry Jenkins, adaptado de uma peça inédita de Tarell Alvin McCraney, explora a trepidante formação psicológica do protagonista, a resistência da gentileza natural perante a brutalidade excessiva do sistema em que ele está inserido. “Little” (pequeno), apelido genérico, evidência de sua irrelevância enquanto indivíduo, reflexo do desinteresse do outro em memorizar seu nome. Ao humilhar o filho no auge da dependência química, a câmera subjetiva no ponto de vista do menino nega o som da ofensa, apenas a reação dele importa, a mente não quer aceitar a realidade deprimente, a palavra utilizada só tem poder quando o receptor acusa sua existência. Nesse estágio inicial o leitmotiv é a recusa como estratégia de defesa.

No segundo ato, intitulado “Chiron”, encontramos o protagonista atravessando o difícil período da adolescência, o momento em que todos tentamos firmar o caráter e vencer nossos medos, por conseguinte, ele não é definido mais por um apelido, o rapaz tenta encontrar uma forma de enfrentar os obstáculos sem abandonar totalmente sua essência. Os abusos na escola, local que deveria simbolizar proteção, acabaram se tornando mais intensos, a degradação física e mental da mãe alcança um nível insuportável, o universo conspirava para que ele fosse abatido irreversivelmente, porém, na areia da praia e sob a luz do luar, acompanhado de um amigo, ele reúne coragem para agir, a repressão de anos é finalmente subjugada. Como o interesse da obra não é provocar catarse emocional, o que a reduziria ao molde batido dos romances LGBT, Jenkins filma essa vitória pessoal às costas dos rapazes, ele não intenciona simploriamente rotular sentimentos nem estirar bandeiras. Chiron, encarando pela primeira vez os olhos de sua imagem no espelho, sofre uma terrível traição, uma atitude que quebra seu espírito.

Quando o encontramos novamente no terceiro ato, vários anos depois, ele abraçou a couraça da mentira, esculpiu seu corpo e bloqueou sua mente, um novo homem que sobrevive no submundo do crime, “Black”, um personagem fictício nomeado a partir de um apelido dado na infância pelo seu antigo amigo. A sociedade bateu tão forte que acabou vencendo, ele já nem acusa a dor dos golpes, o silêncio alcança sua expressividade mais amargurada. A elegância com que o filme encaminha a história para seu desfecho é impressionante, sempre coerente no tom, salientando poeticamente o foco narrativo na difícil reconstrução psicológica do protagonista, vivido brilhantemente por Alex R. Hibbert (Little), Ashton Sanders (Chiron) e Trevante Rhodes (Black).

“Moonlight: Sob a Luz do Luar” encanta sem apelar para qualquer clichê, mérito raro, creio que será o único filme dentre os indicados ao Oscar desse ano que continuará relevante artisticamente no futuro. 

Via: Octavio Caruso, do blog: www.devotudoaocinema.com.br

quarta-feira, 1 de março de 2017

"Capitão Fantástico", de Matt RossCapitão Fantástico



Capitão Fantástico (Captain Fantastic - 2016)

Eu vi o filme no Festival do Rio e considerei um dos três destaques do evento, o único que sobreviveu em minha mente após semanas, o que é sempre um ótimo sinal. Viggo Mortensen é um dos melhores atores de sua geração, “Capitão Fantástico” é mais uma pérola em sua filmografia, prejudicada apenas pela mão pesada do roteirista/diretor Matt Ross, um problema que poderia ser amenizado com uma edição mais severa, o que reforçaria o impacto de algumas reflexões propostas. Viggo interpreta Ben, um pai que decidiu se isolar com seus seis filhos, uma vida idílica na floresta, ensinando a prática da caça e incentivando o hábito da leitura ativa, sempre questionadora, uma existência longe do consumismo e de dogmas religiosos e, por conseguinte, longe da cultura do medo e da culpa, campo fértil para que ele tente transmitir os valores que considera mais importantes, na tentativa de formar seres humanos melhores e mais conscientes de suas responsabilidades.

O processo já se iniciou na escolha dos nomes das crianças, Bodevan, Rellian, Kielyr, Vespyr, Zaja e Nai, verdadeiramente únicos no mundo. Após um evento traumático, a família é forçada a deixar essa zona de conforto e enfrentar a realidade urbana, gatilho que desperta questões existenciais relevantes, especialmente na figura paterna, ainda que falte sutileza na abordagem dessas transformações pessoais. O protecionismo que conduziu um dos filhos à dedicação extrema nos estudos também o tornou socialmente inseguro, o espectador é levado até mesmo a se revoltar com algumas atitudes do pai, mas a interpretação primorosa de Mortensen enriquece as várias camadas de sua construção, salientando que a força motriz de suas ações é genuína e amorosa. Uma cena plena em simbolismo, a família pratica alpinismo, um dos filhos machuca a mão e se desespera, o pai então diz sem levantar o tom de voz: “Mantenha a calma, ninguém vai aparecer para salvar você magicamente ao final”. A rejeição da milagrosa intervenção sobrenatural, o que o pai considera uma indústria do engano.

Os filhos não são poupados de verdades duras, algo que choca o casal de parentes na mesa de jantar. Os filhos do casal, garotos mais velhos, imersos na engrenagem convencional da sociedade, não podem falar palavrão, comparecem à sala de aula e tiram as notas necessárias, porém, ao serem desafiados, acabam se mostrando menos preparados intelectualmente que a menina mais nova de Ben. O aprendizado autodidata os tornou fluentes em seis línguas, inclusive esperanto, os treinos de sobrevivência tornaram seus corpos resistentes. Ao optar por deixar o sistema, a família se tornou uma ameaça, um reflexo distorcido no espelho dos robotizados escravos. Um momento particularmente bonito ocorre quando uma das filhas, já inserida na sociedade, descobre que as ovelhas da cidade desconhecem o perigo, elas não se movem quando prepara seu arco e flecha. Ela desiste da caça por compaixão. Assim como as ovelhas, o povo da cidade, gordo e preguiçoso intelectualmente, está despreparado para situações que exigem reações impulsivas, eles se tornam seres dignos de pena.

O elemento que move a ação é a ausência da mãe, que cometeu suicídio após enfrentar surtos de depressão. Como budista, ela deixou escrito que desejava ser cremada, as cinzas jogadas num vaso sanitário. A família dela desrespeita grosseiramente seu pedido e opta por uma cerimônia católica. Ben e os filhos partem então numa missão para honrar a sua memória. O roteiro aproveita o contexto para inserir uma reflexão profunda disfarçada de alívio cômico. Qual a razão de manter um ritual vazio, reduzindo a despedida de seu ente querido à uma mecânica repetição de textos religiosos sem qualquer relação com a experiência de vida da falecida, que é invariavelmente tratada, ainda que com delicadeza, como mais um número na estatística por um padre que sequer a conheceu? Não seria melhor caminharmos seguros na estrada da lucidez, aceitando sem bengalas a brevidade da vida e aproveitando melhor cada precioso segundo? O desfecho musical, que obviamente não irei revelar, promove uma catarse emocional necessária e altamente compensadora. 

Via: Octavio Caruso, do blog: www.devotudoaocinema.com.br

Óscares 2017: Vencedores

A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood premiou “Moonlight” como o Melhor Filme do Ano da 89ª edição dos Óscares, depois de se ter instalado a confusão na cerimónia ao ter sido entregue a “La La Land”. Algo bastante inédito, este final da cerimónia, em que por engano Warren Beatty anunciou “La La Land” como o vencedor. Um erro que fica para a história. “Moonlight” venceu ainda nas categorias de Melhor Ator Secundário e Melhor Argumento Adaptado.
O musical “La La Land”, que era o grande favorito com 14 nomeações, foi o filme mais premiado ao receber seis estatuetas douradas (Melhor Realizador, Melhor Atriz, Melhor Direcção Artística, Melhor Fotografia, Melhor Banda Sonora Original e Melhor Canção Original). Damien Chazelle fica na história dos Óscares como o mais jovem realizador (32 anos) a receber o prémio de Melhor Realizador e Emma Stone vence o seu primeiro Óscar, para Melhor Atriz.
“Manchester By the Sea” venceu nas categorias de Melhor Ator (Casey Affleck) e Melhor Argumento Original, “O Herói de Hacksaw Ridge” nas categorias de Melhor Montagem e Melhor Mistura de Som.
Viola Davis venceu o seu primeiro Óscar, de Melhor Atriz Secundária, pelo seu desempenho em “Vedações”. O prémio de Melhor Ator Secundário foi entregue a Mahershala Ali, em “Moonlight”, também o seu primeiro Óscar. É a primeira vez na história dos Óscares que os dois prémios das categorias de atores secundários são conquistados por atores afro-americanos.
O prémio de Melhor Filme Estrangeiro foi dos momentos mais políticos da cerimónia, ao ser atribuído ao filme do Irão “O Vendedor”, de Asghar Farhadi, que não esteve presente na cerimónia em protesto contra o bloqueio à imigração de Donald Trump. Uma representante de Farhadi leu um discurso bastante crítico em relação às políticas de Trump. Sem surpresas, “Zootrópolis”, da Walt Disney, ganhou o Óscar de Melhor Filme de Animação.
A abertura da cerimónia, em comparação com outros anos, foi fraca, mesmo que Justin Timberlake tenha deixado toda a plateia a dançar com a canção nomeada “Can’t Stop The Feeling!”. O anfitrião Jimmy Kimmel não deixou de criticar, e bem, com Donald Trump durante a cerimónia, tendo brincado também com a diversidade racial, Mel Gibson e com a Amazon. Um dos momentos mais divertidos da cerimónia foi a entrada de um grupo de turistas no Dolby Theatre, que pensava que iam ver uma exposição, mas para surpresa deles entraram dentro da própria cerimónia. Sara Bareilles cantou “Both Sides Now” num dos momentos mais emocionantes da cerimónia dos Óscares, o tributo aos que partiram em 2016, no segmento “In Memoriam”.
A 89ª edição dos Óscares foi sobretudo uma cerimónia política, com alguns bons momentos de humor, que ficou marcada por alguns momentos inesperados que ficam na história dos Óscares.
Melhor Filme - Moonlight
Melhor Realizador - Damien Chazelle, por La La Land
Melhor Ator - Casey Affleck, em Manchester by the Sea
Melhor Atriz - Emma Stone, em La La Land
Melhor Ator Secundário - Mahershala Ali, em Moonlight
Melhor Atriz Secundária - Viola Davis, em Fences
Melhor Argumento Original - Manchester By the Sea
Melhor Argumento Adaptado - Moonlight
Melhor Filme de Animação - Zootopia
Melhor Filme Estrangeiro - The Salesman (Irão)
Melhor Documentário - OJ: Made in America
Melhor Direcção Artística - La La Land
Melhor Fotografia - La La Land
Melhor Guarda-Roupa - Fantastic Beasts and Where to Find Them
Melhor Montagem - Hacksaw Ridge
Melhor Maquilhagem e Cabelo - Suicide Squad
Melhor Banda Sonora Original - Justin Hurwitz, por La La Land
Melhor Canção Original - “City of Stars,” La La Land
Melhor Edição de Som - Arrival
Melhor Mistura de Som - Hacksaw Ridge
Melhores Efeitos Visuais - The Jungle Book
Melhor Curta de Animação - Piper
Melhor Curta Live-Action - Sing
Melhor Curta Documental - The White Helmets