terça-feira, 20 de dezembro de 2016

"Fernão Capelo Gaivota", de Hall Bartlett


Fernão Capelo Gaivota (Jonathan Livingston Seagull - 1973)

O crítico norte-americano Roger Ebert divulgava orgulhoso em seu texto que havia abandonado a sessão aos quarenta minutos de filme, ele odiou a experiência. Mais do que contar pontos contra a obra, creio que essa análise dele fale mais contra seu profissionalismo, já que não é ético avaliar algo visto pela metade. Também não é inteligente apresentar esse filme para uma turma de adolescentes nas primeiras horas da manhã como dever escolar, algo que era bastante comum nas décadas de oitenta e noventa. “Fernão Capelo Gaivota” é um evento único na história do cinema, desafia qualquer tentativa de reduzi-lo a um gênero específico. A fotografia premiada de Jack Couffer e a trilha sonora de Neil Diamond costumam ser os únicos elementos unânimes ressaltados positivamente pelos detratores, mas é injusto avaliar de forma tão preguiçosa o trabalho corajoso do diretor Hall Bartlett.

Ele já havia roteirizado/dirigido diversas produções, como “Zero Hour!” e “The Caretakers”, mas estava tremendamente desanimado com os resultados deles nas bilheterias, a sua confiança profissional havia sido abalada. Tudo mudou quando sua esposa o presenteou com o livro “Fernão Capelo Gaivota”, de Richard Bach. Ao terminar de ler, sem pensar duas vezes, ele decidiu que aquele era o projeto que ele havia nascido para realizar. Consciente de que a proposta não era popular para os dignitários dos estúdios, uma trama protagonizada apenas por gaivotas, marcada por longos momentos contemplativos, ele vendeu quase tudo o que tinha para que aquele sonho se realizasse. E a crítica da época, usualmente afeita a aplaudir os experimentos umbilicais europeus, sequer se interessou em dar uma chance para aquela linguagem nova intensamente surrealista, muito à frente de seu tempo. Hoje em dia, uma bobagem pretensiosa como “A Árvore da Vida”, de Terrence Malick, faz críticos enxergarem a roupa espalhafatosa no rei que está nu, a tendência é elogiar tudo aquilo que se mostra complicado, o discurso excessivamente prolixo que esconde uma compreensão rasa, o aval que busca a aceitação intelectual de seus pares, tão inseguros quanto, deixando morrer à míngua os filmes que não são revestidos pelo verniz arrogante de “arte”.

A parábola proposta por “Fernão Capelo Gaivota” é simples e de apelo universal, a mensagem é transmitida de maneira ainda mais simples, com delicadeza e um apreço admirável pelo silêncio. A gaivota antropomórfica, voz de James Franciscus, inicia com o natural senso de desafio da juventude, acreditando que a sua existência não pode se limitar a uma luta diária por caçar comida no lixo com seu bando. Ela quer voar mais alto e mais rápido que seus pares, quer atravessar o céu noturno como as corujas, quer conhecer terrenos diferentes, em suma, não aceita se restringir por dogmas defendidos pelos anciãos. A gaivota então é banida do grupo, ela é a prova viva de que existe opção para uma existência conformista, ela passa a ser a voz de um novo caminho, uma figura messiânica. E, como sempre, vozes dissonantes que libertem o povo da escravidão de pensamento precisam ser caladas. O progresso só pode ser atingido ao se vencer o medo de se correr riscos, não há evolução sem mudanças. Por mais triste que seja a sequência que mostra o primeiro voo solitário da gaivota, já banida, ao som da bela “Lonely Looking Sky”, é possível enxergar a beleza da vitória pessoal de alguém que encara o abismo desconhecido e segue em frente. 

O objetivo do terceiro ato, focado em uma jornada mística com contornos budistas, é evidenciar que a razão da luta não é apenas superar obstáculos, mas também servir de exemplo para que outros se inspirem a tomar a mesma atitude. O aprendizado que não é compartilhado não tem relevância alguma, a vida só se torna importante quando o indivíduo constata que a imortalidade tangível reside na formação de um legado valoroso. 

STEVEN SPIELBERG - 10 FILMES ESSENCIAIS


Talvez o meu diretor mais querido durante minha juventude. Steven conseguiu transformar blockbusters em clássicos. Até início dos anos 2000, pode-se dizer que ele tem apenas dois trabalhos questionáveis: 1941 e Hook , sendo que este último, muita gente curte.

Seu ápice de reconhecimento foi no Oscar, que por ironia, venceu por um filme cujo personagem título se chama Oskar.

Nos últimos anos, a situação foi bem diferente. Seus filmes sérios não foram unânimes e seus blockbusters não fizeram sucesso, o que é uma pena. Hoje ele empresta seu nome como produtor para filmes e séries duvidosas, mas nada disto desmerece o que ele é. 
Afinal, quantos diretores tem tantos filmes que povoam o imaginário de todos como ele?

Na lista abaixo constam 10 filmes incríveis do diretor, que servem de homenagem aos 70 anos do eterno Peter Pan do cinema. Boa sessão.

1)A LISTA DE SCHINDLER (1993)

A inusitada história de Oskar Schindler (Liam Neeson), um sujeito oportunista, sedutor, "armador", simpático, comerciante no mercado negro, mas, acima de tudo, um homem que se relacionava muito bem com o regime nazista, tanto que era membro do próprio Partido Nazista (o que não o impediu de ser preso algumas vezes, mas sempre o libertavam rapidamente, em razão dos seus contatos). No entanto, apesar dos seus defeitos, ele amava o ser humano e assim fez o impossível, a ponto de perder a sua fortuna mas conseguir salvar mais de mil judeus dos campos de concentração.


2)JURASSIC PARK - PARQUE DOS DINOSSAUROS (1993)

Um parque construído por um milionário (Richard Attenborough) tem como habitantes dinossauros diversos, extintos a sessenta e cinco milhões de anos. Isto é possível por ter sido encontrado um inseto fossilizado, que tinha sugado sangue destes dinossauros, de onde pôde-se isolar o DNA, o código químico da vida, e, a partir deste ponto, recriá-los em laboratório. Mas, o que parecia ser um sonho se torna um pesadelo, quando a experiência sai do controle de seus criadores.


3)TUBARÃO (1975)

Um terrível ataque a banhistas é o sinal de que a praia da pequena cidade de Amity virou refeitório de um gigantesco tubarão branco, que começa a se alimentar dos turistas. Embora o prefeito queira esconder os fatos da mídia, o xerife local (Roy Scheider) pede ajuda a um ictiologista (Richard Dreyfuss) e a um pescador veterano (Robert Shaw) para caçar o animal. Mas a missão vai ser mais complicada do que eles imaginavam.


4)CONTATOS IMEDIATOS DO TERCEIRO GRAU (1978)

Em uma pequena cidade americana vive Roy Neary (Richard Dreyfuss), um chefe de família que, ao pressentir a chegada de alienígenas, tem o seu comportamento alterado. Ele fica obcecado pela ideia e começa a investigar a situação, buscando o local de contato dos ET's. Como ele, diversas outras pessoas sentem a presença extraterrestre e rumam para o local do pouso da nave.


5)OS CAÇADORES DA ARCA PERDIDA (1981)

Em 1936, o arqueólogo Indiana Jones (Harrison Ford) é contratado para encontrar a Arca da Aliança, que segundo as escrituras bíblicas conteria "Os Dez Mandamentos" que Deus revelou a Moisés no Monte Horeb. Mas como a lenda diz que o exército que a possuir será invencível, Indiana Jones terá um adversário de peso na busca pela arca perdida: o próprio Adolf Hitler.


6)E.T. - O EXTRATERRESTRE (1982)

Um garoto faz amizade com um ser de outro planeta, que ficou sozinho na Terra, protegendo-o de todas as formas para evitar que ele seja capturado e transformado em cobaia. Gradativamente, surge entre os dois uma forte amizade.Foi relançado em 2002 nos cinemas, como parte das comemorações de seus 20 anos de lançamento, em uma nova versão que continha 5 minutos de novas cenas, que ficaram de fora da versão original, além de novos efeitos especiais e uma remasterização digital realizada em todo o filme.


7)A COR PÚRPURA (1985)

Georgia, 1909. Em uma pequena cidade Celie (Whoopi Goldberg), uma jovem com apenas 14 anos que foi violentada pelo pai, se torna mãe de duas crianças. Além de perder a capacidade de procriar, Celie imediatamente é separada dos filhos e da única pessoa no mundo que a ama, sua irmã, e é doada a "Mister" (Danny Glover), que a trata simultaneamente como escrava e companheira. Grande parte da brutalidade de Mister provêm por alimentar uma forte paixão por Shug Avery (Margaret Avery), uma sensual cantora de blues. Celie fica muito solitária e compartilha sua tristeza em cartas (a única forma de manter a sanidade em um mundo onde poucos a ouvem), primeiramente com Deus e depois com a irmã Nettie (Akosua Busia), missionária na África. Mas quando Shug, aliada à forte Sofia (Oprah Winfrey), esposa de Harpo (Willard E. Pugh), filho de Mister, entram na sua vida, Celie revela seu espírito brilhante, ganhando consciência do seu valor e das possibilidades que o mundo lhe oferece.


8)O RESGATE DO SOLDADO RYAN (1998)

Ao desembarcar na Normandia, no dia 6 de junho de 1944, capitão Miller (Tom Hanks) recebe a missão de comandar um grupo do segundo batalhão para o resgate do soldado James Ryan, caçula de quatro irmãos, dentre os quais três morreram em combate. Por ordens do chefe George C. Marshall, eles precisam procurar o soldado e garantir o seu retorno, com vida, para casa.
Todos os atores principais fizeram treinamento de armas, com exceção de Matt Damon, que foi poupado para que os seus colegas utilizassem o ressentimento do set para as cenas dos filme.


9)MUNIQUE (2005)

Em setembro de 1972, em meio às Olimpíadas de Munique, um ataque terrorista sem precedentes foi transmitido ao vivo para 900 milhões de pessoas. Um grupo palestino denominado Setembro Negro invadiu a Vila Olímpica, matou 2 integrantes da equipe olímpica israelense e manteve outros 9 como reféns. 21 horas depois o ataque chegou ao fim, com todos sendo mortos. Pouco depois Avner (Eric Bana), um jovem israelense revoltado com o ocorrido, recebe de um oficial do Mossad uma ordem sem precedentes: abandonar sua esposa grávida e sua identidade para caçar e matar os 11 homens apontados pela inteligência de Israel como tendo planejado o atentado. Avner aceita a ordem e passa a liderar uma equipe de apenas 4 integrantes, extremamente talentosos. Eles passam então a viajar pelo mundo em total sigilo, na pista de cada um dos nomes de uma lista muito bem guardada.


10)O IMPÉRIO DO SOL (1987)

Jim Graham (Christian Bale) é um garoto de 11 anos de uma família inglesa que vive no Oriente. Jim tem um padrão de vida alto, mas de repente é separado de seus pais em virtude da China ser invadida pelo Japão. Isto o força a se defender e o obriga a crescer, tornando-se então um sobrevivente em um campo de concentração com rígidas regras.


segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

"Rogue One - Uma História Star Wars", de Gareth Edwards



Rogue One – Uma História Star Wars (Rogue One – 2016)

Quando J.J. Abrams entregou “O Despertar da Força”, o detrator da trilogia prequel de George Lucas teve que dar o braço a torcer, já que, apesar de tropeços constrangedores, como Jar Jar Binks e o desnecessário conceito dos Midi-chlorians, os roteiros traziam elementos novos, expandiam incrivelmente o cenário político daquele universo, em suma, eles arriscavam. Por mais divertida que seja a aventura de Rey, por mais encantador que seja o BB-8, a trama é uma reutilização preguiçosa de elementos trabalhados no filme original de 1977. “Rogue One”, um spin-off tonalmente antagônico ao que já foi feito na franquia, comete a audácia de correr riscos consideráveis, ousando subverter as expectativas do fã mais xiita, opção corajosa que merece ser salientada. É a prequel que todos esperavam desde meados da década de noventa, abordando objetivamente o contexto que foi estabelecido na trilogia clássica, ainda que sem se escorar na fácil identificação do espectador com seus personagens familiares. O desafio dos roteiristas Tony Gilroy e Chris Weitz era apresentar esse novo grupo, criando situações que auxiliassem o necessário investimento emocional do público no terceiro ato, sem muleta narrativa alguma.

Não há preocupação em aprofundar a caracterização dos rebeldes, algo que faz sentido ao analisar o todo, alguns passam batido, mas todos são carismáticos e visualmente interessantes, especialmente o monge-guerreiro cego vivido por Donnie Yen, espécie de Zatoichi que reforça a presença mística da Força com sua devoção religiosa. A intenção é evidenciar com traços rápidos a formação de uma equipe improvável, personalidades totalmente diferentes e conflitantes, mas com um ideal nobre que os torna iguais, uma missão perigosíssima que, não importando o resultado, não irá trazer paz para suas consciências. A jovem Jyn, vivida por Felicity Jones, traz em sua psique a dor de ter sido afastada do pai (Mads Mikkelsen), cientista brilhante responsável pela criação da Estrela da Morte, a arma definitiva de destruição em massa do Império. Sem um momento cinematograficamente poderoso que a mitifique como heroína, talvez por não ter sido concebida com esse objetivo, a protagonista representa, em síntese, a mensagem mais bonita do filme: ao abraçar a causa rebelde, ela encontra o caminho do perdão e possibilita a concretização da redenção do pai, um leitmotiv fundamental na saga. É interessante que ela lidere um grupo que vai contra os dois lados oficiais na batalha, essa atitude preenche lacunas de sua personalidade no texto.

É, acima de tudo, uma história de guerra, gênero que até agora havia ocupado lugar periférico na franquia, sem peso dramático. Sob a direção de Gareth Edwards, o impacto dos tiros assusta, os stormtroopers transmitem real ameaça, você consegue entender o medo que a presença dos gigantescos AT-AT’s incita nas vítimas (com a ajuda sensorial do design de som), a morte ronda cada trincheira, nada é tratado com leveza, não há espaço para piadinhas enquanto os personagens se esforçam para desviar das rajadas. Não há mágica Jedi à mão, a simples necessidade de mover uma alavanca no campo de batalha se torna uma tarefa hercúlea. O alívio cômico inteligente é defendido pelo robô K-2SO, voz de Alan Tudyk, que me remeteu ao comediante Lenny Bruce, programado para dizer tudo sem filtro moral, invariavelmente ofendendo seus colegas. Na figura de Cassian (Diego Luna), que dedicou sua vida inteira à Aliança Rebelde, enxergamos as consequências, as cicatrizes existenciais decorrentes dessa escolha. Em cenas breves, como quando ele acalma a vítima antes de desferir um tiro fatal, o roteiro delineia uma personalidade torturada, alguém que já ultrapassou todos os limites e sabe que não há vitória capaz de fazer com que ele tenha uma segunda chance na vida. A trilha sonora de Michael Giacchino não traz um tema forte, o que pode ser explicado pelo pouco tempo que ele teve, apenas um mês, substituindo Alexandre Desplat, mas compreende artisticamente e respeita o trabalho de John Williams na trilogia clássica e na prequel, sem cometer o equívoco de reverenciar demais e soar forçado, ele entrega variações criativas de temas como o “Across the Stars”, de “Ataque dos Clones”.

Há um problema grave no segundo ato, o ritmo cai vertiginosamente, provável reflexo das constantes modificações que foram operadas na pós-produção, mas o terceiro ato redime e minimiza o estrago. A alegoria óbvia do Império atacando a lua de Jedha, um terreno fortemente marcado pela doutrina religiosa, com os conflitos reais no Oriente Médio, um subtexto que enriquece a obra, salienta a relevância da fantasia escapista como meio atraente de inspirar os adolescentes, facilita a identificação. Apesar de parecer uma grande brincadeira, a fantasia questiona os pontos mais espinhosos na sociedade, usualmente dizendo mais verdades do que muitos dramas pretensiosamente complexos. O Império deseja impor sua ideia de ordem a povos estrangeiros, utilizando violência quando necessário, mas, assim como os oprimidos, nunca haviam sido mostrados organicamente nas tramas, apenas o bom e velho “bem contra o mal”. O roteiro te faz entender o que estava em jogo em “Uma Nova Esperança”, aquilo que se resumia a uma linha no letreiro inicial, você se emociona com o esforço dos combatentes, tendo visto como eles eram tratados. Os rebeldes não são heróis caricatos, não são action figures reluzentes, são sabotadores sujos e assassinos frios, forjados desde a infância pelo ódio sentido por seus ditadores. O roteiro consegue até mesmo inserir novas camadas de interpretação aos filmes clássicos, sem exagero, “Rogue One”, além de ser uma ótima aventura standalone que satisfaz os fãs sem excluir os não-iniciados, consegue o feito admirável de agregar ainda mais carga emocional aos episódios 4, 5 e 6.

O parágrafo seguinte conterá SPOILERS, eu recomendo que leia o restante após a sessão.

Na indústria de Hollywood os produtores querem vender brinquedos, as refilmagens de ideias já testadas positivamente são a ordem do dia, não há espaço para melancolia em embalagens de McLanche’s felizes. A coragem de construir um produto infanto-juvenil, dentro de uma franquia internacionalmente reverenciada desde a década de setenta, em que todos os heróis morrem no final é impressionante. Nem o robô é poupado. O desfecho de “O Império Contra-Ataca”, em comparação, pode ser considerado até simpático. O grupo liderado por Jyn aceita a missão com a plena consciência de que não terá um final feliz, um esquadrão suicida que intenciona conquistar a única réstia de esperança contra o domínio supremo de seus algozes, um grupo que busca a ínfima possibilidade de um mundo novo e livre que não irão desfrutar. A ideia de terminar o filme exatamente momentos antes da icônica sequência inicial de “Uma Nova Esperança” é simples e genial, a utilização da computação gráfica no rosto de uma dublê para resgatar a jovem Princesa Leia é assustadoramente real. O trabalho digital feito com Tarkin/Peter Cushing é eficiente, mas, devido ao maior tempo de tela, causa um mínimo desconforto na imersão, o que é compreensível. Outra contribuição preciosa à história é a explicação finalmente dada para o ponto fraco da Estrela da Morte, algo estrategicamente incluído pelo pai de Jyn, um recurso que traz ainda mais poesia para a saga. Um detalhe que considero valioso é a inclusão de cenas de arquivo de alguns pilotos de X-Wing do filme original na grandiosa batalha final, um presente para os fãs mais puristas. Mas a cena que resume a importância do projeto é protagonizada pelo personagem mais celebrado, Darth Vader, voz indefectível de James Earl Jones. A chacina que ele promove no corredor da nave rebelde justifica o pavor que a simples menção de seu nome causa nos personagens de “Uma Nova Esperança”. O vilão nunca havia sido mostrado em ação, utilizando todos os seus recursos, com a brutalidade de alguém que sente não ter nada a perder, mais máquina que homem. E tenho certeza que está nos planos do estúdio um filme solo do personagem, algo que seria fantástico.

Blaxploitation - "O Chefão do Gueto", "Coffy", "A Máfia Nunca Perdoa" e "Truck Turner"



O Chefão do Gueto (Black Caesar - 1973)

Tommy Gibbs é um jovem revoltado criado no gueto, que pouco a pouco vai tomando conta dos negócios do submundo do Harlem. Cada dia mais ambicioso e agressivo, ele inevitavelmente se envolve com a máfia e o resultado é uma sangrenta guerra de gangues.

Pra começo de conversa, basta dizer que a trilha sonora desse filmaço foi composta por James Brown, com destaque pras faixas: “Down and Out in New York City” e “The Boss”. Só esse detalhe sonoro já faria a produção ser relevante nos dias de hoje, mas seria um crime não ressaltar também a ousadia técnica de sequências como o embate final entre Gibbs (Fred Williamson) e o policial que o perseguia desde criança, ou a montagem estilizada que mostra a escalada de violência dele como chefão.

A direção/roteiro de Larry Cohen, que faria depois o cult “Nasce Um Monstro”, um especialista em operar milagres com baixíssimo orçamento, garante ao projeto um resultado mais coeso do que se costuma encontrar no ciclo, alicerçado em um roteiro que toca no ponto nevrálgico da questão do racismo nos Estados Unidos da década de cinquenta, período em que a trama inicia, lidando de forma séria com um tema que era normalmente utilizado como recurso quase cômico em filmes similares. Quando Gibbs compra o apartamento do casal branco engomadinho, incluindo o vestuário completo da mulher, apenas para ter o prazer de jogar pela janela os caros casacos de pele, Cohen possibilita o revide daquele que sempre foi pisoteado por alegres escravos do hipócrita status social concedido por esses tolos símbolos de poder. Ele verbaliza claramente que faz questão de usufruir daquele estilo de vida, o que leva outro personagem, numa cena mais adiante, a afirmar que o pecado do chefão foi querer ser como os brancos. Ao despejar o casal, ele tira sua mãe da função de empregada doméstica, ela passa a ser a dona da casa. E, numa demonstração da complexidade da discussão proposta pelo roteiro, ela se recusa a acreditar nessa nova realidade, tão acostumada a servir, a assustada senhora teme sair de sua caverna existencial e ver a luz.

Gosto muito também do desfecho brutal, a forma como o adulto retorna moribundo para seu lar da infância em ruínas, somente para encontrar uma gangue de adolescentes. Pra essa garotada, ele não é um chefão, ele é apenas mais um idiota que deu bobeira na área deles. Gibbs, triste ironia, acaba sendo vítima de jovens tão ambiciosos quanto ele outrora foi. Assim como o romano Julio César, apunhalado por um grupo traiçoeiro, morto pelo próprio reflexo no espelho da vida.


Coffy (1973)

“Coffy baby, sweet as a chocolate bar...”.

A obra foi concebida pela pequena “American International Pictures”, responsável por vários filmes de baixo orçamento, como os projetos de Roger Corman.  Samuel Z. Arkoff, o idealizador da produtora, percebeu o potencial dos “blaxploitation’s” e abraçou a carreira da bela Pam Grier, realizando quatro filmes com a atriz. O público adorava esse estilo, mas os críticos e a própria indústria torciam o nariz.

Quando se analisa o filme no contexto de sua época, dois elementos se destacam como dissonantes no gênero: A mulher sendo respeitada, utilizando sua sensualidade como arma, uma variação feminina de “James Bond”. E as drogas e traficantes não sendo celebrados, numa atitude quase panfletária, politicamente correta. Como a vingativa enfermeira que busca exterminar os responsáveis pela overdose de sua irmã caçula, a personagem de Grier deixa claramente exposto em seus olhos o ódio que esconde por trás de cada gesto de sedução controlada. E essa emoção bruta transparece em cada cena, com o auxílio de ótimas one-liners, como “Vou urinar no seu túmulo amanhã”.

O roteirista e diretor Jack Hill, mestre no estilo, ganha pontos ao não limitar a protagonista aos estereótipos de vítima ou criminosa, deixando-a revelar no poderoso desfecho uma insinuação de fragilidade que a humaniza. A boa trilha sonora de Roy Ayers apresenta os personagens, com destaque para “Coffy is The Color” e “Coffy Baby”, interpretados por Denise Bridgewater. No elenco secundário, Robert DoQui interpreta o extravagante “King George”, que participa ativamente de uma das cenas mais violentas do filme. Ele viria a ser reconhecido pelo grande público como o Sargento Reed, nos três filmes da franquia “Robocop”.

É interessante o arco narrativo da protagonista (e, levando em consideração o gênero, isso deve ser valorizado). “Coffy” passa o primeiro ato assombrada pelo remorso consequencial de sua vingança, chegando a encontrar uma paz temporária com sua consciência, até que assiste o brutal espancamento de seu ex-namorado. Ao final, traída de todas as formas, nem mesmo a resolução satisfatória de sua vingança traz paz ou conforto para sua alma, que irá vagar para sempre num limbo existencial. Ao lado de “Shaft”, esse é o meu filme favorito no gênero.


A Máfia Nunca Perdoa (Across 110th Street - 1972)

O roubo de US$300.000 de um ponto da Máfia no Harlem, por três homens negros vestidos de policiais, desencadeia uma busca frenética em toda a cidade para encontrar os autores.

Com valores de produção que o tornam mais refinado que a maioria dos filmes do gênero, esta obra merece constar ao lado de "Operação França" e "No Calor da Noite" (além da semelhança na temática, sua inspiração também se mostra presente na breve referência ao faroeste "Duelo em Diablo Canyon", que também lida com um conflito étnico, protagonizado também por Sidney Poitier), como um retrato pungente de sua época. Iniciando com a poderosa canção-título (composta e cantada por Bobby Womack), somos levados a sentir que estamos vivenciando, no meio do fogo cruzado, o confronto entre brancos e negros no Harlem. A câmera perscruta cada beco escuro, transpondo com facilidade a crueza necessária em cenas como a da perseguição ao final. 

Não existem heróis e vilões (percebam a atitude redentora de um dos ladrões, próximo ao desfecho), apenas homens falíveis e moralmente corruptíveis. Diferente da maioria dos filmes "Blaxploitation", o roteiro não entrega tipos estereotipados (quase personagens de histórias em quadrinhos), mas sim um olhar mais profundo sobre o racismo, acentuado na interpretação de Anthony Quinn (também produtor executivo) e em sua relação com o personagem de Yaphet Kotto. Subvertendo a animosidade que existia entre os personagens de Rod Steiger e Sidney Poitier (no já citado "No Calor da Noite"), garantindo momentos brilhantes, como quando Kotto pergunta à Quinn: "Quando você me verá como um policial?". O personagem de Quinn está subconscientemente propenso a crer que todos os negros do Harlem são marginais, então não consegue assimilar que seu colega (seu superior) possa ser confiável. Habilmente, Quinn estabelece a ideologia torta de Matelli, durante o primeiro ato, extravasando-a como uma fera enjaulada, disposto a esmurrar qualquer um que se colocar em seu caminho. Ao longo do segundo ato, percebemos que ocorre uma mudança física (consequentemente ideológica), como se ele enfim tivesse acordado para a realidade de que, naquela selva urbana, ele era um leão cansado, cujos métodos ultrapassados não se adequavam. A excelente cena final (que não revelarei) reforça de forma imagética o discurso proposto pelo diretor Barry Shear, mantendo-se na mente de quem assiste por muito tempo após a sessão.


Truck Turner (1974)

Esse filme pode não ser tão discutido quanto “O Chefão do Gueto”, ou “Coffy”, mas é um dos mais divertidos. Isaac Hayes, o músico responsável pelo tema blaxploitation mais famoso: “Shaft”, protagoniza com total segurança, trabalhando a agressividade necessária para o serviço, mas deixando transparecer nos olhos uma vulnerabilidade rara nos heróis do subgênero. Ele é amparado pela competente direção de Jonathan Kaplan (de “Acusados”, que deu o prêmio de Melhor Atriz para Jodie Foster, em 1988), que injeta um refinamento superior ao que costumava ser visto, cenas de ação muito bem coreografadas, especialmente a do tiroteio dentro do hospital, um toque claramente autoral. O texto também contrasta com os similares por ser mais elaborado, o humor é inserido com inteligente noção de timing, contando com a presença marcante da eterna Uhura de “Star Trek”, Nichelle Nichols, em uma rara exibição no cinema de sua incrível versatilidade. Vale destacar também a hilária relação entre Truck Turner e sua namorada cleptomaníaca, um dos poucos romances monogâmicos dentro da história do blaxploitation.


* Os filmes estão sendo lançados em DVD pela distribuidora "Versátil", com a curadoria sempre impecável de Fernando Brito.

O fantástico legado da saudosa revista "Cinemin"


Já escrevi muito sobre a importância das revistas de cinema em minha infância, eu literalmente adorava ficar como uma ilha, sentado no chão, rodeado por todas as "Cinemin", "SET" e "Vídeo News" que faziam parte da coleção do meu pai. Eu viajava naquelas páginas, relia os textos até quase memorizar os parágrafos. Era uma época sem internet, aquele era meu único portal para o universo fascinante do cinema, a grande paixão da minha vida. A saudosa "Cinemin" foi pioneira, o melhor conteúdo já escrito sobre o tema no Brasil até hoje. A revista abordava todos os gêneros e épocas, com o mesmo cuidado e dedicação, com coberturas impressionantemente detalhadas de cerimônias de premiação e festivais, dos mais badalados aos menos conhecidos. Eu ouso dizer que foi a melhor publicação sobre cinema no mundo!

Tenho o orgulho de ter conquistado a amizade e o respeito profissional de alguns críticos que escreveram na revista. E, nessa postagem especial de final de ano, contei com a ajuda de dois deles: Saulo Adami e Sylvio Gonçalves. Eles relembram com muito carinho essa época mágica.


Entrevista com Saulo Adami:

Saulo Adami em ação na "Cinemin".
O - Ao folhear as revistas "Cinemin" das décadas de 1980 e 1990, fico impressionado com a qualidade editorial, a riqueza dos textos, as coberturas de pequenos e grandes festivais, o respeito extremo com os diversos gêneros e, o mais importante, o carinho com a memória cultural, algo que as poucas publicações atuais no tema não consideram interessante mercadologicamente. Triste isso, não? O passado, os grandes nomes que forjaram a indústria, não são valorizados pelos leitores. Como você enxerga essa questão? Como o povo brasileiro involuiu tanto e em tão pouco tempo?

S - Quando comecei a colaborar com a revista “Cinemin” no início da década de 1990, já participava de fãzines brasileiros desde meados da década anterior, contribuindo com artigos breves sobre cinema. Principalmente abordando minha temática favorita, “O Planeta dos Macacos”. A mesma paixão que encontrava estampada nos artigos escritos por meus parceiros de publicação nos fãzines, encontrava nas páginas de “Cinemin”. A produção da revista era profissional, responsabilidade da Editora Brasil-América (EBAL), que tanta falta nos faz hoje.

Quanto a mim, redator e editor de fãzines, a salvação era a máquina de fazer fotocópias, instalada em uma repartição pública de Brusque. O funcionário da repartição muitas vezes cedia uma mesa para que eu pudesse encadernar algumas dúzias de exemplares. O passo seguinte era ir à agência do Correio, pegar uma fila – pequena, pois a cidade também não era tão povoada quanto é hoje – e finalmente encaminhar seus exemplares para vários pontos do Brasil e do exterior, onde tinha contatos e leitores fiéis.

Este ritual proporcionado pela produção artesanal já não existe hoje. Tudo ficou mais automatizado, industrializado e, consequentemente, frio e distante. São raros os fãzines produzidos naquela época que sobreviveram ao passar do tempo. Raros. Por que sobreviveram? Porque são feitos por pessoas apaixonadas por este ofício de ler, pesquisar, editar e difundir histórias, compartilhando com outros iguais.

A revista “Cinemin”, assim como os fãzines que produzíamos nas décadas de 1980 e 1990, não era escrita por profissionais do jornalismo em sua maioria. A revista era produzida por aficionados por cinema e apaixonados pelo fazer cinematográfico. Por fãs das estrelas de todo porte. Embora pareça um discurso antiquado, esta observação é a mais pura verdade porque nas páginas da revista constavam não apenas autores de artigos sobre cinema e suas estrelas, mas pessoas que, além de fãs de uma temática ou personalidade ou colecionadores de tudo o que possamos imaginar, eram pessoas boas de texto.

Copydesk de Saulo Adami.

Seus colaboradores tinham conhecimento da crônica cinematográfica e habilidade como redatores de artigos de fôlego! Alguns colaboradores, é evidente, tinham mais habilidade do que outros, na composição dos textos. Mas, ninguém escrevia mal, nem abreviava, nem fazia piadinhas enquanto tratava de temas sérios e relevantes. Ninguém produzia páginas de fofoca, não perdia tempo produzindo informação inútil. Até porque havia Fernando Albagli, um editor profissional interessado em fazer da revista uma referência nacional, tanto para os fãs quanto para a indústria cinematográfica brasileira.

Quanto a evoluir ou involuir, acredito que seja pertinente a cada um. Hoje, escrevo e coordeno a coleção “TV Estronho” – livros que resgatam a história de séries de televisão de todos os tempos – para a Editora Estronho, de São José dos Pinhais, Paraná. Trabalho com entusiasmo nestes títulos, escrevendo, coordenando e orientando outros autores. A TV Estronho entrou no ar em junho de 2016, com “Perdidos no Espaço” – escrito em parceria com Carlos Gomes – e seus próximos episódios serão “Shazan-Xerife & Cia.”, “Kung Fu” e “O Incrível Hulk”.

Gosto de gostar destas séries, sou grato ao editor Marcelo Amado por me proporcionar este privilégio porque nós fazemos parte de um grupo de pessoas que merece ser estudado com rigor científico: o grupo dos nerds. Não tenho nenhum problema em assumir este rótulo – já que, não tendo nenhum, alguém sempre encontra um para nos imputar. O que me agrada nesta possibilidade de escrever e coordenar a coleção é que estamos produzindo livros com temática inédita no Brasil falando de universos ficcionais que, embora sejam séries lançadas há 30,40 ou 50 anos, estão anos-luz à frente destas bobagens que assistimos hoje na televisão (a cabo ou não) ou no cinema, onde se privilegia o espetáculo visual e o besteirol em detrimento de uma boa história para contar.

O - Qual a importância de se ter uma revista como a "Cinemin" para a cultura nacional?

S - É fundamental. Hoje, qual a revista especializada em cinema que temos circulando no Brasil? O que temos são revistas que vendem algumas ideias, reportam superficialmente o que há em um filme, trazem a programação da TV por assinatura ou se esmeram mais em futilidades do que se dedicam a de fato informar o leitor.

Substituem notícias de bastidores por entrevistas-relâmpago sobre disse-me-disse. Não leio estas publicações. Quem as lê certamente encontra pouca informação – ou quase nada – sobre o cinema nacional, imagine da cultura brasileira.

Porém, ainda há, mesmo nestas publicações sofríveis, alguns redatores que gosto de ler e com os quais, sempre que possível, gosto também de conversar, mesmo via virtual. Aliás, a via virtual sempre ajudou meu trabalho, e certamente teria ajudado a manter a “Cinemin” circulando, caso tivéssemos tido este reforço ou apoio nas décadas de 1980 e 1990. Sim, acredito que a revista poderia ter tido outro futuro.

“Cinemin” dava espaços generosos ao cinema nacional, incluindo algumas capas, reportagens de bastidores e artigos especiais. Recordo com carinho do artigo que escrevi sobre “A ditadura brasileira vai ao cinema”, que rendeu algumas correspondências endereçadas à minha caixa postal. Havia, inclusive, preparado outros textos sobre cinema brasileiro, mas não tive oportunidade de publicar porque a revista saiu de circulação. Mas, de qualquer modo, “Cinemin” cumpriu com honras o seu papel.

Matérias de Saulo Adami na "Cinemin".

O - Qual você considera que é o legado da "Cinemin", do esforço conjunto desses profissionais, para o cinema brasileiro?

S - Quando se fala em cinema, logo nos vêm à mente imagens de uma indústria que não é a nossa, mas a norte-americana. Quando abríamos um exemplar da “Cinemin”, sabíamos que encontraríamos alguma resenha, alguma notícia, alguma referência ao cinema nacional.

Os conteúdos eram produzidos por brasileiros para brasileiros, mesmo que os artigos tratassem de filmes, personagens e temas estrangeiros. A revista cobria a realização dos festivais de cinema de todos os portes, de todas as regiões brasileiras. Defendia a preservação da memória do cinema nacional e se empenhava em dar visibilidade à produção brasileira.

Acredito que a revista não fosse lucrativa para a Editora EBAL, que mesmo assim a manteve circulando enquanto foi possível, às vezes até com prejuízo – em respeito ao leitor. Mas, teve um dia em que foi obrigada a parar.

Fernando Albagli, editor da "Cinemin".

O ponto final foi comunicado pelo editor Albagli, que me mandou uma carta de próprio punho, datada de 5 de julho de 1994: “Por enquanto, infelizmente, “Cinemin” parou de ser publicada. Erro meu – e grave – não ter lhe comunicado antes. Obrigado pelas suas colaborações e pela amizade e carinho”. Ponto final.

Junto com o manuscrito, recebi de volta meus dois artigos não publicados: um sobre a maquiagem no cinema e outro sobre o diretor Franklin J. Schaffner, que haviam passado pela revisão e estavam prontas para ser impressas.

Restaram as lembranças – todas boas! – de um tempo que não volta mais, dos esforços de um conjunto de profissionais que, acima de tudo, amava – alguns já partiram – o que fazia, um amor que ia muito além do simples gosto de assistir filmes. O cinema brasileiro deve se orgulhar da “Cinemin” tanto quanto a revista e seus colaboradores são gratos às pessoas que diariamente escrevem a história do fazer cinematográfico.


Bibliografia de Saulo Adami na "Cinemin":

– “Perdidos no Planeta dos Macacos (Parte 1)”. In: “Cinemin”, nº 60, janeiro de 1990, páginas 27-29.
– “Perdidos no Planeta dos Macacos (Parte 2)”. In: “Cinemin”, nº 61, fevereiro/março de 1990, páginas 32-34.
– “A Aventura Continua”. In: “Cinemin”, nº 62, abril/maio de 1990, páginas 29-31.
– “Jornada nas Estrelas”. In: “Cinemin”, nº 67, dezembro de 1990/janeiro de 1991, páginas 13-17.
– “A Ditadura Brasileira Vai ao Cinema”. In: “Cinemin”, nº 69, março de 1991, páginas 4-6.
– “Maurice Evans”. In: “Cinemin”, nº 69, março de 1991, página 42.
– “Franklin J. Schaffner”. In: “Cinemin”, nº 69, março de 1991, página 42.
– “John Ireland”. In: “Cinemin”, nº 81, janeiro/fevereiro de 1993, página 43.
– “Albert Salmi”. In: “Cinemin”, nº 81, janeiro/fevereiro de 1993, página 43.
– “Charlton Heston”. In: “Cinemin”, nº 84, julho 1993, páginas 37-39.

Matéria de Saulo Adami na "Cinemin".
“Eu preciso ligar pro Albagli!”

Saulo Adami

Eu já não aguentava mais ler a revista “Cinemin” e não encontrar um texto de fôlego sobre meu filme favorito, “O Planeta dos Macacos” (1968), de Franklin J. Schaffner. Havia comprado na banca de jornal da praça Barão de Schneeburg, centro de Brusque, Santa Catarina, uma das últimas edições de 1989, e lido tudo o que me interessava saber – e até o que eu nem queria saber – sobre novidades da Sétima Arte e artigos saudosistas assinados por colaboradores que eu admirava, que eram jornalistas, colecionadores, pesquisadores e invocados como eu!

Quer saber? Eu preciso ligar pro Fernando Albagli! Isso mesmo, vou ligar para o Albalgi e perguntar se a equipe de redação da “Cinemin” tem alguma coisa “contra os meus macacos”! Disquei o número e aguardei. Um toque... dois toques... trê-...


– Editora EBAL, boa tarde!

– Eh... Boa tarde! Meu nome é Adami, estou ligando de Santa Catarina. Gostaria de falar com o editor da revista “Cinemin”: Fernando Albagli.

– Boa tarde, você está falando com ele mesmo. Em que posso ajudá-lo?

Foi um privilégio conversar com o editor da minha revista preferida. Foram uns 15 minutos de conversa, até que finalmente entrei no assunto principal. Foi quando ele soube que eu trabalhava como jornalista e que estava escrevendo um livro sobre os bastidores e segredos de “O Planeta dos Macacos” no cinema e na televisão.

– Por que você mesmo não escreve um artigo sobre a sua série de filmes favorita e envia para nossa avaliação?

Em alguns dias, o artigo estava pronto, revisado, impresso e envelopado com destino ao Rio de Janeiro! Mais alguns dias, veio a confirmação de que o texto fora aprovado para publicação, no início de 1990, em duas partes.

Assim começou minha colaboração com “Cinemin” que, para minha surpresa, remunerava seus colaboradores! De vez em quando, tão logo a edição chegava às bancas, aparecia na minha caixa postal um cheque nominal referente às minhas colaborações. Não era muito, mas era o meu primeiro salário como colaborador de uma revista de circulação nacional – a minha revista favorita!

A empresa era organizada, a comunicação principal era por cartas, pois eu ainda não tinha acesso à Internet. Cada vez que tinha um artigo publicado, recebia meu exemplar pelo Correio. Quando o revisor tinha dúvidas, fazia contato, enviava uma carta pedindo ajustes ou telefonava. Aos poucos, fui me sentindo de fato parte da equipe.

MORRE ZSA ZSA GABOR

Mais uma morte em 2016. Já no apagar das luzes, nos deixa Gabor, aos 99 anos de ataque cardíaco. Inclusive, prestes a fazer 100 anos, como Kirk e Olivia.

No cinema, seus pontos mais altos foram ao lado de John Huston, com quem filmou Moulin Rouge, em 1952, e Orson Welles, em A Marca da Maldade, de 1958. Dentre os fatos escandalosos da biografia de Zsa Zsa Gabor, estão uma condenação a três dias de prisão por agredir um policial em Beverly Hills e outra a 120 horas de trabalho comunitário num abrigo para mulheres.

Em 27 de novembro de 2002, Gabor sofreu um acidente de automóvel em Los Angeles. Depois, em 2005, sofreu uma cirurgia para desobstrução de uma artéria. A 17 de julho de 2010, Zsa Zsa Gabor fraturou a anca e foi sujeita a uma cirurgia reconstrutiva da qual teve alta hospitalar menos de um mês depois, a 11 de agosto. Mas, no dia 13 de agosto, a atriz voltou a ser hospitalizada com hemorragias e dores fortes, sintomas que alegadamente terão surgido como complicações da primeira cirurgia.

Zsa Zsa deu entrada ao hospital no dia 2 de janeiro de 2011, e os médicos que analisaram sua lesão acharam melhor amputar sua perna direita antes que a gangrena aumentasse. No ano anterior, os médicos já haviam anunciado que a perna deveria ser amputada, mas Zsa Zsa Gabor preferiu esperar o término das festas de fim de ano.





sábado, 17 de dezembro de 2016

“Magal e os formigas” chega aos cinemas com a estreia do cantor Sidney Magal como protagonista nas telonas



Estreou na última quinta (15.12) o filme Magal e os formigas, com direção do roteirista Newton Cannito que estreia em direção de longa-metragem de ficção. O filme é uma tradução da famosa fábula A Cigarra e a Formiga, de La Fontaine, contada de forma particular. A obra também é a estreia do cantor Sidney Magal que não só dá o nome ao título como faz o seu primeiro protagonista ao cinema.

Inspirada na experiência de vida do diretor e roteirista, a história de um aposentado que está à beira da depressão e sua família problemática que vive no subúrbio paulistano não é uma simples transposição da realidade para a tela, trata-se de uma fantasia que mescla drama e comédia ao contar uma fábula de superação e reencontro dos valores que seriam a base do sucesso: união familiar e acreditar em si mesmo. “A ideia desse filme surgiu em meu trabalho de terapias familiares, tentando melhorar minha relação com meu pai e aceitá-lo. Ele sempre foi um grande cara, mas mesmo assim eu queria transformar alguns aspectos dele que ainda tinham em mim. Comecei a desenvolver um método terapêutico que se chama “Fabular a Vida”, em que pegamos histórias de vida e percebemos o que têm de comédia e fábula nelas. Então, identifiquei o que me incomodava no meu pai e vi que era o excesso de racionalismo e o pouco espaço para o prazer de viver. Pensei: ele é uma formiga. E aí pensei: quem pode ser a cigarra? Ninguém melhor que o Sidney Magal. Assim surgiu a ideia. Quando Magal aceitou, o filme realmente começou. Ele conta que se identifi- cou, pois vem de uma família de militares e sempre foi considerado a “Cigarra da Família”. Intuitivamente eu acertei”, conta o diretor e roteirista.

Magal e os Formigas traz Sidney Magal interpretando a ele mesmo, mas de uma forma inusitada – apenas João, interpretado por Norival Rizzo, pode vê-lo! João é um ex-metalúrgico que tinha uma ideia revolucionária, mas acabou vivendo uma vida comum por não ir atrás de seu sonho, o que transformou em um homem frustrado. Atrás de uma fórmula para ganhar na Megaloto, João abriu mão de suas relações em família e não sabe como resolver seus problemas. Magal surge e ajuda João enxergar sua vida de forma diferente e isso tem efeitos não apenas sobre ele, mas também em todos ao seu redor.

Produzido por Roberto d’Avila, o longa traz não só uma mensagem de alegria e superação, como abre um leque variado de emoções ao espectador, que irá se divertir e se emocionar com Magal e os Formigas. Além de Sidney Magal e Norival Rizzo, o longa de Newton Cannito tem grandes nomes do cinema e do teatro reunidos para contar essa história: Imara Reis, Mel Lisboa, Nicolas Trevijano, Zécarlos Machado, Márcio Américo e grande elenco.