segunda-feira, 17 de abril de 2017

MIS | Destaques da programação


segunda-feira, 10 de abril de 2017

"Os Picaretas", de Frank Oz



Os Picaretas (Bowfinger - 1999)

Sendo um produtor/diretor de cinema independente, eu me identifico profundamente com a angústia do personagem vivido por Steve Martin, Bobby Bowfinger, um sonhador que cria as próprias oportunidades, utilizando os recursos disponíveis. O roteiro escrito pelo ator é, de fato, por trás de todas as sequências hilárias, uma declaração de amor aos cineastas independentes. “Chubby Rain” (gotas de chuva gordinhas), invasão de alienígenas em gotas de chuva, conceito absurdo pensado por um contador sem experiência na área, que, aos olhos de um desesperado falido, simboliza um oceano de possibilidades criativas. O problema é que o protagonista, o astro internacional Kit Ramsay, não pode saber que está sendo filmado e que fará parte do filme. É quando a trama encontra a solução em uma crítica maravilhosa à cientologia criada pelo escritor L. Ron Hubbard, seita tola defendida no mundo real por nomes como Tom Cruise, John Travolta e Will Smith, uma prova de que dinheiro não aprimora a inteligência do indivíduo. Eddie Murphy, em seu último grande papel cômico, homenageia novamente Jerry Lewis ao abraçar duas personas radicalmente opostas, o arrogante astro de cinema e seu irmão Jiff, tímido, desajeitado e ingênuo. 

Quando o riso é causado ao colocar sapatos femininos nas patas de um cão, artifício encontrado para criar a ilusão que será montada na sala de edição, você pode enxergar uma gag visual simplória, mas, na realidade, a ação sintetiza a mágica do cinema, arte que nasceu de um acidente técnico, evoluiu anos depois com Méliès descobrindo no susto que a edição poderia operar truques, até cair nas mãos dos russos, que revolucionaram a narrativa visual pela montagem. Bowfinger une a gravação anterior da atriz solitária na locação com a cena do cão seguindo o astro que ignora estar sendo filmado, típico material que faria Ed Wood vibrar, basta lembrar o que ele fez com Bela Lugosi em “Plano 9 do Espaço Sideral”, inserindo um sósia escondendo o rosto para não desperdiçar os segundos que já haviam sido gravados antes de seu falecimento. A equipe reunida para essa missão não tem qualquer conhecimento básico sobre o tema, o diretor resgata alguns imigrantes ilegais mexicanos na fronteira, convoca uma jovem (Heather Graham) que está disposta a se deitar com todos os profissionais envolvidos no projeto, uma tragédia anunciada. É picaretagem passional, o sentimento que guiou nomes como Jess Franco e os genéricos de Bruce Lee na década de setenta, força que move atualmente cineastas como Kevin Smith, gente que verdadeiramente ama o que faz e que não se permite ser impedida de trabalhar por qualquer motivo. 

"Os Picaretas" é uma das melhores comédias da década de noventa. Veja, nem que seja apenas pela impagável sequência em que Jiff precisa atravessar correndo a autoestrada, acreditando que os carros são dirigidos por dublês. Ao chegar do outro lado, já traumatizado para o resto da vida, ele precisa escutar Bowfinger pedir mais uma tomada. Tudo pelo amor ao cinema.

quinta-feira, 30 de março de 2017

FÚRIA DOS JUSTOS (1955) - LANÇAMENTO DA CLASSIC LINE


Culpado ou inocente? 

Segregação, discriminação, bullying são algumas das características da vida dos negros nos Estados Unidos nos anos 50. Neste contexto, para analisar a profundidade de "Fúria dos justos - 1955" é preciso entender o que se passava na época. Basicamente, o circo explosivo do filme é armado mais pela etimologia e ideologia que pelo crime em si: um advogado defende um mexicano acusado de assassinar uma moça branca. Neste cenário, somam-se o promotor (comunista) e o juiz do caso, que é negro. Agora imaginem este tema, como estes elementos, em pleno 1955. Um negro sentenciando um branco? Um comunista do lado do Estado? Este é "Fúria dos justos", dirigido por Mark Robson, que era uma pessoa politizado (estudou ciência política e econômica na Universidade da Califórnia além de estudar direito na Universidade Pacific Coast ). Robson, que era Canadense, partiu cedo (64 anos), de infarto durante a pós produção do filme "Pânico no Atlântico Express" que por infeliz coincidência, um dos protagonistas também morreu sem ver o filme pronto: Robert Shaw.

Voltando ao filme. Como esquecer a bombástica cena do enterro, que um determinado cidadão defende a separação das raças, meio que como um Hitler, querendo a purificação  racial. Cidadão que pertencia a nada menos que a Klu Klux Klan. Para se ter uma ideia do momento social, no ano que foi produzido o filme, em 1954,  a Suprema Corte proibiu a segregação em escolas públicas .Em 1955 Rosa Parks, uma mulher negra, se negou a dar seu lugar num ônibus para uma mulher branca e foi presa. Os líderes negros da cidade organizaram um boicote aos ônibus de Montgomery para protestar contra a segregação racial em vigor no transporte. Durante a campanha de um ano e dezesseis dias, coliderada por Martin Luther King (que organizou e liderou marchas a fim de conseguir o direito ao voto, o fim da segregação, o fim das discriminações no trabalho e outros direitos civis básicos), muitas ameaças de morte foram feitas (foi preso e viu sua casa ser atacada inclusive).  O boicote foi encerrado com a decisão da Suprema Corte Americana em tornar ilegal a discriminação racial em transporte público. Mas proibir não é mudar a mentalidade de ninguém (Martin foi assassinado, em 1968, momentos antes de uma marcha!!!).

A tentativa de enforcamento do mexicano, suposto criminoso, é na verdade uma forma de mostrar como pré julgamos as situações, muitas vezes baseadas em religião, orientação sexual e etnia. Até este momento no filme, discursos de ódio tomam conta, sem nunca pensarem na possibilidade do menino ser inocente. Na verdade, o rapaz (pelo menos até 1 hora de filme) é um relés figurante das inflamadas questões que o filme propõe.

Recentemente, uma moça foi espancada e morta (tem o vídeo no you tube) por conta de um pré julgamento que fizeram dela, mostrando que pouca coisa mudou nestes anos.Ela, inclusive, era inocente.

Fúria de justos é um filme imperdível, não só pelo tema, mas por ser um brilhante filme de tribunal. Vale o ingresso (afinal, cinema, pipoca e refri sai mais caro que adquirir o filme).

Ahh...já ia me esquecendo (sem spoiler). O que dizer do final triunfante? Não me refiro, evidentemente ao veredito. Quem viu o filme sabe. Foi um tremendo tapa na cara da sociedade dominante...E o veredito?? Ele é culpado ou inocente? Bom...o filme deixa claro que não tem a menor importância, porque ele claramente era inocente do crime, mas a sociedade o culpou por ser "diferente". 

Fiz uma lista sobre filmes de Macartismo. Confiram as principais produções e mais detalhes da perseguição aos comunistas.
Macartismo no Cinema

Informações Técnicas
Título: A Fúria Dos Justos
Elenco: Arthur Kennedy, Dorothy McGuire, Elisha Cook., Glenn Ford, John Hodiak, John Hoyt, Katy Jurado, Rafael Campos Juano Hernandez, Robert Middleton
Diretor: Mark Robson
País de produção:Estados Unidos
Duração: 109 minutos
Tipo de mídia: DVD
Quantidade de discos: 1
Região: DVD Região 4 - América do Sul e Oceania
Formato de tela: Widescreen
Sistemas de som: 2.0 Dolby Digital
Preto e Branco/Colorido: P & B
Classificação indicativa:  12 anos
Idiomas: Inglês e Português
Legendas: Português
Extras:Trailer, Galeria de Fotos e Cartazes originais.


Dicas de fim de semana. Vá de Metrô!

Boletim Informativo
No último fim de semana de março, as pessoas podem aproveitar o que de melhor a cidade oferece. Algumas sugestões estendem-se pela semana. São muitas atrações em locais de fácil acesso, principalmente para quem for de Metrô.

Bom Divertimento!
MetrôESTAÇÃO SANTUÁRIO NOSSA SENHORA DE FÁTIMA-SUMARÉ
Estação Santuário Nossa Senhora de Fátima-Sumaré

Após passar pelo Centre Pompidou, na França, e por espaços na Inglaterra, Espanha, México e pelo Rio de Janeiro, é a vez do público de São Paulo conhecer a história de dores e amores de Frida Kahlo.

Saiba Mais
MetrôESTAÇÃO TRIANON-MASP
Estação Trianon-Masp

Criada há vinte anos pelos atores Domingos Montagner (1962-2016) e Fernando Sampaio, a Cia. La Mínima dá início a um projeto no Sesi que, além de uma estreia, apresenta seis peças de repertório e uma exposição de fotos.

Saiba Mais
MetrôESTAÇÃO PINHEIROS
Estação Pinheiros

Fundado em 1966 na cidade de Oakland, na Califórnia, o Partido dos Panteras Negras firmou sua luta política pela liberdade e pela igualdade de direitos dos afro-americanos.

Saiba Mais
MetrôESTAÇÃO FARIA LIMA
Estação Faria Lima

Quando John Lennon conheceu Yoko Ono, em 1966, a nipo-americana fazia uma exposição numa galeria em Londres e já era referência da arte conceitual e da performance.

Saiba Mais
MetrôESTAÇÃO LUZ
Estação Luz

Nicolas Vlavianos nasceu na Grécia, em 1929, mas desde 1961 o artista vive e trabalha no Brasil.

Saiba Mais

sexta-feira, 24 de março de 2017

"Os Viúvos Também Sonham", de Frank Capra



Os Viúvos Também Sonham (A Hole in The Head - 1959)

Tony Manetta (Sinatra) é um viúvo dono de um hotel decadente em Miami. Seus problemas são, em grande parte, por culpa dele, pois é um irresponsável que só pensa em mulheres. A única pessoa na vida dele capaz de colocá-lo nos trilhos é Ally (Eddie Hodges), seu filho de apenas 12 anos de idade. Endividado, Tony pede ajuda ao irmão Mario (Edward G. Robinson), que coloca algumas condições: ele deverá desistir do filho Ally ou se casar com uma mulher decente que ele indique. Só assim ele poderá ajeitar a vida e prosperar. É quando surge Eloise Rogers (Eleanor Parker), uma encantadora mulher que poderá mudar os rumos da vida de toda essa família.

Ao contrário dos tipos sonhadores idealistas usuais na filmografia de Frank Capra, como o Jefferson Smith de “A Mulher Faz o Homem”, ou o George Bailey de “A Felicidade Não Se Compra”, Tony Manetta é apenas um tolo iludido, um vagabundo mulherengo que deseja abrir um parque temático sem ideia de como vai conseguir a verba para seu objetivo. Os clássicos personagens defendidos por James Stewart lutavam por uma sociedade melhor e mais justa, mas não há nobreza alguma no viúvo hoteleiro vivido por Frank Sinatra, ele visa apenas o lucro. Esse era o desafio que estimulava o diretor, encontrar o encantamento por trás de uma trama sem heróis, inserir o difícil relacionamento entre pai e filho, com o pequeno demonstrando maturidade emocional e o adulto agindo frequentemente como criança. O mais próximo de um personagem adorável é o irmão mais velho, vivido por Edward G. Robinson, que parece ter prazer em ser desagradável com todos.

O estilo relaxado de Capra nas filmagens, absorvendo a experiência como parte do público, incentivava o elenco a encontrar nuances cômicas novas no texto em cada tomada, olhares, gestos, a recompensa era a risada que eles escutavam atrás da câmera. Uma sequência genial, praticamente teatro filmado, reunindo Thelma Ritter, Sinatra e Robinson no quarto, um jogo de cadeiras com longos diálogos sem corte, evidencia o timing único do diretor em seu penúltimo projeto, após vários anos afastado da função. O terceiro ato investe no melodrama, com a entrada da belíssima Eleanor Parker, uma viúva que pode simbolizar a salvação financeira do protagonista. É quando o roteiro, adaptado da peça de Arnold Schulman, responsável por “Funny Lady”, perde fôlego e conduz para um desfecho irregular, um final feliz que não soa crível, orgânico, mas que não prejudica o todo. Vale destacar que “High Hopes”, composta por Sammy Van Heusen e Sammy Cahn, cantada em uma linda cena por Sinatra e o menino Eddie Hodges, venceu o Oscar de Melhor Canção.






* O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora "Classicline".

Via: Octavio Caruso, do blog: www.devotudoaocinema.com.br