A cena inicial sintetiza uma das propostas do filme, a proposta mais óbvia, a celebração do gênero musical, a importância de se apreciar a beleza de suas convenções. O ato antinatural de contar uma história utilizando o canto e a dança, a reclamação mais comum dentre os detratores de musicais, apenas agrega mais possibilidades criativas. É preciso ter sensibilidade. A sociedade está cada vez mais insensível, impaciente e intolerante, mas a música está sempre presente, de alguma forma, até mesmo no alarme de mensagens do celular. Ao optar por dar o tom da trama mostrando vários motoristas entretidos musicalmente, enquanto aguardam o trânsito fluir, Damien Chazelle evidencia a onipresença melódica que é capaz de nos conduzir para a infância, ou ajuda a relembrar amores perdidos e marca momentos especiais, nos faz rir e chorar, em suma, enverniza a vida com a matéria de que são feitos os sonhos.
O timing de lançamento não poderia ser melhor, vivemos uma completa inversão de valores, a juventude despreza a memória cultural, a lavagem de dinheiro movendo o monopólio na indústria com péssimos estilos musicais, o público preguiçoso aceitando de bom grado ser manipulado pelas estratégias de marketing, aplaudindo a música de sucesso da semana, admirando artistas que sequer valorizam suas próprias carreiras. Sebastian (Ryan Gosling) é um alienígena nesse contexto, um jovem apaixonado por jazz e que se empolga ao falar do passado, alguém que se preocupa com a integridade de sua arte, frustrado por ser obrigado a desperdiçar seu talento entregando “música de elevador” para clientes que ignoram sua presença. Em um mundo medíocre em que a plateia prioriza a filmagem do show, logo, mais preocupada em exibir sua alegria nas redes sociais do que, de fato, aproveitar plenamente a experiência, o rapaz se surpreende positivamente quando alguém numa mesa próxima aplaude ao final de sua apresentação. Mia (Emma Stone) sonha em ser valorizada como atriz, apaixonada pela história do cinema, mas está inserida em uma engrenagem cruel que parece objetivar a destruição do ego dos genuinamente talentosos, para que haja espaço seguro para os pilantras. Os seus testes são frequentemente interrompidos, os responsáveis pela seleção demonstram desinteresse, como se estivessem apenas preenchendo um requisito necessário no jogo, sabendo que os papeis já foram conquistados horizontalmente por rostos bonitos e intelectualmente vazios. O casal simboliza a resistência, os enquadramentos abertos em planos sem cortes nas sequências de dança refletem esse aspecto, resgatando a tradição do gênero na época de ouro, quando Fred Astaire afirmava que a câmera não devia tentar dançar junto com ele. Nos poucos musicais modernos, os cortes rápidos constroem a cena, o dinamismo tolo que visa manter a atenção dos adolescentes idiotizados pelo entretenimento de massa. “La La Land” resgata esse preciosismo dos bons tempos, prestando respeitosa homenagem aos grandes coreógrafos, com referências deliciosas a clássicos como “Cantando na Chuva”, “Sinfonia de Paris”, “Os Guarda-Chuvas do Amor”, “Cinderela em Paris”, “A Roda da Fortuna” e “O Picolino”.
A trilha sonora de Justin Hurwitz garante o refinamento necessário, com destaque para “City of Stars”. “Another Day of Sun” é divertida, mas infelizmente remete à pasteurização irritantemente inofensiva do gênero nas últimas décadas. “A Lovely Night” é outro ponto alto, assim como a intimista “Audition (The Fools Who Dream) ”, emoldurando o emocionante desabrochar artístico de Mia, transformando sua angustiante dor em arte. O encanto da trama simples, ajudado pelo carisma arrebatador do casal, reside no carinho nostálgico com que se dedica a “ensinar” o público moderno a apreciar o gênero musical, assim como Sebastian consegue fazer Mia compreender e apreciar o jazz, Chazelle organiza um fac-símile irresistível e especialmente emocionante para fãs, mas também um mágico despertar sensorial para aquele espectador que sente enjoo ao ver um personagem quebrar a quarta parede cantando as linhas de diálogo.
2017 já vai começar com uma boa dose de nostalgia nos lançamentos nacionais. Trata-se do grande retorno de Renato Aragão aos cinemas em seu 50º longa-metragem. Os Saltimbancos Trapalhões: Rumo a Hollywood ganhou seu primeiro trailer. Assista:
Na trama, a trupe do circo vai precisar enfrentar ainda os golpes do vigarista Satã e do manipulador prefeito Aurélio Gavião, que vão se aproveitar do desespero e da ganância do dono da companhia, Barão Bartholo. O novo filme é baseado e inspirado na peça Os Saltimbancos, de Chico Buarque, Luis Bacalov e Sérgio Bardotti.
O elenco conta com Marcos Frota,Nelson Freitas, Alinne Moraes, Roberto Guilherme, Emílio Dantas, Maria Clara Gueiros, Livian Aragão, Rafael Vitti, Dan Stulbach, além claro, de Renato Aragão e Dedé Santana, os eternos Trapalhões. A direção fica por conta de João Daniel Tikhomiroff.
Os Saltimbancos Trapalhões: Rumo a Hollywood tem estreia agendada para o dia 19 de janeiro de 2017.
Quando um bem-sucedido executivo da publicidade (Will Smith) de Nova York sofre uma grande tragédia ele se isola de tudo. Enquanto seus preocupados amigos tentam desesperadamente se reconectar com ele, o executivo procura respostas do universo escrevendo cartas para o Amor, Tempo e Morte. Mas é somente quando suas ações trazem responsabilidades pessoais inesperadas que ele começa a entender como essas constantes se relacionam com uma história plenamente vivida, e como até a maior das perdas pode revelar momentos de descoberta e de beleza.
Estréia: 26 de janeiro de 2017
Existe uma certa convicção velada entre as distribuidoras de que um filme com temática natalina simplesmente não funciona no mercado brasileiro. Ainda mais se não for direcionado para o público infantil. Então é comum ver ótimos filmes com essa temática serem lançados no começo do ano seguinte, época tradicionalmente morna, ou nem chegar a tocar o cinema. Um exemplo de filme que sofreu desse preconceito éBeleza Oculta, que teria feito muito mais sentido sendo lançado em dezembro do que agora em janeiro.
Beleza Oculta não é exatamente um filme natalino, mas utiliza da atmosfera do fim de ano para apresentar uma releitura pós-moderna do famoso “Conto de Natal”. Em vez de um velho avarento que recebe a visita dos três espíritos do Natal, a história apresenta Howard (Will Smith), um homem que entra em profunda depressão após a morte de sua filha pequena, quando então é visitado por três pessoas que se apresentam como Morte (Helen Mirren), o Tempo (Jacob Latimore) e o Amor (Keira Knightley). O objetivo dessas entidades, assim como no conto original, é mostrar para Howard o valor e a importância da vida, mesmo diante das dificuldades e perdas.
A película, entretanto, vai além da simples releitura do clássico de Charles Dickens e dialoga com as angustias que permeia a existência. As três entidades não foram escolhas ao acaso, sendo apresentados logo no começo do longa pelo próprio Howard, como vetores que dão significado a vida.
Apesar de tematicamente o filme alcançar seus objetivos com louvor, como obra audiovisual, ele apresenta diversos problemas. Talvez de maneira proposital, Beleza Ocultaé dirigido de maneira quase teatral, todos os personagens são caricaturados, sem a profundidade adequada. As atuações também seguem uma linha naturalista fantástica que não deve agradar o grande público. Os personagens de Kate Winslet, Michael Peña e Edward Norton, os amigos que tentam ajudar Howard a se recuperar, não passam de outras alegorias cuja a função é reverberar os discursos das entidades.
Na verdade, é exigido do espectador uma boa dosa de descrença e que aceitei a narrativa um pouco excêntrica. Para aqueles que conseguirem, se identificar com esses personagens é inevitável. A partir de então é possível compreender o real significado da “beleza oculta”que o filme busca alcançar. Apesar de que o termo original, “Beleza Colateral”, faz mais sentido, mostrando que mesmo as perdas mais terríveis podem gerar efeitos grandes momentos de grandeza e beleza.
Dizer muito mais sobre o filme pode estragar as boas surpresas, assim como as interpretações que podem surgir ao longo dos pouco mais de 90 minutos de projeção. E como todo bom filme natalino, de certa forma Beleza Oculta é uma obra terapêutica, muitas vezes falando diretamente com o espectador, mas nunca sendo enfadonho.
Mais uma vez, Clarke (Eliza Taylor) e os 'skaikru' vão enfrentar a iminente destruição na quarta temporada de The 100. Depois de já terem lidado com a ameaça dos Grounders, dos Homens das Montanhas e por fim até de uma Inteligência Artificial, será que um possível apocalipse nuclear é capaz de impedir os improváveis heróis da Arca?
De uma forma ou de outra, estamos prestes a descobrir. A quarta temporada de The 100 estreia na próxima quarta-feira, dia 1º de fevereiro, e podemos apenas torcer para que os nossos personagens favoritos sofram menos neste ano. Em entrevista à Entertainment Weekly, o produtor Jason Rothemberg disse que eventualmente, Clarke seguirá em frente do luto por Lexa (Alycia Debnam-Carey).
Veja abaixo o trailer da quarta temporada. A série é exibida no Brasil pela Warner Channel, e as duas primeiras temporadas estão disponíveis na Netflix.
Cercas é uma peça teatral, escrita por August Wilson, que fez muito sucesso, em 1983, em solos americanos e que em 2010 rendeu a Denzel Washington, que foi responsável por uma nova adaptação, o prêmio Tony, que na comparação seria o Oscar do mundo do teatro. Com tanto sucesso nos palcos, o ator decidiu arriscar-se em seu terceiro projeto por trás das câmeras e apresenta agora uma bela adaptação da obra, que conta com a manutenção da maioria do elenco da peça, mas ganha o incrível reforço de Viola Davis, que mais uma vez prova ser uma dar maiores atrizes de sua geração e que merecidamente irá ganhar o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante deste ano e, caso isso não ocorra, será uma grande injustiça da academia.
A trama se passa em meados dos anos cinquenta, quando o espectador é apresentado a Troy Maxson, um homem de origem humilde, sem escolaridade e com passagem pela prisão, que trabalha duro todos os dias como catador de lixo para sustentar a sua família. Ele carrega consigo frustrações de uma vida dura e o peso de não ter conseguido se tornar um jogador de basebol profissional. Suas experiências lhe tornaram um homem de pulso forte, com decisões firmes e de difícil negociação e assim que ele, de certa forma, rege a rotina de sua casa, lidando com sua esposa Rose Maxson, seus dois filhos e seu irmão, que retornou da guerra com sequelas incuráveis.
Os primeiros quinze minutos de projeção causam uma certa estranheza ao espectador, há todo um excesso verborrágico no processo de apresentação do protagonista e a não mudança de cenário impacta diretamente na recepção da película como um todo. Passado esse tempo, Cercas vai ganhando melhor organização, os excessos são reduzidos, as atuações crescem e consequentemente o filme vai se tornando interessante à medida que vai apresentando suas tramas e aprofundando o relacionamento entre os personagens e o espectador.
Denzel Washington está incrível no seu trabalho, extremamente seguro quanto ao roteiro, esbanjando carisma quando necessário e esbanjando firmeza quando preciso. Cercas é um dos melhores trabalhos da carreira do ator, que será indicado ao Oscar neste ano. Seu personagem consegue ao mesmo tempo cativar e afastar o espectador, seu riso, seu divertimento conquista e sua dureza afasta. É impressionante a competência do ator neste quesito. Seu trabalho de direção também merece ser mencionado, aproveitando com detalhes seu elenco e se preocupando em fazê-los brilhar. Todos os personagens possuem seus momentos e alguma cena de impacto. isso é louvável.
Viola Davis é um monstro, a atriz parece sumida, esquecida durante quase metade do filme, mas em seu ato final dá uma aula de interpretação, mostra a que veio e emociona o público. Um simples olhar ou uma simples escorrida de lágrimas fala mais do que qualquer texto que tenha sito escrito para ela. Há uma reviravolta no filme que proporciona sua ascensão e a partir deste momento o espectador já está tão conectado com a produção, que não consegue mais desviar o olhar. Curioso que no ano passado ela tenha feito um prenunciamento, durante o movimento #Oscarsowhite, pedindo uma oportunidade na carreira e que os negros ganhassem mais oportunidades em Hollywood. Agora ela desponta como favorita unânime para a premiação.
Cercas se destaca essencialmente pela grande entrega de sua dupla de atores, mas é um filme interessante, com bons aspectos técnicos trabalhados como a impecável direção de arte e uma belíssima fotografia. O roteiro apela para a análise da família como um todo, mostrando as complicações para criação dos filhos, as frustrações em relacionamentos passados, as escolhas erradas que se tomam, mas também trata sobre a discriminação social perante os negros e a retrata muito bem na relação entre o pai frustado, que acredita não ter tido a oportunidade de brilhar no mundo esportivo por sua cor, e seu filho que segue os seus passos em busca de se tornar um jogador de futebol americano.
Nota do CD:
Sinopse: Depois de passar a sua vida nutrindo um sonho de infância, se tornar um jogador de beisebol famoso, um homem acaba frustrado ao se ver como catador de lixo. A história é baseada na peça de teatro homonima.
Ficha Técnica:
Gênero: Drama
Direção: Denzel Washington
Roteiro: August Wilson
Elenco: Benjamin Donlow, Cara Clark, Cecily Lewis, Chris McCail, Christopher Mele, Denzel Washington, Dontez James, Joe Fishel, John W. Iwanonkiw, Joshua Tronoski, Jovan Adepo, Kristie Galloway, Mark Falvo, Mykelti Williamson, Russell Hornsby, Saniyya Sidney, Stephen Henderson, Toussaint Raphael Abessolo, Tra’Waan Coles, Viola Davis
Produção: Denzel Washington, Scott Rudin, Todd Black
Fotografia: Charlotte Bruus Christensen
Montador: Hughes Winborne
Ano: 2016
País: Estados Unidos
Cor: Colorido
Estúdio: MACRO / Paramount Pictures / Scott Rudin Productions
As Aventuras Extraordinárias de Mister West no País dos Bolcheviques (Neobychainye priklyucheniya mistera Vesta v strane bolshevikov - 1924)
O cinema faz rir, chorar e, com sorte, pensar. Uma das funções do crítico é explicar como a equipe do filme conseguiu transmitir a emoção para o espectador. Um dos homens responsáveis pela evolução do alicerce mais fascinante, a montagem, dirige essa pérola soviética muda. Lev Kuleshov não costuma ultrapassar a fronteira das faculdades de cinema, a sua obra ainda é bastante desconhecida, um equívoco que está sendo remediado pelo trabalho imprescindível da CPC - UMES Filmes, responsável por levar ao público brasileiro filmes importantes na história do cinema russo. Sem Kuleshov, Eisenstein e Vertov, não haveria cinema. O grande problema da ferramenta outrora, os vazios entre um corte e outro, o teatro filmado, obstáculos para o desenvolvimento de uma linguagem visual que precisava ousar. O “Efeito Kuleshov”, princípio simples e brilhante, a justaposição de tomadas descorrelacionadas causando interpretações radicalmente opostas no público, mudando apenas uma das tomadas. Ao inserir a imagem de um prato de comida entre duas tomadas mostrando o rosto inexpressivo de alguém, o espectador é levado a concluir que o personagem está com fome. Caso a imagem inserida seja a de uma criança feliz, o espectador concluiria que o personagem está se lembrando de sua infância. A montagem tem o poder de manipular a mente do público. E “As Aventuras Extraordinárias de Mister West no País dos Bolcheviques” é um dos experimentos mais interessantes do período.
O roteiro foi escrito pelo poeta Nikolai Aseyev, mas o diretor e seu pupilo Vsevolod Pudovkin trabalharam no material, uma debochada sátira ao modo como o povo russo era visto pelos jornais internacionais e pelo cinema norte-americano. É propaganda socialista, o desfecho força a mão nesse sentido, uma variação do tradicional happy ending ianque, tão ilusória quanto a original, mas a estrutura narrativa não envelheceu, as hilárias apropriações dos maneirismos dos galãs da época, a desconstrução de convenções do faroeste, a reverência aos cortes rápidos das comédias de Mack Sennett, o tipo Harold Lloyd defendido pelo protagonista, símbolo da ingenuidade comercialmente lucrativa, Mister West (Porfiri Podobed), agarrado à sua bandeirola dos Estados Unidos, que teme encontrar os selvagens e cruéis cossacos na sua viagem para a Rússia. Ele convoca como seu guarda-costas um vaqueiro típico das matinês hollywoodianas, vivido pelo diretor Boris Barnet, disparando seu revólver adoidado pelas ruas de Moscou, uma sequência maravilhosa. O interessante é que o roteiro utiliza o preconceito do protagonista como mote para a sua própria desgraça, um grupo de vigaristas faz uso da teatralidade para extorquir todos os seus preciosos dólares, adotando exatamente os tipos amedrontadores que estampavam as propagandas capitalistas. A comédia “Os Russos Estão Chegando! Os Russos Estão Chegando! ”, dirigida por Norman Jewison quarenta e dois anos depois, surpreendeu o mundo pela forma simpática e humana como os russos foram retratados. A estratégia comum de desumanização do “inimigo” é tola, rejeita o diálogo, alimenta a cultura do medo. A ridicularização proposta por Kuleshov também está longe de ser louvável, mas funciona enquanto comédia farsesca.
* O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora "CPC UMES Filmes".