sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

O Centenário de Kirk Douglas


Assim Estava Escrito (The Bad and The Beautiful – 1952)

O roteiro de Charles Schnee, baseado na obra de George Bradshaw, relata a ascensão e queda de um poderoso e tirânico magnata de Hollywood, abordando como eram feitas as produções atrás das câmeras, o funcionamento e a atmosfera no mundo do cinema. Um cenário rico que já foi explorado em grandes filmes, como “O Jogador”, de Robert Altman, e “A Noite Americana”, de François Truffaut. O diretor Vincente Minnelli, antes de iniciar carreira em Hollywood, sentia que os musicais estavam dominados por clichês, e ele passou a maior parte da década de 1930 revitalizando o gênero nos palcos de Nova Iorque. Por isso, quando o lendário produtor Arthur Freed o retirou da Broadway em 1940, ele fez um acordo incomum: Minnelli iria simplesmente observar (sendo remunerado) nos bastidores de uma produção musical por um ano. Caso ele não se convencesse de que havia possibilidade de revitalizar o gênero, ele voltaria para os palcos. O resultado: ele criou nos anos seguintes alguns dos melhores musicais da história do cinema. A experiência que ele obteve durante aquele ano, como observador nos bastidores da indústria, serviu como modelo para o excelente “Assim Estava Escrito”, um estudo antropológico sobre essa fábrica de sonhos. 

O personagem de Kirk Douglas é uma versão do produtor David O. Selznick, um homem intensamente criativo e apaixonado pela Sétima Arte, que inspirava lealdade e ódio, sabendo manipular qualquer pessoa que necessitasse para seus objetivos. Ele é megalomaníaco, tem um senso distorcido de moral e desconhece o conceito de ética profissional, mas sabe como mover a engrenagem do sucesso, ele reconhece a beleza que nasce do atrito artístico. A trama segue os pontos de vista de três desafetos do produtor, uma atriz (Lana Turner), um roteirista (Dick Powell) e um diretor (Barry Sullivan), totalmente desinteressados em ajudar o protagonista em uma crise financeira. A linda fotografia de Robert Surtees, em preto e branco, capta a melancolia da morte daquela velha Hollywood, como em “Crepúsculo dos Deuses”, que também fazia uso da narrativa alicerçada por flashbacks. É interessante como Minnelli encontra nobreza até mesmo nas atitudes mais equivocadas do personagem, quase como se ele enxergasse suas atitudes como um mal necessário para sobreviver na indústria, algo que só é possível ser transmitido com o auxílio de um competente ator. Kirk Douglas compreende as motivações de Jonathan Shields, enriquecendo sua caracterização ao nunca pender para a caricatura odiosa.


O Malabarista (The Juggler - 1953)

Kirk Douglas executa aqui o melhor trabalho de sua carreira, infelizmente em um filme praticamente desconhecido. Um drama minimalista com enfoque psicológico que aborda corajosamente, ainda mais para a época, as perturbações que acompanhavam as vítimas da guerra em seu lento retorno à vida rotineira. Ele vive Hans, um judeu sobrevivente de um campo de concentração que tenta recomeçar em Israel. Perceba a intensidade de emoções que ele deixa transparecer em seus olhos e sua extrema competência nas cenas em que atua como palhaço e titereiro. Foi o primeiro filme americano a ser rodado em Israel, mas o roteiro acerta ao manter-se centrado no drama do protagonista, ao invés de, como era usual, transformar-se em um cartão postal de suas locações. Uma produção dirigida com sensibilidade por Edward Dmytryk, com o padrão de excelência e consciência social do produtor Stanley Kramer. O roteiro de Michael Blankfort, adaptando seu próprio livro, consegue extrair tensão do silêncio, evidenciando as cicatrizes existenciais que dificultam a reinserção do protagonista na sociedade. 

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Ao lado de Beto Brant, Camila Pitanga estreia como diretora para contar a história do pai, Antônio Pitanga, em documentário

Entre os filmes exibidos em mostras e festivais neste ano, um dos mais aclamados pela crítica e público foi o Pitanga, documentário de Beto Brant (Eu receberia a pior notícia dos seus próprios lábios) e Camila Pitanga. Com quase duas horas, a obra homenageia Antônio Pitanga, ator com mais de 60 filmes brasileiros. A obra conta  a história de 75 anos de vida dedicados ao conhecimento e a construção  de um homem em sintonia com o seu tempo.

Ao registrar os encontros e reencontros de Antônio Pitanga com amigos, família, ex-namoradas, cineastas, músicos e outros companheiros de vida e profissão, Beto Brant e Camila Pitanga fazem o trajeto de retorno ao tempo e revisitam a obra do ator, investigando o seu percurso estético, político e existencial que foi destaque no momento de maior inquietação artística do cinema brasileiro, o Cinema Novo. Através de suas interpretações históricas, Antônio Pitanga construiu uma narrativa mitológica própria.

O documentário recebeu o prêmio da Crítica de Melhor Filme Brasileiro da 40ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e tem previsão para chegar ao circuito comercial no dia 06 de abril de 2017.

"Close-Up", de Abbas Kiarostami


Close-Up (Nema-ye Nazdik - 1990)

Ao escrever sobre o falecimento de Abbas Kiarostami, revelei que o único filme dele que realmente me marcou positivamente foi “Close-Up”. Eu consigo pinçar cenas brilhantes em toda sua filmografia, mas essa foi a única experiência plenamente satisfatória que tive com sua obra. Ele conseguiu extrair grandes reflexões, fazendo com que a espinhosa dificuldade conceitual desse docudrama parecesse simples. O argumento nasceu após a leitura de uma matéria sobre Hossain Sabzian, um fã de cinema sem histórico criminal que se fez passar pelo famoso cineasta Mohsen Makhmalbaf, cujo trabalho ele admirava. A família que o entregou à polícia temia que ele tivesse intenção de praticar alguma maldade, mas a razão para sua atitude era passional, o homem simplório e usualmente desprezado desejava ser tratado de forma especial. Ele busca na vivência da rotina de outrem a inspiração para elevar o nível de sua própria existência. Kiarostami então convida todos os envolvidos nessa manchete jornalística, inclusive o próprio impostor, para reencenar o ocorrido.

O drama real de Hossain havia sido transformado em espetáculo para vender jornais, “Close-Up” redime sua imagem ao tornar seu sonho uma realidade, exatamente ao transformar realidade em ficção, objetivando, toque genial, conhecer a verdadeira identidade do preso e a origem de suas motivações, algo que um documentário convencional não conseguiria, provavelmente encontraria resistência no próprio observado, ou como o próprio diretor afirma: “Em alguns casos, para ater-se à verdade é necessário trair a realidade”. O primeiro encontro de Kiarostami com Hossain na delegacia para abordar a ideia do projeto, filmado à distância como se fosse um documentário investigativo, não passa de uma óbvia recriação ficcional. Até mesmo a longa sequência de julgamento no tribunal soa irreal, já que o diretor faz questão de se mostrar bastante intrusivo, questionando o réu diante do juiz, manipulando emocionalmente a cena com a edição e a montagem. O homem que usou por tanto tempo a ilusão como escapista forma de expressão agora fala com plena consciência da presença da câmera. Grande parte do que é visto nessa sequência foi filmado horas depois do término do julgamento, sem a presença do juiz, com Hossain abordando diretamente sua identificação com o cinema, mostrando sua consideração por “O Viajante”, de Kiarostami, revelando que se sente como a criança da trama, que finge tirar fotos com uma câmera sem filme, tentando juntar dinheiro para ver um jogo de futebol. O sono a impede de realizar seu objetivo, o cansaço natural causado pelo esforço de manter a mentira. E Hossain desabafa afirmando que sente que também perdeu o jogo.

O terceiro ato promove o belo encontro entre a realidade e a ilusão, o impostor passeia na garupa da moto de Mohsen em uma jornada rumo ao perdão da família que o desmascarou. O caso real que conquistou a simpatia de Kiarostami teve um final poético: Hossain se tornou um personagem e teve sua imagem eternizada, os membros da família enganada, que buscavam no impostor uma ponte para o estrelato, engoliram a vergonha do ocorrido e conseguiram participar do projeto de um diretor renomado, um filme de verdade, enfim, o cinema, indústria de sonhos, proporcionou a redenção de todos. 

FOTOS DO ANIVERSÁRIO DE 100 ANOS DE KIRK DOUGLAS

Kirk Douglas comemorou 100 anos no último 9 de dezembro com a família.

Confiram as fotos postadas pelo filho Michael:











quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

"Aquarius", de Kleber Mendonça Filho



Aquarius (2016)

É uma pena que a recepção desse filme nacionalmente tenha sido prejudicada por questões políticas baixas, um barulho distorcido encabeçado pelo próprio realizador e que soou mais alto que a bela melodia da trama. Em minha lista de melhores do ano, recentemente postada, você irá encontrar “Mãe Só Há Uma”, de Anna Muylaert, que considero uma obra mais bem resolvida, um roteiro preciso, sem gordura extra. O trabalho de Kleber Mendonça Filho em “Aquarius” peca pelo excesso, peca por querer dizer muito, falta foco narrativo, o que é uma pena, já que há um filme perfeito perdido no pretensiosismo do roteiro. 

Algumas cenas parecem enxertadas para satisfazer interesses ideológicos externos à trama, similar ao que senti em “Que Horas Ela Volta?”, uma espécie de agenda politiqueira que soa intensamente artificial no papel e, por conseguinte, esbanja proselitismo raso na entrega do elenco. Não há problema em ser panfletário, mas tentar infiltrar sutilmente essa intenção causa o efeito inverso no espectador mais atento, desfila como um rinoceronte em uma loja de cristais. Outro problema, as sequências de sexo, a polêmica da censura na classificação indicativa. A questão é que essas cenas realmente são conduzidas de forma desnecessariamente explícita, contrastando com a sensibilidade dominante, parecem existir apenas para causar choque, como se a intenção fosse incitar a polêmica pelos mesmos motivos politiqueiros. A nudez é utilizada com inteligência quando Clara (Sonia Braga) revela ao público a cicatriz física e psicológica de sua batalha contra o câncer, mas os demais momentos envolvendo nudez são tolos, gratuitos, poderiam ser resolvidos com elegância coerente à alegoria central que o roteiro propõe, ou poderiam ser encurtados na edição. A cômoda, leitmotiv visual frequente, representa o elemento do desejo sexual que atravessa gerações, mas a forma como esse móvel é utilizado poderia ser menos didática, a câmera faz questão de registrar sua presença em várias cenas, a repetição subestima a inteligência do público e minimiza a beleza da simbologia.

Há tanto material interessante que é abordado sem atenção, como a crítica que é feita aos estelionatários neopentecostais, rascunhos que nunca são minimamente aprofundados, enquanto o filme perde tempo precioso em seu primeiro ato mostrando personagens ainda desconhecidos do público batendo cabeça dentro de um carro, escutando “Another One Bites the Dust”. Falta senso de direcionamento, a música exerce função primordial, simboliza a valorização da memória (não apenas cultural, nas relações humanas, em todas as vertentes), a protagonista resiste bravamente à mídia digital, ainda que a compreenda como inevitável, sabendo que informações na nuvem nunca irão substituir a poesia por trás de dedicatórias para estranhos em livros encontrados nos sebos, mas o espectador precisa se importar primeiro com a personagem para que o investimento emocional funcione. A utilização da música somente se torna parte orgânica do todo no segundo ato, resultando em momentos verdadeiramente bonitos, como quando Clara celebra sua liberdade dançando ao som de “O Quintal do Vizinho”, de Roberto Carlos. 

Vale ressaltar também o reducionismo maniqueísta reservado ao discurso social que, por vezes, parece ser mais importante que o desenvolvimento dos arcos narrativos: empresários malvados, elite covarde, patroa que visita a casa humilde da empregada no dia de seu aniversário, pobres e ricos divididos sem tons de cinza, não há sutileza alguma na abordagem. Em alguns momentos, esse discurso social funciona, como na cena em que jovens negros da periferia se unem aos moradores dos condomínios de luxo no exercício teatral de gargalhadas ao ar livre. A intenção óbvia é desafiar o preconceito do espectador, a condução da cena (montagem e alguns enquadramentos) leva a crer que eles trazem algum perigo. Ao fazer com que esses rapazes entrem na brincadeira e, mais importante, sejam acolhidos carinhosamente pelos praticantes, o roteiro desfaz o preconceito e incita genuína reflexão. Em outros momentos, o discurso social soa forçado e constrangedor, como na cena em que o jovem sócio da construtora utiliza a cor da pele de Clara como argumento em uma discussão, ou quando justifica o roubo cometido por uma babá, colocando na boca de uma personagem a cretina frase: “É assim, a gente as explora e, de vez em quando, elas nos roubam”. É filosofia socialista de butique, o mesmo tipo de ideologia torta que defende as atuais invasões de adolescentes em escolas públicas, simplismo grosseiro que não combina, por exemplo, com a elegante referência ao escritor pernambucano José Luiz Passos, na cena em que vemos de relance a capa de seu livro: “O Sonâmbulo Amador”, que trata exatamente sobre o tema da resistência. 

Dito isso, qualquer elogio feito à atuação de Sonia Braga é pouco, a melhor de sua carreira, capaz de suprimir as lacunas de seu desenvolvimento no roteiro com pausas estratégicas em frases, deixando transparecer o subtexto, as emoções disfarçadas, o perfeito timing no senso de humor, o conflito constante entre o compreensível medo residual e a coragem de quem já encarou a morte. Sonia é o coração pulsante e a alma do projeto. A jornalista aposentada que se recusa a abrir mão de seu apartamento, mesmo tendo condições financeiras de morar em qualquer lugar. Clara tem outros apartamentos, aquela batalha não é movida por mesquinhez, a ameaça invade sua história de vida, desconsidera todas as experiências belas e difíceis que forjaram seu caráter, os inescrupulosos no terceiro ato chegam a cometer um atentado à sua vida, alegoria que representa mais um câncer em seu combalido espírito, corroendo de dentro para fora após atingir de todas as formas o seu psicológico. A valente reação dela, na casa do inimigo, o testamento em vida de uma guerreira inabalável. “Hoje”, linda composição de Taiguara que emoldura a obra, “eu não queria andar morrendo pela vida”, síntese perfeita para a vitória pessoal da protagonista.

“Aquarius” é, com todos os seus problemas, o segundo melhor filme nacional do ano. Kleber Mendonça Filho é muito feliz ao propor a necessária valorização da memória, simbolizada no apego emocional de Clara com o apartamento e com seus discos, fragmentos de amor preservados nas estantes. Quando o indivíduo passa a se relacionar somente com genéricas informações desprovidas de encanto, tudo se torna dispensável, até mesmo o outro. Ao estabelecer esse resgate, o roteiro propõe uma resposta lúcida para o desolador panorama comportamental de nossa sociedade, cada vez mais conectada virtualmente, olhos fixos nas telas de seus celulares, sem empatia, sem respeito, sem sentido. A resistência é o único caminho aceitável. 

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Nova Fotografia | Beleza americana


TOP Film - 2016


1 - A Chegada (Arrival), de Denis Villeneuve

"... Ao ser convocada para tentar estabelecer contato com os visitantes alienígenas, a doutora em linguística, mostrada inicialmente como uma pessoa melancólica que optou pela solidão como fuga, por medo de sofrer, encontra motivação profissional e refúgio existencial. A complexidade na expressão dos alienígenas, como o kanji japonês, através de ideogramas ricos em significados, representa um desafio amedrontador, assim como a perspectiva de futuro da mãe que precisa educar pelo exemplo, encontrando o equilíbrio entre as aspirações que nutre pela filha e o choque irreversível de estar lidando com um ser estranho e que precisa firmar sua personalidade própria, ainda que nascido de seu ventre. O delicado contato deve ser mediado sempre pelo desejo genuíno de compreensão do outro, mas, como o filme evidencia, a raça humana é propensa ao apedrejamento como resposta imediatista para qualquer pergunta mais difícil. A mãe repele o questionamento indesejado da filha, desviando a responsabilidade para o pai; os militares optam facilmente pela violência perante o medo do desconhecido. O resultado é o mesmo. Exatamente como no conto, “A Chegada” não é sobre uma invasão alienígena, não é sobre o contato com o desconhecido mundo externo. A alegoria apenas injeta suspense, serve na realidade como veículo refinado para uma linda história de amor entre mãe e filha, uma difícil jornada interna de compreensão da dor como elemento inevitável na experiência do amadurecimento, uma declaração libertária de união entre povos, um alerta precioso para a necessidade do diálogo como antídoto contra a agressividade da intolerância, em suma, um filme que traz esperança em um momento politicamente sombrio para os norte-americanos. Somos definidos por nossas escolhas, mas caso pudéssemos optar entre sofrer a dor de um amor fadado a ter um fim horrível, ou simplesmente evitar o primeiro encontro com a pessoa, qual caminho escolheríamos? Essa é a questão que o roteiro de Eric Heisserer faz, com plena consciência de que a única resposta humanamente aceitável é a mais sádica, emoções não são forjadas em ambientes assépticos, George Lucas já provava isso em “THX 1138”. A protagonista Louise, vivida por Amy Adams, sabe que a dor do término de uma relação, por mais avassaladora que seja a ruptura, não desvaloriza os bons momentos que a antecedem, a mágica interação, a troca de carinho, a força do perdão, pegadas na areia que serão inexoravelmente apagadas pelas ondas. É discutível até que a aceitação lúcida da finitude seja o elemento que verdadeiramente engrandeça a experiência. Sem um ponto final, qualquer frase perde relevância..."


2 - Elle, de Paul Verhoeven

"... O cineasta Paul Verhoeven, como de costume, utiliza a violência gráfica como veículo para tratar de assuntos espinhosos. O estupro sofrido logo na primeira cena, repetido em detalhes depois em flashback, existe como forma de colocar em confronto Michèle e suas muitas travas emocionais, os obstáculos que a impedem de seguir em frente, presa aos fantasmas do passado criminoso do pai, presa ao sentimento de culpa na criação do filho, presa à insegurança que o marido deixou de legado ao abandonar ela por uma mulher mais jovem, presa a uma imagem reducionista dela mesma. Perceba que o estuprador não teve interesse em roubar nada na casa, ele desejava apenas satisfazer seu impulso sexual. Ela, que frequentemente se sente inferior como mulher perante as figuras femininas mais jovens, descobre da pior forma possível que ainda é desejada. Não é coincidência que, após o estupro, ela conquiste confiança pra seduzir abertamente o vizinho na mesa de jantar de sua casa. Ela deixa de ser passiva sexualmente, cansa de ser vítima da deselegância do amante que a enxerga apenas como objeto, e parte para o ataque, com plena consciência da necessidade de satisfazer seus desejos. Quando ela vê que a esposa do vizinho é uma jovem recatada, altamente religiosa, nasce o desafio. Outra cena muito importante ocorre em um restaurante, o encontro com o ex-marido. Ele diz, sobre a namorada psicótica do filho: “Esse tipo de garota costuma ser boa de cama”. E ela responde ofendida: “Boa de cama? O que isso quer dizer? Eu nunca entendi”. Como mulher em transformação, ela, enxergando claramente o machismo repulsivo na sociedade, ganha a coragem de revidar. Várias cenas criam variações desse mesmo tema, a natureza constantemente a desafia, mas ela segue forte, rejeitando absolutamente a autocomiseração como resposta aceitável, ela não aceita entregar a responsabilidade nas mãos dos policiais, do sistema patriarcal, o problema tem que ser resolvido de dentro pra fora, a questão é existencial. Até mesmo quando um agressor tenta humilhá-la publicamente em seu local de trabalho, sodomizada por um demônio lovecraftiano em um jogo eletrônico, a resignação subjuga o medo, ela não aceita entrar no jogo psicológico dele, ela se mostra superior..."


3 - O Quarto de Jack (Room), de Lenny Abrahamson

"... O primeiro aspecto brilhante que saliento é a atuação de Brie Larson. Vale perceber como ela reage quando o filho pede um cachorro. “There’s not enough room... Space, there’s not enough space”. Ela se pune internamente por ter dito a palavra “quarto” (room) levianamente, substituindo rapidamente pela palavra “espaço”, já que ela fez a criança acreditar que nada havia além daquele ambiente em que eles vivem: o Quarto (com letra maiúscula). Já fora do cativeiro, perceba como ela segue falando em tom extremamente baixo, até mesmo quando não há ninguém por perto, evidenciando o trauma de anos sendo levada a não chamar atenção. Pequenos detalhes que demonstram o cuidado do filme, sublinhando sutilmente as consequências psicológicas da terrível experiência na personagem. Esse recurso da ilusão mantida como forma de proteção incita reflexões que vão muito além do tema, que pode ser visto como alegoria para o sistema de crenças humano. O menino questiona a mãe sobre o mundo do sonho: “Quando sonhamos, nós entramos na TV?”. Ele acha que além das paredes há apenas o espaço sideral. Aquele é o universo que ele conhece como prisioneiro na caverna de Platão, criando possibilidades a partir dos elementos que enxerga ao seu redor. O real é apenas o que ele consegue tocar. A comida e as roupas, aos olhos dele, são trazidas pelo “Velho Nick”, o fator amedrontador, desconhecido e onisciente, que opera através da TV, por mágica. O que ele desconhece é explicado pelo sobrenatural. A mãe, em dado momento, começa a entender que o filho, com cinco anos, já tem idade para deixar de se apoiar na muleta da ilusão, então deixa de incentivar isso nele. O objetivo outrora era fazer com que ele se acostumasse a viver naquele ambiente. Mas a única forma dela conseguir reunir forças para escapar daquela prisão é com os dois pés fincados no mundo real. Ao explicar para ele como o mundo funciona, o menino se revolta, não consegue compreender, ele precisa viver aquela ilusão, por mais desumana que seja. Num toque genial, o roteiro mostra que Jack era mais alegre em seu Quarto. Ele descobre que o mundo real, aquele universo que ele desconhecia, é todo em tons de cinza..."


4 -  Carol, de Todd Haynes

"... Até mesmo a incrível semelhança de Mara com Audrey Hepburn, maquiagem e adereços, possui interessante simbolismo, traçando um paralelo entre ela e a personagem de Hepburn em “A Princesa e o Plebeu”, uma princesa entediada que, abraçando o anonimato, embarca em uma viagem de exploração, inclusive, interna. O tédio faz parte da rotina de Thérese, vendedora em uma loja de departamentos, acostumada a ser incentivada pela gerência a se adequar a um padrão, simbolizado na cena em que ela lê o manual de condutas da empresa. A delicadeza na interação com aquela enigmática mulher que a aborda numa manhã, o gradual desejo cuidadosamente trabalhado nas primeiras conversas, a preocupação da jovem com a latente agressividade do marido de Carol, todas as etapas nessa relação conduzem naturalmente ao sexo, porém, até mesmo nessas cenas, a câmera se mantém por mais tempo nos olhares, no toque dos lábios, afinal, a coreografia dos corpos importa menos que a alegria do contato finalmente satisfeito..."


5 - A Assassina (Nie yin niang), de Hou Hsien-Hsiao

"... A ação, quando ocorre, é abrupta, turva momentaneamente a água de um rio plácido, gestos rápidos e frios, anti-ação, porque o interesse do diretor está nos sentimentos dúbios que movem os personagens em seu cotidiano, não nos consequentes impulsos imediatistas. Os confrontos, doce ironia, são coerentes à realidade intensa desses guerreiros, altamente precisos e ágeis, sem a glamourização excessivamente elaborada, visando empolgação e não reflexão, que o cinema consagrou. O estudo dedicado sobre o período da dinastia Tang, pesquisa que se reflete na primorosa direção de arte fiel à arquitetura e ao estilo de vida, serve à adaptação do conto “Nie Yinniang”, de Pei Xing, como um estofo de realidade que inteligentemente evidencia ainda mais os elementos utópicos, com a fotografia de Ping Bin Lee, do inesquecível “Amor à Flor da Pele”, atuando em vários momentos de forma subjetiva, como se enxergasse o mundo pelos olhos da etérea protagonista, vivida por Shu Qi, uma assassina treinada para se misturar às sombras e se mover como o vento, metáfora visual executada com elegância, uma mulher consciente de que está se esvaindo existencialmente, consciente de que nunca terá o conforto de um lar, punida severamente por ter demonstrado piedade, punida por ser humana. A câmera pacientemente esculpe o tempo, como nas obras de Tarkóvski, conduzindo o espectador a apreciar cada detalhe do enquadramento..."


6 - Snowden - Heroi ou Traidor (Snowden), de Oliver Stone

"... Joseph Gordon-Levitt realiza um trabalho assustadoramente competente, conseguindo captar com riqueza de nuances os trejeitos e a voz do protagonista, compondo uma caracterização tão fiel que, mais tarde, quando o próprio Snowden é mostrado, o espectador não sente qualquer abalo na imersão, o recurso potencializa o investimento emocional e não soa forçado. A intenção clara é fazer com que o público se identifique com o protagonista, buscando entender o escopo brutal do sacrifício, o incômodo sentido ao perceber que a omissão é o pior crime que pode ser cometido. Como é salientado em uma das cenas mais impactantes, o que se pode esperar de dignitários que são capazes de qualquer coisa, até mesmo utilizar o conceito da ameaça terrorista em um povo já doutrinado diariamente pela cultura do medo a “deixar o dedo no gatilho”, como bem mostrou Michael Moore em seu documentário “Tiros em Columbine”, como atroz desculpa para operar total controle social? Como prever o que será feito por aqueles que não possuem escrúpulos? É impressionante constatar que o material que era tido como ficção científica altamente engenhosa outrora, o Grande Irmão orwelliano, acabou se tornando uma preocupante realidade..."


7 - A Bruxa (The Witch: A New-England Folktale), de Robert Eggers

"... A mente, tão acostumada e programada para reagir aos impulsos imediatistas tolos dos jump scares, não consegue aceitar que está diante de um roteiro que está impondo suas próprias regras sensoriais. Analisando bem, o recurso do susto é o artifício menos inteligente, o bom horror aposta no poder da sugestão. O público quer respostas fáceis, algo que o diretor Robert Eggers não está interessado em oferecer. A intensa religiosidade da família codifica todos os estranhos acontecimentos, o desespero diante do desconhecido faz com que eles ativem a suscetibilidade humana ao apedrejamento, alimentado pela culpa cristã e a consequencial punição, um fanatismo que nubla até mesmo os elos de amor familiar, cegando qualquer senso de lucidez, assim como nas perseguições dos inquisidores históricos. A utilização da cabra, símbolo pagão, reforça esse conceito. Conhecemos mais sobre os personagens através de suas atitudes quando confrontados por esses medos..."


8 - Mãe Só Há Uma, de Anna Muylaert

"... Muylaert encontrou no “caso Pedrinho”, o menino que foi roubado de uma maternidade em Brasília nos anos oitenta, a fonte para injetar um poderoso tratado sobre o conceito elástico de família. O filho pré-adolescente do casal é mostrado praticando judô, mas o roteiro salienta seu desconforto, seu desinteresse ao alongar sua pausa para água no meio do treino. Ao ser paquerado pela coleguinha de classe introvertida, ele se sente constrangido, ele se afasta com medo do que os outros irão pensar dele, um ato de imaturidade compreensível pela pouca idade. Essa preocupação é o reflexo do comportamento repressor dos pais, adultos apavorados com a opinião dos outros, tão imaturos quanto o menino, como é mostrado na sequência em que Pierre revela preferir se vestir como mulher. O arco narrativo se encerra brilhantemente ao focar no menino e no irmão mais velho que descobriu ter, uma relação conturbada a princípio, mas que é abraçada pela ternura quando a rebeldia social de Pierre conquista o respeito de um garoto que nunca tinha conhecido força de resistência tão pacífica e gentil. É uma das cenas mais bonitas da história do cinema nacional..."


9 - Café Society, de Woody Allen

"... Em uma indústria cada vez mais escrava da grandiloquência, o baixinho de voz mansa segue entregando anualmente os textos mais inteligentes do mercado, com pouco orçamento e disciplinadamente encaixando a duração final por volta de noventa minutos, exercitando sua incrível capacidade de síntese narrativa. Ele abraça pela primeira vez a filmagem digital, mas continua marchando no ritmo de seus próprios tambores criativos, o roteiro toca em temas essenciais em sua filmografia, como a discussão existencialista sobre a morte, a ironia do amor não correspondido e a desconstrução ácida da melancolia nostálgica, com a mesma vitalidade de seus primeiros trabalhos. Ao final, os dois apaixonados, em locais diferentes e estabelecidos em relações frágeis, olhares distantes e melancólicos, como que buscando a luz verde do farol do Gatsby literário, de Fitzgerald. E, ousado, Woody insinua no sorriso suave da mulher a possibilidade de que o amor verdadeiro ainda terá chance de superar a insegurança social. Poético desfecho para um dos melhores filmes em sua filmografia..."


10 - Coração de Cachorro (Heart of a Dog), de Laurie Anderson

"... O medo da morte é parte essencial de um processo importante e que não deve ser negado. O padrão dos veterinários, assim como o livro escolhido pela enfermeira, ao discursar um conteúdo memorizado sobre a possibilidade de acabar com o sofrimento do animal com apenas uma injeção, impede que o animal utilize o tempo necessário para reconhecer a finitude. O envelhecimento, essa aproximação natural da morte após a breve juventude, possibilitou que a diretora enxergasse em suas recordações o momento exato em que se sentiu amada por sua mãe, algo que parecia ter sido bloqueado em sua mente. Laurie propõe em seu documentário, acima de tudo, um convite para que o espectador também analise com carinho a efemeridade da vida, para que ele não perca precioso tempo em rituais que satisfaçam outrem, ou obedecendo a padrões desgastados. Crie seu próprio ritual, codifique sua linguagem única..."