quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

ATENÇÃO: MOSTRA KENJI MIZOGUCHI DE 20/02 A 06/03



Entre os dias 20 de fevereiro e 6 de março, o cinema do IMS Paulista, em parceria com a Fundação Japão, dedicará sua programação ao diretor e roteirista japonês Kenji Mizoguchi (1898-1956). Serão exibidos 18 filmes do cineasta, com cópias em 35 mm, 16 mm e DCP, a maior parte proveniente do Japão. Chika Kinoshita, professora da Universidade de Quioto e especialista na obra de Mizoguchi, participará de uma conversa sobre a obra do diretor japonês com o professor João Luiz Vieira (Universidade Federal Fluminense) no dia 6 de março, após a exibição do filme A rua da vergonha, às 18h30, no cineteatro do IMS Paulista. 

Entre os destaques da programação, estão os clássicos Oharu, a vida de uma cortesã, Amantes crucificados e Crisântemos tardios. Há também cópias restauradas de A canção da terra natal, filme inédito no país, e de O intendente Sansho, apresentado em DCP, e filmes raros como Oyuki, a virgem e Senhorita Oyu. O evento é a maior retrospectiva dedicada a Mizoguchi realizada no Brasil nos últimos 30 anos.

Entre 1923 e 1956 (ano da sua morte), Mizoguchi realizou 86 filmes, dos quais apenas 30 foram preservados. Entre as fontes de inspiração do realizador, estão o teatro de marionetes bunkaru do século XVII e trabalhos literários de distintos momentos históricos.

Temas frequentes de sua obra são a condição feminina a partir das relações de poder e os conflitos de classe social. Conhecido pelos longos planos-sequência, e pela realização de uma confluência entre a interpretação dos atores e a exploração do espaço cênico, Mizoguchi, também, era extremamente perfeccionista, como atestam depoimentos de seu roteirista Yoshitaka Yoda no livro Souvenirs de Kenji Mizoguchi, publicado pela Cahiers du Cinema.

Entre os dias 6 e 21 de março a Mostra Kenji Mizoguchi acontece no IMS Rio.

OBS: As sinopses dos filmes são fornecidas pelo IMS.



A canção da terra natal
Furusato no uta
Kenji Mizoguchi | Japão, 1925, 50’, 35 mm

“O argumento foi estabelecido pelo Ministério da Educação com a intenção de aumentar a produção de arroz” ‒ conta o diretor ao falar sobre seus filmes à revista japonesa Kinema Junpô, em janeiro de 1954. Encomendado pelo governo japonês, o filme apresenta dois garotos que cresceram no campo: um deles não pode terminar os estudos primários, e o outro acaba de voltar da cidade. “A canção da terra natal constrói-se sobre uma oposição cidade/campo, denunciando os problemas que se abateriam sobre toda a sociedade japonesa caso não fosse estancado o movimento migratório em massa do campo para a cidade ‒ e, diga-se a este respeito, o filme tinha um objetivo propagandístico concreto [...]. Estes objetivos explicam a simplicidade da estrutura de oposições montada por Mizoguchi”, discorre Luís Miguel Oliveira no livro As folhas da Cinemateca ‒ Kenji Mizoguchi. Único filme mudo apresentado neste ciclo, e exibido pela primeira vez no Brasil, "A canção da terra natal" foi recentemente restaurado pelo National Film Center (NFC), em Tóquio, que recuperou as cores originalmente realizadas com técnicas de tingimento da película. O trabalho foi possível graças a uma cópia em nitrato da época de seu lançamento doada ao NFC. Apesar de muito deteriorada, as cores ainda estavam preservadas em pequenos trechos, o que permitiu a recuperação completa de sua estética original.

Oyuki, a virgem
Maria no O-yuki
Kenji Mizoguchi | Japão | 1935, 76’, 35 mm

No sul do Japão, durante a revolta de Satsuma, em 1877, Okin e Oyuki, duas jovens gueixas, fogem à aproximação dos rebeldes e conseguem carona em uma carruagem, na qual viajam também uma família aristocrática, além de um comerciante e sua esposa. Um dos primeiros filmes sonoros de Mizoguchi, Oyuki, a virgem é inspirado no conto “Bola de sebo” (“Boule de suif”), de Guy de Maupassant. Protagonizado por Isuzu Yamada (que trabalhou com Kurosawa em Trono manchado de sangue e Yojimbo), Mizoguchi já começa a explorar no filme técnicas que marcariam sua mise-en-scène, como o plano-sequência e o aproveitamento dramático da profundidade de campo. A cópia em 35 mm que será exibida é da coleção do National Film Center, do Museu Nacional de Arte Moderna, em Tóquio.

Elegia de Osaka
Naniwa ereji
Kenji Mizoguchi | Japão | 1936, 69’, 16 mm

Ayako, jovem telefonista em uma companhia farmacêutica, tenta resistir ao assédio do patrão. No entanto, aceita tornar-se sua amante para pagar uma dívida do pai e evitar que ele vá para a prisão. Nas palavras da crítica Barbara Sharres, “em Elegia de Osaka, a composição visual de Mizoguchi evoca, e sutilmente mina, um contexto no qual os homens detêm o controle e as mulheres servem e aguardam. Esse reino dos homens é uma ilusão potente, construída como um belo brinquedo feito de portas deslizantes, papéis de parede e divisórias finas, cujos ambientes interiores parecem labirínticos e atemporais, graças ao uso que o diretor faz da profundidade de campo e dos planos abertos. As mulheres se curvam, se ajoelham e voltam atrás. Mas a ilusão opera em mão dupla e, mesmo quando Mizoguchi posiciona suas figuras masculinas de autoridade em primeiro plano é, muitas vezes, para envolver seus traços na sombra ou então comprometer seu poder.” Inspirado no romance Mieko, de Saburo Okada, publicado em episódios no jornal Shinchô, o roteiro de Elegia de Osaka é a primeira colaboração entre Mizoguchi e Yoshikata Yoda, que foi um dos seus roteiristas mais frequentes. Conta Mizoguchi à revista japonesa Kinema Junpô: “Procurava uma nova direção e qualquer coisa inovadora em relação aos filmes sobre a época Meiji que estava habituado a fazer. Penso ter percebido bem a personagem feminina.” [Íntegra da crítica de Elegia de Osaka por Barbara Sharres, em inglês, no portal do selo The Criterion Collection: bit.ly/m-osaka]

As irmãs de Gion
Gion no shimai
Kenji Mizoguchi | Japão | 1936, 68’, 35 mm

Umekichi, uma gueixa do bairro de Gion (tradicional reduto de restaurantes e casas noturnas de Quioto), sente-se na obrigação de ajudar seu amante quando ele vai à falência e abandona a esposa. Omocha, sua irmã mais nova, é contrária à ideia e defende que as duas encontrem amantes melhores. Segunda colaboração entre Mizoguchi e o roteirista Yoshikata Yoda, As irmãs de Gion é baseado no romance Yama, de Aleksandr Kuprin. “Depois de Elegia de Osaka, eu e Yoda pudemos descontrair um pouco e, relativamente falando, as coisas começaram a correr melhor. O que veio depois de Osaka? Quioto. E quando se pensa em Quioto, pensa-se logo em Gion. Também não demoramos muito tempo a fazer esse filme” ‒ conta Mizoguchi à revista Kinema Junpô.

Crisântemos tardios
Zangiku Monogatari
Kenji Mizoguchi | Japão | 1939, 142’, DCP

Tóquio, meados da Era Meiji (1868-1912). Kikunosuke Onoe é filho adotivo e sucessor de um mestre do teatro kabuki, mas acredita não estar à altura do pai. A única pessoa a lhe dar uma opinião negativa sobre seu talento é Otoku, uma criada da família. Diante de uma crítica sincera, Kikunosuke apaixona-se por Otoku e a toma como conselheira, mas a relação entre os dois será um constrangimento para a família de Kikunosuke. Crisântemos tardios é o primeiro filme dirigido por Mizoguchi na produtora japonesa Shochiku. Segundo Maria João Madeira, no livro As folhas da Cinemateca ‒ Kenji Mizoguchi, o diretor “é radical em Crisântemos tardios. É o mínimo que se pode dizer de um filme que é também de celebração do plano-sequência.” Em seguida, a autora cita o comentário de Mizoguchi sobre a prática: “Comecei a utilizar a técnica do plano-sequência em 1936, consistindo ela em nunca alterar o enquadramento durante toda a sequência enquanto a câmera permanece a uma certa distância [...]. Adaptando esse método, não tive a mínima intenção de representar o estado estático de uma psicologia qualquer. Pelo contrário, cheguei a ele espontaneamente, dando prosseguimento à procura de uma expressão mais precisa e mais específica dos momentos de grande intensidade psicológica [...]. Fui naturalmente levado a seguir uma técnica desse tipo pelo simples desejo de evitar o método clássico da descrição psicológica a partir do abuso dos planos próximos.”

A vingança dos 47 ronins [partes 1 e 2]
Genroku Chushingura
Kenji Mizoguchi | Japão | 1941-1942, 109’ e 109’, 35 mm

No Japão do início do século XVIII, o senhor Asano contraria o código dos samurais ao desembainhar a espada contra o senhor Kira no interior do castelo do Shogun e é condenado a cometer o seppuku ‒ popularmente conhecido como harakiri, um ritual de suicídio praticado por samurais. O castelo de Asano é confiscado, e seu séquito, disperso como ronins ‒ os samurais sem mestre ‒, decidem vingá-lo. O roteiro, de Kenichiro Hara e Yoshikata Yoda, foi escrito a partir do romance de Seika Mayama, baseado em uma história real (leia aqui) muito popular no Japão. O filme foi dividido em duas partes, lançadas em dezembro de 1941 e fevereiro de 1942, período decisivo da participação do Japão na Segunda Guerra Mundial. Para o crítico Richard Brody, da revista The New Yorker, “A vingança dos 47 ronins é um dos grandes filmes políticos de todos os tempos. [...] É um extraordinário ato de equilíbrio de que Mizoguchi lança mão. Para satisfazer às normas de um esforço de guerra de então, ele exalta os clássicos guerreiros japoneses como homens abnegados de princípio inconteste e, no entanto, enfatiza sua fidelidade à própria consciência e espírito de resistência. É um mundo masculino. Mizoguchi, porém, constrói a história num crescendo de nobreza e derramamento de sangue por meio da intervenção de uma mulher.” [Íntegra do comentário de Richard Brody, em inglês, em: bit.ly/m-ronins].

Utamaro e suas cinco mulheres
Utamaro o meguru gonin no onna
Kenji Mizoguchi | Japão | 1946, 92’, 35 mm

Utamaro é um célebre pintor que busca por cortesãs do bairro de Yoshiwara, região de bares e bordéis em Tóquio, para compor seus retratos. Em seu primeiro filme realizado no Japão ocupado pelas forças aliadas, após o fim da Segunda Guerra Mundial, Mizoguchi contorna as rígidas normas da censura americana, que restringiam a realização de obras históricas ambientadas antes da abertura do Japão ao Ocidente. Segundo a crítica e pesquisadora de cinema japonês Freda Freiberg, o diretor “precisou garantir que o filme não teria duelos de espada e que seu herói era um homem do povo, um democrata à frente de seu tempo”. O longa é uma adaptação do romance homônimo de Kanji Kunieda, inspirado na vida do pintor japonês Utamaro (1753-1806), famoso por seus retratos de cortesãs – bijin-ga. Segundo Freiberg, “o roteirista regular de Mizoguchi, Yoshikata Yoda, que trabalhou com ele (ou para ele) por 20 anos, afirmou em suas memórias que, nesse roteiro, estava ‘quase inconscientemente’ pintando um retrato de Mizoguchi por meio de Utamaro. A equação Utamaro = Mizoguchi foi irresistível para a maior parte dos críticos, uma vez que os dois tinham muito em comum. Ambos trabalharam com meios de comunicação operados por homens de negócios e tiveram atritos sob sistemas opressivos de censura; ambos frequentaram as ‘zonas de divertimento’ e buscaram a companhia de gueixas; e ambos ficaram famosos por seus retratos de mulheres.” [Íntegra do texto de Freda Freiberg para a revista Senses of Cinema, em inglês, em: bit.ly/M-Utamaro.

Mulheres da noite
Yoru no onnatachi
Kenji Mizoguchi | Japão | 1948, 71’, 35 mm

No Japão pós-guerra, Fusako, uma jovem viúva de Osaka que perdeu o marido em combate, não tem recursos para tomar conta do filho, que padece de tuberculose. Quando ele morre, ela parte para Tóquio. Lá, Fusako e sua irmã mais nova se verão envolvidas com um contrabandista de ópio. Baseado no romance Joseimatsuri, de Eijiro Hisaita, Mulheres da noite é comumente descrito como um filme de influência neorrealista. Rodado grande parte em locação, na Osaka devastada pela guerra, o longa aborda os efeitos do conflito na vida de suas personagens e no contexto da prostituição.

Senhorita Oyu
Oyu-sama
Kenji Mizoguchi | Japão, 1951, 96’, 35 mm

Oyu-Sama é uma jovem viúva. A sua irmã mais nova, Shizu, é apresentada a Shinnosuke como pretendente, mas o noivo apaixona-se por Oyu. De acordo com a tradição, Oyu está proibida de casar-se novamente, porque tem que criar o filho como o herdeiro da família do marido. O longa se passa na era Meiji (1867-1912) e é baseado na novela Ashikari (1932), de Junichiro Tanizaki. Em seu livro Lembranças de Kenji Mizoguchi, o roteirista Yoshikata Yoda comenta as dificuldades dessa adaptação: “Na literatura, a história é contada a partir da perspectiva de um homem que o autor diz ter conhecido [...]. A construção da história é feita a partir de três movimentos, três retornos ao passado. Era necessário conservar no filme esse caráter onírico da memória. Então, eu insisti sobre esse aspecto narrativo, pois o regresso no tempo reforçava o mistério. Mas os flashbacks sobrepostos foram injustamente recusados pelo sr. Kawaguchi, o diretor do Estúdio Daiei em Quioto. Arriscava um fracasso comercial. Mas lamento muito.” Ele também ressente a escolha de Kinuyo Tanaka para o papel de Oyu: “A sra. Tanaka não era como Oyu. Não que ela não fosse tão bonita quanto Oyu. Mas a astúcia da sra. Tanaka é composta por essa inteligência sensível atrelada à vida cotidiana. Não podíamos matar essa qualidade.”

Em seu texto Coreografia do desejo: analisando a atuação de Kinuyo Tanaka nos filmes de Mizoguchi, a pesquisadora Chika Kinoshita comenta essa contradição entre atriz e personagem descrita por Yoda: “A fissura que o olhar opaco de Tanaka abre, na personagem Oyu, não é propriamente desenvolvida e nem reparada pelas demais partes do filme. É uma ameaça constante de levar o filme à contradição. Mas eu acredito que isso torna a personagem intrigante, e não defectiva.”

Oharu, a vida de uma cortesã
Saikaku ichidai onna
Kenji Mizoguchi | Japão, 1952, 148’, 35 mm

Oharu, interpretada por Kinuyo Tanaka, é uma prostituta de meia idade. Após mais uma noite sem clientes, ela caminha com suas colegas. Uma delas pergunta sobre seu passado na corte imperial, ela se nega a falar sobre o assunto. Mas, em um templo budista, uma das imagens no altar lhe transporta para sua juventude. Então, se lembra de Katsunosuke (Toshiro Mifune), sua primeira paixão. Nas palavras de Chika Kinoshita, “a sequência de sedução de A vida de Oharu é encenada com extrema elegância, pelos atores e pela câmera de Yoshimi Hirano. A coreografia de desejo não é uma expressão crua de luxúria, mas um fluxo refinado de ações e gestos. O que não deve ser ignorado, no entanto, é que todo gesto gracioso registra não apenas o amor do casal, mas também a posição social de cada um. Enquanto Katsunosuke expressa repetidamente sua crença no amor romântico livre do sistema feudal de classes, seu amor romântico nunca é realizado na tela. Por que Oharu desmaia? Discordo do diagnóstico de Robert Cohen de um desmaio por histeria. Eu argumentaria que Mizoguchi não conseguia imaginar a euforia do amor romântico fora do campo das relações de poder. Alain Bergala resume bem a mecânica dessa sequência: ‘Por meio de variações sutis entre o exterior e o interior, a barreira inquebrável de classe que os divide é virada por um abraço tão subversivo que a jovem pode sobreviver apenas com o desmaio’.” Baseado no romance de Saikaku Ihara, Kochoku ichidai onna, escrito no século XVII.

Contos da lua vaga
Ugetsu monogatari
Kenji Mizoguchi | Japão | 1953, 97’, 35 mm

No Japão do século XVI, uma vez declarada a guerra civil, dois camponeses enxergam a possibilidade de mudar de vida. O ceramista Genjuro procura fortuna. Seu cunhado, Tobei, sonha se tornar um samurai, mas não possui armadura. Mesmo quando avisados do perigo da guerra, eles partem para a cidade e deixam a esposa e o filho de Genjuro na aldeia. Quando Wakasa, uma jovem nobre, se encanta por suas cerâmicas, a vida de Genjuro toma um novo rumo. “É o único dos filmes subsistentes do autor em que o sobrenatural expressamente intervém [...]. O milagre maior de Mizoguchi, neste filme prodigioso, é a fusão dos acontecimentos reais com os acontecimentos surreais, sem usar nenhum dos processos convencionais para passar de uma dimensão à outra”, observa João Bénard da Costa no artigo “Mizoguchi: a quinta essência”. A história de Genjuro, no roteiro de Yoshikata Yoda e Matsutaro Kawaguchi, é baseado em três contos de Akinari Ueda, publicados em 1776. Já o conto francês “Décoré!”, de Guy Maupassant, publicado em 1883, serviu de inspiração para a trajetória do personagem Tobei.

A música de Gion
Gion bayashi
Kenji Mizoguchi | Japão, 1953, 84’, 35 mm

Eiko perdeu a mãe, que era gueixa, e decide seguir a mesma profissão sob a tutela de Miyoko. A professora lhe ensina que as gueixas são, tanto como a cerimônia do chá ou o teatro Nô, uma tradição japonesa, “um patrimônio cultural vivo”. Esta perspectiva de Miyoko entra em conflito com a da pupila. Como observa João Bénard da Costa, “o próprio princípio que levou ao nome e à profissão (princípio do prazer, princípio da mulher como origem e fonte de prazer para o homem) sofreu com a ocidentalização várias inflexões, que, sobretudo depois da guerra, permitiram uma zona em que as fronteiras se restringiram e a gueixa pôde ser levada a prostituir-se, sobretudo com determinado tipo de clientes.

O intendente Sansho
Sansho dayu
Kenji Mizoguchi | Japão | 1954, 122’, DCP

No final do período Heian (entre os séculos XI e XII), um governador é mandado para o exílio por desobediência e por defender camponeses pobres. Sua mulher, Tamaki, e os dois filhos, Zushio e Anju, vão ao seu encontro, mas são enganados durante a viagem por traficantes de escravos. Tamaki é levada para a ilha de Sado, onde é forçada a prostituir-se. Anju e Zushio são vendidos como escravos ao intendente Sansho. Dez anos mais tarde, a memória da mãe retorna na forma de uma triste canção que se popularizou em Sado. “A telepatia instantânea transmitida pela música, unindo mãe e filhos através das águas, resgata Zushio e sua irmã do desânimo e reaviva seus corações para a batalha. Seu desdobramento nos leva de volta às grandes tradições do melodrama silencioso, ao cinema de juventude de Mizoguchi, no qual o acompanhamento musical fazia explícita a emoção contida na imagem”, escreve Mark Le Fanu, autor do livro Mizoguchi and Japan editado pelo British Film Institute. Segundo o autor, “é impossível pensar em O intendente Sansho sem a trilha musical: a pontuação de flauta e harpa do colaborador de longa data Fumio Hayasaka é uma das mais delicadas na obra de Mizoguchi.” O intendente Sansho é baseado em um romance de Ogai Mori que, por sua vez, foi inspirado em uma antiga lenda japonesa. [Íntegra do ensaio de Mark Le Fanu para o selo The Criterion Collection, em inglês: bit.ly/m-sansho].

Os amantes crucificados
Chikamatsu Monogatari
Kenji Mizoguchi | Japão | 1954, 100’, 35 mm

Quioto, final do século XVII. Ishun, um senhor abastado, acredita que sua esposa, a jovem Osan, está tendo um relacionamento com Mohei, um de seus empregados. Para escapar à punição de execução por adultério, Osan e Mohei fogem juntos. O roteiro foi inspirado em uma peça de bunraku, uma forma de teatro de bonecos japoneses intitulada Koi Hakke Hashiragoyomi. Nas palavras do cineasta português Paulo Rocha (Os verdes anos), Os amantes crucificados “é uma adaptação do Chikamatsu, um gênio, que recriava a forma do teatro de marionetes, na época uma forma popularíssima de Osaka. Havia muitos suicídios, e o público gostava muito dessas coisas de faca e alguidar. Por exemplo, uma gueixa apaixonava-se e depois se matava: dois ou três dias depois, publicavam uma balada ou um poema, vendiam pelas ruas, e passada uma semana aquilo estava no teatro. O público ia para lá chorar. Depois havia o coro que contava a história de uma maneira mais lírica, os bonecos mimavam a cena, tornavam todas as cenas muito realistas, e a primazia era do narrador, que cantava e chorava. Ora bem, o Mizoguchi, em Os amantes crucificados, pega, portanto, uma história já elaboradíssima e expõe aquilo que se passa num ambiente de burguesia semi capitalista da época ‒ o dono do negócio é um homem que tem o privilégio de ser o único tipógrafo no Japão a poder imprimir os calendários. Estabelecer o calendário era uma função de poder, com um valor quase religioso, e o governo tinha que autorizar, portanto dava imenso dinheiro. [...] Os argumentistas marxistas aproveitam para fazer uma descrição minuciosíssima sobre as estruturas do poder econômico. Levam em conta os novos estudos históricos, todas as pistas da historiografia oficial marxista, e, portanto, este é provavelmente um dos argumentos mais solidamente escritos de toda a história do cinema de qualquer país. É um prodígio de carpintaria teatral, de síntese histórica etc. É um prodígio de luz, de construção de décors, mas vai muito mais longe, naquelas cenas no lago com o barco aparece um pouco o ‘amour fou’, o lado voluntarista para além da existência normal. O marxista comum não teria coragem de ir tão longe! Em que medida isso é uma espécie de reação espontânea, poética, pessoal, política do Mizoguchi? O que é certo é que ele consegue colocar a câmara no set, pegar num assunto violentíssimo e torná-lo mais aceitável para a sociedade japonesa.” [Íntegra do depoimento de Paulo Rocha para Luís Miguel Oliveira: bit.ly/prmizoguchi].

A princesa Yang Kwei Fei
Yokihi
Kenji Mizoguchi | Japão, Hong Kong, 1955, 98’, 35 mm

Primeiro filme colorido de Mizoguchi, e o único ambientado fora do Japão, A princesa Yang Kwei Fei é baseado em uma história chinesa do século VIII, quando o imperador Hsuan Tsung adotou uma de suas concubinas como esposa. O estúdio japonês Daiei esperava que a coprodução internacional pudesse trazer um maior público ao filme, e os produtores de Hong Kong, os Shaw Brothers, acreditavam no potencial que o nome de Mizoguchi traria à produção. Em suas memórias, o roteirista Yoshikata Yoda conta que Mizoguchi aceitou o convite com alegria: “Mizoguchi era um grande amante da arte chinesa e um profundo conhecedor da estética e dos costumes da era Tang. Eu, pelo contrário, ignorava tudo. Foi Mizoguchi quem tudo me ensinou.” Ele relata como o diretor pesquisou durante meses as obras dessa era para encontrar as cores do filme, mas diz também que o realizador considerava a cor no cinema um elemento artificial. Foi uma imposição do estúdio, que desenvolvera há pouco uma tecnologia própria, a Daiei Colour.

A nova saga do clã Taira
Shin Heike Monogatari
Kenji Mizoguchi | Japão | 1955, 108’, 16 mm

No final da era Heian (794 a 1185), o Japão estava dividido entre dois clãs rivais: Taira e Minamoto. Tadanori Taira e seu filho Kiyomori chegam a Quioto depois de uma campanha contra piratas no mar ocidental. A vitória, no entanto, não é festejada pelos membros da corte, que temem o crescente poderio dos samurais. Por conta da exibição do filme no Festival de Cinema de Nova York, em 1964, Eugene Archer escreve para o The New York Times: “As composições líricas em cores pastel ilustram este conto sobre a ascensão dos samurais. Enquanto a câmera vaga pelas multidões em um mercado medieval, um fluxo de contrastes subitamente dramáticos seduz o olhar. Os monges cruéis, os guerreiros violentos, os fracos e assustados aristocratas são vivamente diferenciados pelas cores de seus trajes e comportamento primitivo.” Este é o segundo e último filme colorido de Mizoguchi. [Íntegra do texto de Eugene Archer, em inglês: bit.ly/m-taira].

Rua da vergonha
Akasen chitai
Kenji Mizoguchi | Japão | 1956, 87’, 35 mm

Em uma rua de bordéis em Tóquio, a “Terra dos Sonhos” abriga cinco prostitutas: Hanae é casada com um homem tuberculoso que não pode trabalhar; Yumeko sonha deixar o trabalho e ser sustentada pelo filho; Yorie planeja se casar com um cliente; Yasumi é zelosa com suas economias; e Mickey, de calças justas e rabo de cavalo, é a mais ocidentalizada do grupo. O título original do filme, Akasen chitai, significa em japonês “a zona da linha vermelha”, em referência à prostituição existente na região de Tóquio onde se passa o filme. Rua da vergonha foi realizado em um momento em que a lei da prostituição era discutida no parlamento japonês. Baseado no romance de Yoshiko Shibaki, Susaki no onna, este é o último filme de Mizoguchi, que faleceu em 1956 aos 58 anos. A lei anti prostituição foi aprovada no mesmo ano. A cópia em 35 mm que será exibida faz parte da coleção do National Film Center, do Museu Nacional de Arte Moderna, em Tóquio.



20 de fevereiro

19h

Utamaro e suas cinco mulheres
de Kenji Mizoguchi (Japão, 1946. 92’. 35 mm)

21h30

Mulheres da noite
de Kenji Mizoguchi (Japão, 1948. 71’. 35 mm)

21 de fevereiro

19h

As irmãs de Gion
de Kenji Mizoguchi (Japão, 1936. 68’. 35 mm)

20h30

Elegia de Osaka
de Kenji Mizoguchi (Japão, 1936. 69’. 16 mm)

22h

Oyuki, a virgem
de Kenji Mizoguchi (Japão, 1935. 76’. 35 mm)

22 de fevereiro

19h

A vingança dos 47 ronins [parte 1]
de Kenji Mizoguchi (Japão, 1941. 109’. 35 mm)

21h30

A vingança dos 47 ronins [parte 2]
de Kenji Mizoguchi (Japão, 1942. 109’. 35 mm)

23 de fevereiro

17h15

Crisântemos tardios
de Kenji Mizoguchi (Japão, 1939. 142’. Exibição em DCP)

20h15

A canção da terra natal
de Kenji Mizoguchi (Japão, 1925. 50’. 35 mm)

21h30

Senhorita Oyu
de Kenji Mizoguchi (Japão, 1951. 96'. 35 mm)

Dia 24 de fevereiro

14h

A música de Gion
de Kenji Mizoguchi (Japão, 1953. 84'. 35 mm)

16h

Oharu, a vida de uma cortesã
de Kenji Mizoguchi (Japão, 1952. 148’. 35 mm)

19h

Contos da lua vaga
de Kenji Mizoguchi (Japão, 1953. 97'. 35 mm)

21h

O intendente Sansho
de Kenji Mizoguchi (Japão, 1954. 122’. Exibição em DCP)

25 de fevereiro

14h

A nova saga do clã Taira
de Kenji Mizoguchi (Japão, 1955. 108’. 16 mm)

18h

Os amantes crucificados
de Kenji Mizoguchi (Japão, 1954. 100’. 35 mm)

20h

A princesa Yang Kwei Fei
de Kenji Mizoguchi (Japão, Hong Kong, 1955. 98'. 35 mm)

27 de fevereiro

18h30

A música de Gion
de Kenji Mizoguchi (Japão, 1953. 84'. 35 mm)

20h30

A canção da terra natal
de Kenji Mizoguchi (Japão, 1925. 50’. 35 mm)

21h45

As irmãs de Gion
de Kenji Mizoguchi (Japão, 1936. 68’. 35 mm)

28 de fevereiro

18h30

Elegia de Osaka
de Kenji Mizoguchi (Japão, 1936. 69’. 16 mm)

20h

Oyuki, a virgem
de Kenji Mizoguchi (Japão, 1935. 76’. 35 mm)

21h45

Contos da lua vaga 
de Kenji Mizoguchi (Japão, 1953. 97'. 35 mm)

1 de março

18h30

Oharu, a vida de uma cortesã
de Kenji Mizoguchi (Japão, 1952. 148’. 35 mm)

21h30

O intendente Sansho
de Kenji Mizoguchi (Japão, 1954. 122’. Exibição em DCP)

2 de março

19h

A nova saga do clã Taira
de Kenji Mizoguchi (Japão, 1955. 108’. 16 mm)

21h30

A princesa Yang Kwei Fei
de Kenji Mizoguchi (Japão, Hong Kong, 1955. 98'. 35 mm)

3 de março

14h

Senhorita Oyu
de Kenji Mizoguchi (Japão, 1951. 96'. 35 mm)

16h

Rua da vergonha
de Kenji Mizoguchi (Japão, 1956. 87'. 35 mm)

18h

Mulheres da noite
de Kenji Mizoguchi (Japão, 1948. 71’. 35 mm)

19h45

Os amantes crucificados
de Kenji Mizoguchi (Japão, 1954. 100’. 35 mm)

22h

Utamaro e suas cinco mulheres
de Kenji Mizoguchi (Japão, 1946. 92’. 35 mm)

4 de março

14h

A vingança dos 47 ronins [parte 1]
de Kenji Mizoguchi (Japão, 1941. 109’. 35 mm)

16h30

A vingança dos 47 ronins [parte 2]
de Kenji Mizoguchi (Japão, 1942. 109’. 35 mm)

19h

Crisântemos tardios
de Kenji Mizoguchi (Japão, 1939. 142’. Exibição em DCP)

6 de março

18h30

Rua da vergonha        
de Kenji Mizoguchi (Japão, 1956. 87'. 35 mm)

Conversa sobre Kenji Mizoguchi após a exibição do filme A rua da vergonha, com Chika Kinoshita e João Luiz Vieira 6 de março, terça-feira, às 18h30, Cineteatro IMS Paulista

Ingressos

R$ 4,00 (inteira) e R$ 2,00 (meia).

Meia-entrada com apresentação de documentos comprobatórios para professores da rede pública, estudantes, crianças de 3 a 12 anos, pessoas com deficiência e maiores de 60 anos.

Cliente Itaú: desconto para o titular ao comprar o ingresso com o cartão Itaú (crédito ou débito). Ingressos e senhas sujeitos à lotação da sala.

Capacidade da sala: 145 lugares.

Os ingressos do cinema são vendidos na bilheteria do centro cultural para sessões do mesmo dia e no site ingresso.com

Devolução de ingressos: Em casos de cancelamento de sessões por problemas técnicos e por falta de energia elétrica, os ingressos serão devolvidos. A devolução de entradas adquiridas pelo ingresso.com será feita pelo site.

Ciclo de Adaptações de Quadrinhos - "Vampirella" e "O Monstro do Pântano"


Vampirella (1996)

Ah, doce Vampirella, uma das musas mais queridas da minha pré-adolescência, vivida no filme pela belíssima Talisa Soto, a Gal Gadot da década de 90, que eu já admirava como a Bond Girl de "007 - Permissão Para Matar", a Doña Julia de "Don Juan DeMarco" e a princesa ninja Kitana, de "Mortal Kombat". No roteiro, a primeira pessoa que ela salva é um jovem nerd de óculos que a leva para seu quarto cheio de cartazes de filmes na parede, com direito até a beijo na boca de despedida, sim, inegável, rolou uma forte identificação que me fez fazer vista grossa para todos os problemas desta produção de irrisório orçamento e muitos (d)efeitos especiais. Outro detalhe bacana que vale destacar é a ponta de luxo do carismático diretor John Landis, de "Um Lobisomem Americano em Londres", como um dos astronautas que encontram a jovem anti-heroína seminua em Marte. Houve uma tentativa da indústria de lançar a personagem no cinema na década de setenta, mas foi somente em meados da década de noventa, com ajuda do produtor Roger Corman, que "Vampirella" finalmente estreou na tela pequena, aproveitando o boom do mercado de home video. Levando em conta que a direção ficou sob responsabilidade do incompetente Jim Wynorski, de bombas como "Sorceress" e "Deathstalker 2", até que o produto final não é tão desastroso, cumpre bem sua função, auxiliado pela presença marcante de Roger Daltrey, vocalista da banda "The Who", exageradíssimo como o vilão Vlad. 


Recomendação literária: A editora Mythos lançou a melhor fase da personagem criada por Forrest J. Ackerman e Trina Robbins no belo encadernado de luxo, capa dura: "Vampirella - Grandes Clássicos". Histórias trabalhadas por Archie Goodwin, T. Casey Brennan, Budd Lewis e Steve Englehart, desenhadas no afrodisíaco traço de José González. 

***


O Monstro do Pântano (Swamp Thing - 1982)

Fora o fato de que a Adrienne Barbeau no filme está a cara da cantora Karen Carpenter, pouca coisa chamou minha atenção nesta revisão para o texto, eu lembrava que esta obra dirigida por Wes Craven era ruim, mas a experiência desta vez superou os limites do tédio. É impressionante imaginar que este mesmo profissional iria realizar dois anos depois a obra-prima do terror: "A Hora do Pesadelo". Quem não conhece o personagem nos quadrinhos e vai buscar direto na fonte do cinema, vai tomar raiva e acreditar que o conceito é tonto, tolo e risível, muito longe da realidade filosoficamente profunda trabalhada especialmente no longo arco escrito por Alan Moore. A trama básica segue com relativa fidelidade a origem do monstro, o cientista Alec Holland (Ray Wise) fica preso em uma armadilha explosiva em seu laboratório, quando tentam roubar sua fórmula. O seu corpo flamejante cai no pântano e renasce como uma criatura híbrida. Vale destacar que a subtrama romântica com viés de "A Bela e a Fera" foi criação do roteiro, algo que seria depois utilizado com excelência no arco dos quadrinhos já citado. O vilão Arcane, vivido pelo veterano Louis Jordan, pagando as contas do mês, traz charme, mas não o suficiente para que não nos incomodemos com a representação física do protagonista verde, provavelmente o cosplay mais horroroso da história do cinema trash, consegue ser pior que o clássico da Troma: "O Vingador Tóxico". Veja como curiosidade, caso tenha duas horas para desperdiçar. 


Recomendação literária: A editora Panini lançou a magnífica "Saga do Monstro do Pântano", escrita por Alan Moore, em seis encadernados. É material adulto de altíssima qualidade, imprescindível na coleção de todo fã de quadrinhos. 

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Ciclo de Adaptações de Quadrinhos - "Flash Gordon" e "Tex e o Senhor dos Abismos"



Flash Gordon (1980)

"Flash, eu te amo! Mas nós só temos 14 horas para salvar o planeta Terra!" (Dale Arden, vivida por Melody Anderson)

Durante muitos anos a trilha sonora do Queen era o único elemento que me fazia rever a obra dirigida por Mike Hodges, que apesar de nunca ter alcançado o mesmo nível de qualidade, foi o responsável pela pérola policial "Carter - O Vingador", de 1971. Quando criança, eu não tive contato com o personagem, logo, o meu investimento emocional no filme à época foi raso, o estilo exagerado, kitsch, causava estranheza. Hoje, mais que um guilty pleasure, o título se tornou referência de como um fracasso monumental pode ser mais relevante em longo prazo que um sucesso comportado. O culpado foi George Lucas, o sucesso de "Star Wars" tornou viável outras tentativas espaciais, inclusive "Flash Gordon", personagem que o próprio Lucas tentou trabalhar anos antes, mas teve seu pedido recusado pelo produtor Dino De Laurentiis. Ironia do destino, o italiano apostou na ideia outrora rejeitada, motivado pelo sucesso do revide criativo do jovem que ele havia menosprezado. Sendo coerente com o tom debochado do roteiro de Lorenzo Semple Jr., responsável pelos textos da série sessentista do Batman, substituindo a pegada mais pretensiosa sci-fi do roteirista/diretor Nicolas Roeg, afastado após recusar transformar tudo em pastiche, eles escalaram para o papel principal, após receberem um "não" do Kurt Russell (até ele achou o conceito um pouco exagerado demais), o jovem inexperiente Sam J. Jones, tremendo canastrão que os executivos viram em um programa de namoro na televisão. Um dos maiores atores de sua geração, Max von Sydow, carregando nos ombros o projeto como o vilão Imperador Ming, o único no elenco que verdadeiramente apreciava o herói das tiras de jornal e que, principalmente, desejava estar no projeto. Você sente em sua entrega esta paixão pelo material. Revisto para este texto, o filme se mantém problemático em diversos pontos, mas, ainda assim, fascinante, encantador. 


Recomendação literária: "Flash Gordon no Planeta Mongo", lançado pela editora Pixel, com as páginas dominicais de 1934 a 1937, criadas por Alex Raymond e Don Moore. 
***


Tex e o Senhor dos Abismos (Tex e il signore degli abissi - 1985)

O diretor italiano Duccio Tessari, do competente "Uma Pistola Para Ringo" e da curiosa versão de "A Marca de Zorro", com Alain Delon, comanda o roteiro escrito a três mãos, com o auxílio de Marcello Coscia e Gianfranco Clerici, responsável pelo excelente "O Estranho Segredo do Bosque dos Sonhos", de Lucio Fulci. A opção de ambientar a aventura no terreno do sobrenatural, com sacerdotes malignos que caberiam como luva numa aventura do bárbaro Conan, não foi muito bem aceita pelos fãs, apesar de existirem histórias do personagem com esta temática, não é o caminho mais lógico, especialmente em seu primeiro momento (e único) na tela grande. Eu cresci lendo os gibis do Tex, assim como aqueles livros de bolso de faroeste que eram comprados nas bancas de jornal com o troco da merenda da escola, o elemento que me atraía no personagem era sua conduta íntegra inabalável, os valores que defendia com firmeza, porém, sem perder a ternura, uma espécie de "Superman" do Velho Oeste e sem superpoderes. O filme não faz justiça ao legado dos quadrinhos, a produção é de baixíssimo orçamento, originalmente havia sido pensado como o piloto para uma série de televisão, mas existem acertos consideráveis. Giuliano Gemma está impecável como o protagonista, ele entrega a bravura nas atitudes e no semblante esculpido a cinzel, a sua figura impõe presença silenciosamente. O rancheiro Kit Carson, de William Berger, fisicamente idêntico ao original, caracterização que respeita a essência do personagem, até seus rompantes de pessimismo estão intactos. O índio Jack Tigre, vivido por Carlo Mucari, visualmente diferente, mas carismático, não prejudica o resultado. A ideia consciente de manter os enquadramentos estáticos nas cenas, sem firulas de câmera, para tentar emular ao máximo o senso de movimento das páginas dos quadrinhos, além de facilitar para a equipe, traz realmente uma aura diferente às sequências, especialmente naquelas que envolvem tiroteios ou perseguições a cavalo. É um faroeste crepuscular, o público italiano já não estava mais tão interessado no gênero, mas merece maior reconhecimento. Vale destacar a presença do criador Gian Luigi Bonelli, vivendo o índio que aparece no prelúdio e no epílogo. 




Recomendação literária: A minha história favorita de Tex Willer é "O Vale do Terror", desenhada pelo mestre Magnus, com argumento de Claudio Nizzi, lançada pela editora Mythos na coleção "Edição Gigante em Cores". Se você quer entender o fascínio do personagem, leia esta obra-prima. E se gostar, procure depois "El Muerto", minha segunda aventura favorita da lendária criação de Gian Luigi Bonelli e Aurelio Galleppini.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

CORPO DESPERTO


A mostra CORPO DESPERTO abre a programação do Cinusp em 2018, lançando um olhar sobre a transição da adolescência para a vida adulta, com atenção para o despertar de afetos, desejos, expressões de sexualidade e de gênero experimentados pelos corpos nessa fase delicada e marcante. A curadoria prioriza filmes que não fazem um julgamento moral sobre as descobertas da juventude, mas sim que as observam de perto, com cumplicidade. As 20 obras selecionadas prezam pela diversidade, tanto de estilos cinematográficos quanto de corpos em cena. Diretores fundamentais do cinema moderno europeu, como Pier Paolo Pasolini, Robert Bresson e François Truffaut aparecem ao lado de cineastas contemporâneos, como Sofia Coppola, Larry Clark e Todd Solondz, além de nomes aclamados em festivais internacionais, como Lucrecia Martel, Tsai Ming-Liang e Kim Ki-Duk.
O fio condutor da mostra se encontra na relação muitas vezes delicada e conflituosa, que os jovens são levados a estabelecer com seus corpos nesse momento de transformações explosivas, sofrendo diversas pressões sociais sobre a descoberta de sua sexualidade. Ambiguamente, a repressão convive com a fetichização dos corpos jovens na mídia, o que resulta numa violência psicológica que por vezes descamba para atos de violência física de fato.
Ícone de uma geração, Kids, de Larry Clark, aborda um grupo de jovens envoltos em experimentações com drogas, sexo e violência, causando furor e polêmica quando lançado em 1994, quando a devastação provocada pela   AIDS estava próxima. As Virgens Suicidas, de Sofia Coppola, investiga sensivelmente a repressão sobre a sexualidade feminina no âmbito familiar e escolar. Palíndromos, de Todd Solondz, mostra a influência de uma cultura hipersexual paradoxalmente repressora sobre a vontade obsessiva de engravidar nutrida por uma garota de 12 anos. A estrutura do filme é curiosa, contando com diversas atrizes no papel da protagonista, o que sugere a fragmentação da personalidade sob as pressões do mundo. Dance Party, USA é representante do chamado mumblecore, surgido nos EUA no começo dos anos 2000 com a popularização dos equipamentos digitais, o que facilitou a realização de jovens cineastas. No filme, o diretor Aaron Katz explora os constrangimentos e afetos desconcertados entre um rapaz e uma garota que se conhecem ao compartilhar o tédio em uma festa, usando uma câmera na mão que confere um tom documental e íntimo à narrativa.
Ainda no contexto do cinema independente norteamericano, Pariah trata de identidade negra, com uma protagonista cujo gênero é difícil fixar. Com efeito, sua existência não cabe em limites definidos, seja como “mulher lésbica” ou “homem trans”, extrapolando terminologias binárias. Moonlight: Sob a Luz do Luar, vencedor do Oscar de Melhor Filme em 2017, também se situa na comunidade afro-americana, deixando ver a dificuldade de se expressar não-heterossexual no contexto escolar ou mesmo fora dele. A violência parece estar sempre à espreita.
No cinema contemporâneo, o termo “cinema corpóreo” é muito utilizado para descrever uma experiência fílmica que prioriza a sensação física em detrimento da identificação psicológica e da progressão narrativa clássica. Um dos grandes representantes dessa estética é o malaio Tsai Ming-Liang, que em Vive l’amour desenvolve seu estilo característico, de longos planos-sequência, com câmera fixa, priorizando espaços vazios e figuras humanas desmotivadas, ao abordar um jovem LGBT envolto por desejos ocultos. O sul-coreano Kim Ki-duk mescla questões de sexualidade com a religião budista em Primavera, Verão, Outono, Inverno e… Primavera. Faz-se pertinente questionar: até que ponto os preceitos religiosos podem conviver com os desejos do corpo?
A religião ocupa espaço central também em A Menina Santa, filme argentino de Lucrecia Martel, que mostra uma confusa influência cristã sobre o desejo feminino, sendo interessante a postura ativa da personagem adolescente, que acredita ter vocação para salvar a alma de um homem mais velho por meio do sexo. Também da Argentina, XXYé um dos raros filmes a abordar a identidade intersex. Com estrutura melodramática, em que os conflitos individuais se agravam com o peso das normas sociais, o filme é inovador pela temática representativa. Igualmente inovador é o canadense Bruce LaBruce ao expor o desejo de um jovem por homens idosos em Gerontophilia, numa trama que tem estrutura narrativa clássica, diferentemente dos outros filmes do diretor, explícitos e experimentais. Aqui, o choque se dá justamente pelo fato de a temática, incomum no cinema, ser abordada com proximidade, alternando momentos comoventes e cômicos.
The Angelic Conversation, de Derek Jarman, um dos expoentes do cinema queer, revela de forma experimental a fusão possível da cultura clássica com a desconstrução e reapropriação queer, combinando imagens românticas de rapazes com a leitura de sonetos de Shakespeare. Teorema, de Pier Paolo Pasolini, dirige uma crítica feroz à burguesia, aniquilada pela auto-repressão em face dos desejos incontidos despertados por um jovem misterioso. A nouvelle vague francesa conta com um representante menos conhecido que os clássicos do período, As Amizades Particulares, que aborda um romance gay pueril situado num colégio católico de rígidos preceitos morais.
François Truffaut trata do despertar afetivo de seu personagem-alterego Antoine Doinel no curta-metragem Antoine e Colette, mostrando sua primeira paixão, e aprofunda o olhar sobre seu amadurecimento em Beijos Proibidos, no qual o protagonista se vê atirado, mais uma vez, no universo misterioso dos romances inviáveis. Robert Bresson pode ser apontado como um dos principais nomes no mapeamento de uma gênese do cinema corpóreo, uma vez que seus filmes e seus escritos sobre o cinematógrafo colocam o corpo do ator (ou “modelo”) em primeiro plano, despido de psicologizações. Em A Grande Testemunha, seu estilo particular de filmar detalhes de corpos atinge um novo patamar, dando importância não só à figura humana, de uma jovem que age segundo o próprio desejo, mas também de um burro, igualmente ativo apesar das tentativas humanas de dominá-lo. Outro importante diretor francês, Louis Malle desafia tabus familiares em O Sopro do Coração, trazendo um adolescente cujo corpo convalescente é uma metáfora para a própria condição instável dessa fase da vida.
Para além da França, outros cinemas novos ao redor do mundo abordaram a temática da prática sexual pela juventude, como a black wave (nova onda iugoslava), cujo destacado diretor Dusan Makavejev realiza W.R. - Mistérios do Organismo, sobre o psicanalista Willem Reich e sua teoria do combate sexual da juventude, que trata a prática sexual como atitude política. Já no Japão, com a chamada “geração do sol”, precursora da nuberu bagu (nova onda japonesa), há o filme Paixão Juvenil, mostrando vulnerabilidades e ímpetos violentos do despertar masculino.
Como representante brasileiro na mostra, a curadoria traz Lição de Amor, adaptação do romance Amar, Verbo Intransitivo de Mário de Andrade. Ele mostra uma prática peculiar do amadurecimento masculino, corrente no passado, em que famílias de elite contratavam mulheres para realizarem a iniciação sexual de seus filhos, desconsiderando envolvimentos afetivos e encarando o sexo de forma protocolar, como algo que pudesse ser ensinado.
Com a mostra CORPO DESPERTO, o Cinusp convida todo o público a se deixar envolver pelas sensações pungentes do despertar afetivo da juventude. Seja redescobrindo momentos equivalentes da própria vida, seja conhecendo novos conflitos, o envolvimento gerado pelos filmes selecionados vai além da mera identificação racional, cativando o espectador de corpo inteiro.
Boas sessões!
Rena Zoé
Thomás Ceschin

Dicas de fim de semana. Vá de Metrô!

Acabou o carnaval e a cidade de São Paulo retoma sua rotina cultural com muitas atrações. Entre as opções sugeridas, temos espetáculos teatrais e exposições. Nossas dicas acontecem em locais próximos às estações de metrô. Aqui estão elas.

Bom Divertimento!
MetrôESTAÇÃO ANHANGABAÚ
Estação Anhangabaú

Guanabara Canibal é a última peça da trilogia do dramaturgo Pedro Kosovski e do diretor Marco André Nunes, que conta a história da cidade do Rio de Janeiro.

Saiba Mais
MetrôESTAÇÃO SÉ
Estação Sé

O enredo da peça Os Cadernos de Kindzu é inspirado no universo literário de ‘Terra Sonâmbula’, do escritor moçambicano Mia Couto.

Saiba Mais
MetrôESTAÇÃO SANTA CRUZ
Estação Santa Cruz

A Arte Degenerada de Lasar Segall relembra a perseguição nazista à arte moderna e o impacto das ideias do regime no Brasil.

Saiba Mais
MetrôESTAÇÃO SANTUÁRIO NOSSA SENHORA DE FÁTIMA-SUMARÉ
Estação Santuário Nossa Senhora de Fátima-Sumaré

Em Mulheres de Pedra, o jornalista e fotógrafo Alexandre Augusto expõe o registro que fez do cotidiano de trabalhadoras de Itatim e Itaetê, na Bahia.

Saiba Mais
MetrôESTAÇÃO FARIA LIMA
Estação Faria Lima

O Instituto Tomie Ohtake recebe Julio Le Parc: da Forma à Ação, retrospectiva do argentino conhecido como um dos pioneiros da arte cinética.

Saiba Mais

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Canal Brasil abre chamada para seleção de produções audiovisuais

O Canal Brasil abriu chamada para seleção de produções audiovisuais fora do eixo Rio-São Paulo, contemplando as regiões Sul, Centro-Oeste, Norte e Nordeste e os estados de Minas Gerais e Espírito Santo. Com a iniciativa 'Portal de Projetos', que recebe propostas de séries de ficção e de documentário, o objetivo da emissora é dar, cada vez mais, espaço para conteúdos plurais.
Para participar, as produtoras não precisam seguir nenhuma temática pré-estabelecida, apenas submeter uma ou até duas séries adequadas ao público do canal. Outro requisito é que as empresas sejam brasileiras e estejam registradas na Agência Nacional do Cinema (Ancine) e nas respectivas Juntas Comerciais, com CNPJ regular. Os trabalhos poderão ser inscritos até 8 de março, com duração entre 22 e 25 minutos ou 50 a 52 minutos por episódio, com, no mínimo, quatro e, no máximo, 13. O regulamento completo pode ser conferido aqui.